É dia de perdão?
No último domingo, enquanto era transmitido o jogo entre Corinthians e Cruzeiro, o narrador convidou os telespectadores a participarem de uma enquete em alusão ao “dia do perdão”. Achei que era piada, não era possível.
Julguei mal.
A pergunta era “como torcedor, o que é mais difícil de perdoar?” Entre algumas opções, a vitoriosa foi “rebaixamento do time”. Fui dar uma olhada no Google e descobri que realmente existe essa data. No dia 30 de agosto, é celebrado o Dia Nacional do Perdão. E com Lei Federal (13.437/2017) e tudo! Já tem nove anos e eu não sabia.
De acordo com o texto, a data é uma oportunidade para estimular a reflexão sobre mágoas, conflitos, reconciliação e a importância de abandonar sentimentos que podem alimentar ciclos de violência.
Quando descobri a origem da data foi uma mistura de dor e de parabenizações. Doloroso, pois quem incentivou a criação foi a ex-deputada Keiko Ota, cujo filho, Ives Ota, foi sequestrado e assassinado aos oito anos, em 30 de agosto de 1997. Lembro bem deste caso, devido à repercussão nacional que ele teve. Mesmo com apenas 10 anos de idade, me recordo perfeitamente das pessoas emocionadas com o caso e ele fazendo parte das conversas diárias em qualquer ambiente que eu passava.
E os parabéns foram devido ao fato de que Keiko e seu esposo perdoaram os assassinos. Será que eu conseguiria? Não sei… e você?
Perdão da dívida.
Perdão da traição.
Perdão dos pecados.
Conexão com a data religiosa judaica conhecida como Yom Kipur.
A palavra tem vários significados, contextos e usos na sociedade.
Nosso amigo Aurélio fala que perdoar é a “ação de se livrar de uma culpa, de uma ofensa, de uma dívida; indulto”, ou “ação através da qual uma pessoa está dispensada do cumprimento de um dever ou de uma obrigação”.
Como bom fã de músicas, quando penso na palavra perdão, logo lembro de um samba da Leci Brandão chamado “Perdoa”: “Se te machuquei amor, perdoa!”. “Can you forgive me?” (Você pode me perdoar?), pergunta Jim Diamond em “I Should Have Known Better”. “Quem ama sempre perdoa, por isso, vou perdoar”, declaram Rio Negro e Solimões na clássica “Frio da Madrugada”.
Raimundo Fagner diz perdoar os “Deslizes”. “A Loira do Carro Branco” de João Paulo e Daniel pede perdão por roubar o carro de quem lhe deu carona. Alguns perdões são difíceis de serem dados, como por exemplo, nas canções “Couro de Boi” e “Filho adotivo” de Sérgio Reis. Na primeira, por ordem da esposa, o filho manda seu pai idoso morar na rua. E, na outra, seis filhos abandonam o pai. Tem perdão que vira até trilogia como nas três versões da música “The Unforgiven” do Metallica.
E existe tempo para pedirmos perdão?
Segundo a canção “Último perdão” do grupo de rap Expressão Ativa, é bom não deixar para os últimos minutos de vida… o personagem, em uma conversa com Deus, assume que cometeu muitos erros em sua jornada, mas deixa para pedir perdão quando sua respiração está quase acabando… não deu tempo…
O sociólogo Zygmunt Bauman, que fala das relações cada vez mais líquidas (rápidas, desconexas, banais) que existem na sociedade, aponta para uma reflexão sobre os perigos de a relação arrependimento/perdão se tornar uma estratégia religiosa de controle social e não um ato vindo do coração.
Dizem as estórias populares que já ocorreram casos em que pessoas que estavam no leito de morte só conseguiram desencarnar após a visita de alguém a quem elas gostariam muito de pedir perdão.
Algumas vertentes religiosas dizem que o velório é o último momento para se pedir perdão à pessoa que se foi. Outras, que mesmo após a morte ainda é possível.
E você, o que pensa sobre o perdão?
Sabia da existência da data?
Já perdoou hoje?
Se está te fazendo mal, não espere, se livre disso.
Uma terapeuta me disse certa vez: “carregue o peso de malas de viagem, mas nunca o de mágoas”.


