Love Story: o jornalismo predatório com Carolyn Bassette e o jornalismo pop de John F. Kennedy Jr
Na primeira temporada da série Love Story, acompanhamos uma versão ficcional do relacionamento real de John F. Kennedy Jr., filho de um presidente dos EUA assassinado, com a relações-públicas Carolyn Bassette. Os dois se casaram e faleceram poucos anos depois num acidente de avião. A história de amor desse casal, bem como seu fim trágico, foi ao mesmo tempo inspiração romântica e prato cheio para a mídia. Atentando-nos exclusivamente aos acontecimentos como foram retratados ficcionalmente na série, é inevitável ver o papel do jornalismo na vida desse casal. Mas esse jornalismo opera de formas muito diferentes em cada um dos membros desse par romântico.
Começando por Carolyn Bassette, podemos dizer que a série faz nela um retrato da mulher trabalhadora e independente dos anos 1990. Uma mulher esperta, muito consciente de si mesma. Seu charme vem do seu olhar ao mesmo tempo cirúrgico e espontâneo para o mundo. Relações públicas da Calvin Klein, a série coloca Bassette como peça central de posicionamentos centrais da marca que a renovaram naquela década, como a escolha da modelo Kate Moss para estrelar as campanhas da grife. A Bessette retratada em Love Story parece ter uma sensibilidade para captar o espírito daquela época e colocar o marketing da Calvin Klein num estilo moderno, jovem e ousado. Pode-se dizer assim que é uma personagem que entende como a mídia e a comunicação funcionam.
Porém, a mídia é completamente diferente quando se está na frente das câmeras, ou melhor, na mira delas. Assim que seu relacionamento com Kennedy Jr. vem a público, Bassette passa a ser alvo da imprensa de uma forma que nunca desejou. Todos parecem fascinados em saber quem é a mulher que conquistou o coração de um galã como Kennedy Jr., um homem que cresceu acostumado com os holofotes e carregava o peso de ser um Kennedy, uma das famílias mais tradicionais e poderosas dos Estados Unidos.
A mídia fica cada vez mais em cima de Bassette. Jornalistas e paparazzis a perseguem, cada movimento dela é registrado sem que ela queira. Em uma cena amarga, vemos a reação da personagem ao ver o noticiário sobre a morte da princesa Diana. Ela fica assustada e diz que mesmo uma pessoa que gostava da mídia como Diana teve um fim trágico graças ao assédio de tabloides e do jornalismo de celebridades. Ao longo dos anos de casamento, Carolyn Bassette, retratada como uma mulher vibrante, que amava trabalhar e socializar, vai se isolando, sufocada pelo peso do jornalismo de fofocas literalmente na porta da sua casa, esperando que ela saia para que seja fotografada. Ela é uma vítima desse tipo de jornalismo.
Kennedy Jr., por outro lado, é um entusiasta do potencial pop da sua figura. Acostumado com a fama e consciente de ser de uma espécie de “realeza” estadunidense, ele funda em 1995 a revista George, que buscava trazer um olhar pop e jovem para a política. O nome era uma referência ao primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington, e a primeira capa da revista sintetiza a visão de Kennedy Jr. para a revista. A capa mostra a supermodelo Cindy Crawford vestida como uma versão sensual de Washington. Um grande ícone da política e da história do país representado por uma supermodelo. Aqui vale ressaltar o papel que modelos como Cindy Crawford, Naomi Campbell e Linda Evangelista tinham no imaginário daquela época. Era o auge das supermodelos, elas eram o que havia de mais pop, de mais jovem na época. Estavam no videoclipe de Freedom, do cantor George Michael, em desfiles da Versace, na capa de revistas de moda e agora na capa de uma revista de política.
Kennedy Jr. conviveu desde sempre com a ambiguidade de ser ao mesmo tempo uma figura que aparecia no caderno de política e no de celebridades de um jornal. Membro de uma “dinastia” política, sempre se esperou que enveredasse por esse caminho. A sombra de figuras como o pai, presidente, e do tio, senador, sempre o acompanharam. Ao mesmo tempo, John John, como era conhecido, era visto como uma espécie de “menino grande”, de queridinho do país. Namorou celebridades, era bem apessoado e desejado. Então parece natural que, ao se aventurar no jornalismo, esse homem buscasse unir essas duas partes da sua figura, a política e a pop. E ele fez isso na revista George.
O retrato que a série faz de Kennedy Jr., porém, é o de um homem mimado, que não está acostumado a se dedicar muito para receber reconhecimento. Seu sócio na revista vive nervoso com a falta de comprometimento de Kennedy Jr. no trabalho, dizendo que para ele aquilo era mais uma diversão do que um trabalho sério. Independente do grau de veracidade desse retrato ficcional, o que se observa na história da revista George é uma coisa que alguns poderiam chamar de revolucionária, e outros de problemática: a transformação da política em espetáculo, em entretenimento. Essa tendência a espetacularizar todos os aspectos da vida humana é muito presente na cultura estadunidense, e está presente com força no retrato que Love Story faz de Kennedy Jr. e da revista George. Nela, o escandaloso caso de seu pai com Marilyn Monroe é parodiado numa capa. Em outra, Arnold Schwazenegger, ícone dos filmes de ação, aparece vestido como George Washington. Na revista, o público se confunde com o privado, o jornalismo de celebridades se confunde com o jornalismo político. Prova disso é que Schwazzenegger viria a entrar para a política e se tornaria governador do estado da Califórnia. Vale ressaltar que o voto não é obrigatório nos EUA, e que iniciativas como a George poderiam vir a aproximar o eleitor jovem e despolitizado do debate político.
É possível dizer que, de certa forma, a revista George e a própria figura de Kennedy Jr. já prenunciavam o que a política se tornaria na era das redes sociais: um jogo de aparências, onde imagens pop e discursos cômicos se tornam a norma, onde um meme é mais poderoso do que um argumento, onde políticos têm fãs e haters.
Mais do que isso, a própria existência da série já é mais um sintoma dessa tendência ao espetáculo da sociedade estadunidense, sobretudo a atual. Uma série ficcional sobre o relacionamento de duas pessoas que faleceram há menos de trinta anos, onde pessoas que ainda estão vivas são personagens importantes no cenário montado para a ficção. A atriz Daryl Hannah, ex-namorada de Kennedy Jr., é retratada de forma nada lisonjeira na série, e manifestou em suas redes sociais seu descontentamento por ter sido mostrada como uma mulher frívola e desesperada pela atenção da mídia.
Estamos falando de pessoas que existem ou existiram no mundo real e, por mais que cada episódio venha com um anúncio alertando que aquilo se trata de ficção, as coisas facilmente se confundem. Assim como na George, o “sério” e o “fútil” se mesclam, e de repente redes sociais como o TikTok estão cheias de vídeos enaltecendo Carolyn Bassette como um ícone de estilo, enquanto alguns grupos classificam Kenndy Jr. como um homem abusivo cuja irresponsabilidade levou o casal à morte. Baseados no que viram numa série de ficção, o público se sente júri num julgamento de pessoas reais.
Ficção e realidade se misturam em várias formas de arte, assim como política e economia podem se misturar com entretenimento no fazer do jornalista. O perigo é bagunçar as caixas a tal ponto que já não se sabe onde está a realidade.

