O impacto silencioso da maternidade sobre o eu feminino
[Série Mês das Mulheres] Dados revelam mudanças profundas na autopercepção e nas relações sociais de mulheres após o nascimento dos filhos.
Por Maria Clara Russini (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

A maternidade costuma ser narrada como plenitude. Fotografias delicadas, discursos sobre amor incondicional e a ideia de realização pessoal compõem o imaginário social em torno do nascimento de um filho. No entanto, por trás dessa narrativa dominante, muitas mulheres relatam uma experiência mais complexa: a sensação de que, em meio às novas responsabilidades, parte de quem eram parece ter ficado para trás.
Uma pesquisa divulgada em 2024 pelo jornal Estado de Minas revelou que 71,1% das mães entrevistadas afirmaram sentir que perderam, em algum grau, sua identidade após a maternidade. O levantamento, realizado com mais de 500 mulheres, também apontou que 80,5% relataram sensação de solidão depois do nascimento dos filhos e 72,9% perceberam mudanças significativas nas amizades. Os dados ajudam a dimensionar uma experiência frequentemente silenciada: a reconfiguração profunda do modo como a mulher se enxerga no mundo.
A mudança não é apenas prática, mas estrutural. A rotina passa a girar em torno das necessidades do bebê, o tempo individual torna-se reduzido e projetos pessoais e profissionais são frequentemente adiados. Nesse processo, a identidade profissional, acadêmica ou socia, construída ao longo de anos, pode parecer secundarizada diante da função materna.
Além das transformações cotidianas, há fatores sociais que intensificam essa percepção. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que mulheres dedicam quase o dobro do tempo dos homens às atividades de cuidado e tarefas domésticas no Brasil. Com a chegada de um filho, essa desigualdade tende a se ampliar, contribuindo para a sobrecarga física e emocional.
A discussão também atravessa o campo filosófico. Para a pensadora francesa Simone de Beauvoir, a condição feminina é historicamente moldada por expectativas sociais. Nesse contexto, a maternidade não se resume a uma experiência biológica, mas se insere em um conjunto de normas e expectativas que influenciam a forma como a mulher é vista e como passa a se perceber.
Segundo a psicóloga Juliana Piccini, formada pela Universidade Paulista e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pela PUC-RS, a maioria das mães ainda possuí uma certa “farda” emocional quando a questão é a maternidade. “Eu acredito que a sociedade ainda carrega uma narrativa muito romantizada e extremamente exigente da maternidade, porque eu vejo bastante no consultório expectativas de mães que acreditam em uma “mãe perfeita”, que é sempre disponível, emocionalmente equilibrada, paciente, produtiva, amorosa e grata; independentemente do nível de exaustão.”
A psicóloga ainda completa ressaltando que a maternidade é um momento muito importante para a mulher e que ele merece ser saudável, contando com uma rede de apoio estável. “Quando a mulher começa a sentir que perdeu quem era, que não reconhece mais a própria vida ou que deixou de ter espaço como indivíduo, isso pode gerar tristeza profunda, sensação de vazio e desânimo, que são sinais importantes de atenção. Ser mãe não deveria significar desaparecer como mulher. Maternidade saudável não é sinônimo de autoabandono e cuidar de si não é egoísmo.”
Embora muitas mulheres relatem sensação de perda, especialistas ressaltam que a identidade não é estática. Ao longo da vida, eventos marcantes provocam transformações e reconfigurações. A maternidade pode representar, portanto, não o desaparecimento do eu, mas uma reconstrução gradual e complexa.
De acordo com a professora da Rede Estadual de Ensino, formada em Filosofia, Pedagogia e Geografia, pós-graduada em Neuroaprendizagem, Psicopedagogia e Artes e Ludicidade Caroline da Silva Nunes, a construção da maternidade perante a sociedade romantiza o silêncio da mãe, e condena qualquer queixa relacionada aos sentimentos dela em relação a essa jornada. “Como professora de filosofia, penso a maternidade não como perda de identidade, mas como metamorfose. O problema não está na transformação, mas na exigência social de que ela seja total e silenciosa. A sociedade costuma aplaudir a mãe que se anula. Pouco fala da mulher que insiste em continuar existindo.”
A professora finaliza comentando sobre sua visão da maternidade como mãe atípica de um garoto com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). “Como mãe atípica, aprendi que preciso lutar duas vezes: pelo desenvolvimento do meu filho e pela preservação de mim mesma. Talvez a pergunta não seja: “Por que as mulheres sentem que perdem sua identidade?”, mas sim: Que cultura é essa que exige que a identidade feminina se reduza à maternidade?”
Reconhecer que a experiência materna pode envolver sentimentos ambíguos como realização e exaustão, pertencimento e solidão, amplia o debate público sobre o tema. Entender essa dinâmica é fundamental para que a maternidade seja discutida de maneira mais ampla, considerando não apenas o papel de mãe, mas a mulher em suas múltiplas dimensões.
