“Escola do Futuro” divide opiniões entre moradores, pais e profissionais da educação em São Roque
A mudança envolve fechamento de unidades tradicionais em Maylasky
Por Fernanda Cordeiro, Graça Helena, Kathleen Moneta e e Lavínia Carvalho (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Escola do Futuro | Foto por Graça Helena
A implantação de uma nova unidade escolar em Maylasky, distrito de São Roque, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), tem gerado debate entre moradores, pais e profissionais da educação. O projeto, conhecido como “Escola do Futuro”, prevê um modelo de ensino integral, com maior uso de tecnologia e estrutura ampliada para atender estudantes da região.
A entrega das obras foi realizada no dia 4 de maio, com a presença de autoridades políticas, incluindo Tarcísio de Freitas, governador do Estado de São Paulo, e o prefeito da cidade, Guto Issa. O início das aulas está previsto para agosto, ainda sem data exata definida.
Segundo a Prefeitura de São Roque, a nova unidade terá capacidade para atender mais de 900 alunos. No entanto, a iniciativa envolve o fechamento de tradicionais escolas do bairro, o que divide opiniões entre a comunidade. Entre as instituições que irão fechar estão a EMEF Professor Tibério Justo da Silva e a antiga escola Sítio Alabama.
A mudança gerou insatisfação e profissionais da educação realizaram manifestações em outubro de 2025. Professores da EMEF Professor Tibério Justo da Silva realizaram um ato público em Maylasky para protestar contra o possível fechamento da unidade e a transferência dos alunos para a nova escola. Durante a mobilização, docentes afirmaram que a decisão causou insegurança entre professores, estudantes e famílias e defenderam a necessidade de maior diálogo com a comunidade escolar.
Uma professora de 49 anos, que preferiu não se identificar, afirmou que, em sua avaliação, o programa Escola do Futuro apresenta uma proposta positiva no papel, mas que a implementação ocorreu de forma desorganizada. Segundo ela, os altos valores destinados ao orçamento da escola e as mudanças na rotina administrativa e pedagógica causaram dificuldades e sobrecarga aos professores efetivos da rede municipal, que gostariam de ver o investimento ser destinado para outros setores.
Entre os pontos levantados pelos profissionais e por algumas famílias estão dúvidas sobre a adaptação ao modelo de ensino integral e sobre os impactos da mudança na rotina dos estudantes. Parte da comunidade também questiona se os novos horários serão compatíveis com a realidade das famílias do bairro, além de apontar preocupações com a adaptação das crianças ao novo ambiente escolar, especialmente aquelas que necessitam de maior acompanhamento no processo de aprendizagem.
Essa preocupação também é compartilhada por pais da região. A mãe Elisabete de Moraes, de 42 anos, tem três filhos de 12, 9 e 7 anos e relata experiências positivas na antiga escola Sítio Alabama, outra unidade que atendia alunos da região.
Segundo ela, o ambiente da escola era um diferencial para o aprendizado das crianças. “Era ótimo! Para o meu filho neurodivergente funcionava super bem por ser um lugar calmo, aberto, próximo à natureza e silencioso”, afirma.
Elisabete destaca que o espaço amplo e arborizado ajudava na adaptação dos alunos. No entanto, após o anúncio das mudanças na rede municipal, ela afirma que a unidade sofreu trocas constantes no quadro de professores.
“Começou a ocorrer depois da informação sobre os professores na escola do futuro. Muitos precisaram começar a procurar novas escolas para trabalhar e fazer atribuição, então o Alabama passou por diversas mudanças de professores”, conta.
Para a mãe, a transição para o novo modelo ainda gera insegurança. “A mudança está sendo muito caótica, com várias alterações de prazo. É um ambiente grande, mas pouco arborizado”, afirma. De acordo com ela, o impacto pode ser maior no relacionamento entre os estudantes, principalmente para crianças que precisam de maior adaptação social. “A mudança afeta diretamente como será o relacionamento dos meus filhos com os colegas, principalmente para o meu filho neurodivergente”, explica.
O morador Daniel Larocca, de 58 anos, também demonstra preocupação com o fechamento da escola tradicional do bairro. Segundo ele, a EMEF Professor Tibério Justo da Silva marcou gerações de famílias da comunidade.
“A gente que é morador antigo sempre estudou nessa escola. Muitas pessoas do bairro se conhecem por terem estudado lá”, afirma. Para ele, além do ensino, a escola também funcionava como espaço de convivência comunitária, inclusive com uso da quadra para atividades esportivas entre moradores.
Larocca conta que recebeu a notícia do fechamento com surpresa e tristeza. “Fiquei bem surpreso e até chateado. É triste saber que um lugar onde estudei por anos vai fechar”, relata. Na opinião dele, o bairro perde parte do vínculo histórico entre as gerações.
Já entre alguns profissionais da área da educação, o projeto também é visto como uma oportunidade de modernização. A auxiliar de educação básica Andressa Barros, de 30 anos, avalia que a iniciativa pode representar um avanço para o distrito. “É um marco para a educação de São Roque, principalmente para Maylasky, que é um bairro afastado e muitas vezes esquecido”, afirma.
Conforme Andressa, um dos principais objetivos da proposta é ampliar o uso de tecnologia no ensino. “Comparado com outros estados, demorou muito para inserir a tecnologia, mas percebo que estão sendo plantados vários projetos voltados para isso”, explica.
Para a profissional, a centralização das atividades em uma nova estrutura pode melhorar as condições de ensino. “Não há viabilidade de manter duas escolas com padrões diferentes uma do lado da outra. Acredito que a população, inclusive docentes e funcionários, deveriam ficar felizes com o progresso”, diz.
De acordo com ela, os estudantes das unidades desativadas deverão ser realocados na nova escola, e professores e funcionários terão seus postos de trabalho redistribuídos dentro de instituições escolares da própria rede municipal.
Apesar das expectativas positivas de parte dos profissionais, moradores, famílias e alguns funcionários seguem acompanhando com preocupação o andamento das obras e a implantação do novo modelo educacional. A perspectiva da comunidade é que a nova escola consiga conciliar inovação, estrutura e qualidade de ensino sem perder o vínculo histórico que as antigas unidades mantinham com o bairro.
A reportagem procurou a Prefeitura de São Roque para responder questionamentos sobre o projeto da Escola do Futuro, incluindo os objetivos da iniciativa, as unidades da rede municipal que serão contempladas, as melhorias estruturais, tecnológicas e pedagógicas previstas, o valor total do investimento e a origem dos recursos, além do prazo para implantação completa do projeto no município e os impactos esperados no aprendizado e na rotina de alunos e professores. No entanto, até o fechamento desta reportagem, a administração municipal não havia encaminhado a resposta. O espaço segue aberto.
[Texto produzido na disciplina Jornalismo Regional, ministrada pela professora Mônica Ribeiro]
