(Re)Visitas interioranas
Citar. Rememorar. Recordar. Visitar. Revisitar. Rever. São vários conceitos. Alguns deles estão em um artigo que li uns tempos atrás, chamado “Rememoração e citação em Walter Benjamin”, do pesquisador Georg Otte.
Mas todos, para mim pelo menos, caminham para o mesmo significado. Em um bate papo com uma amiga no ponto de ônibus esses dias, nos perguntamos: “há quanto tempo não vamos na casa de fulano?”
Comentei que depois da pandemia, as pessoas perderam um pouco a cultura de ir à casa dos outros. “Muitos resolvem isso em uma vídeo chamada”, ela complementou.
A você que me lê, faço a mesma pergunta: há quanto tempo você não vai visitar o parente x ou o amigo y? Há quanto tempo você não revisita seus textos antigos? Há quanto tempo você não desenterra aquele cd que ganhou de uma pessoa muito especial — que muitas vezes consta na dedicatória — ou que contenha músicas que te fazem lembrar dela ou de alguém?
O Natal está chegando. Será que você não tem vídeos que seria legal rever, ou um cartão que te faça viajar no tempo, às vezes chegando no tempo de infância? Eu fiz isso e encontrei um que ganhei de um colega de trabalho em 2007; isso me fez revisitar boas lembranças.
Aproveitei a ideia e visitei alguns textos/poesias antigos(as). Como a nossa escrita reflete nosso tempo, não é mesmo? Me diverti com isso. Vi um outro “Rafael escritor”, bem diferente do de hoje.
Fica a dica: visite os amigos que não vê há algum tempo. Cite um texto antigo seu em um novo. Rememore pessoas que foram importantes para você. Recorde cenas do passado. Revisite produções antigas. Reveja produtos que exercitem sua memória.
O título dessa coluna não tem nada a ver com geografia. Leia novamente agora, que você entenderá.
Deixo aqui alguns dos textos/poesias de 2018 que comentei:
“LEOA”
Forte leoa, como pode estremecer tão rápido a imponência do rei da selva?
Pela sua postura? Pelo seu papo, rico de conteúdo intelecto cultural?
Pela garra como defende seus ideais, como até a mais besta fera defende suas crias?
Pelo seu cuidado com as causas sociais, sendo um Dembe Zuma a elas?
Pelo seu jeito místico envolvente como a melodia e letra de N.I.B?
Pelo seu beijo molhado e envolvente como uma teia onde mesmo com o senso de perigo buscando uma saída, deseja-se continuar, pois o roçar de seus lábios eram como opiáceos na frente de um viciado em recuperação?
Pelo seu senso acurado em estudar tudo o que existe fora de nosso plano carnal?
Pelo seu olhar que ao mesmo tempo que demonstrava vislumbre com o que via, exalava intenso ar de cobiça, confundindo de Salomão a Moro?
Pelo seu sexo transcendental, que leva a uma viagem psicofisicocerebal onde a ausência de ou um simples toque pode proporcionar sensações até então inimagináveis. Viagem está que nem mesmo um quarentenal debate entre Feynman e Einstein poderia definir.
Não sei dizer o que é, mas essa leoa provoca peseudo feridas na pele, na alma e na memória, feridas estas que não sei ainda se podem ser ou se deixo cicatrizarem, por tão estranha dor.
“O QUE É SAUDADE”
O que é Saudade?
Não sei descreve-la,
Mas sinto-a.
O que é Saudade?
Não sei defini-la,
Mas a entendo.
O que é Saudade?
Não sei mensura-la,
Mas sei o quanto ela pesa.
O que é Saudade?
Não sei qual é sua cura,
Mas sei o quanto ela dói.
O que é Saudade?
Não sei se outros a sentem,
Mas sei que não a desejo para ninguém.
O que é Saudade?
Não sei se tens amigos,
Mas sei que nunca oferecerei minha companhia.
O que é Saudade?
Não sei se ela sente saudades de alguém,
Mas sei que se sim, deveres de penar.
O que é Saudade?
Não sei se bebes algo,
Mas sei que nunca lhe pagarei uma segunda dose.
O que é Saudade?
Não sei se é uma mulher,
Mas sei que nunca irei querer dividir o mesmo leito.
O que é Saudade?
Não sei se realmente tenho certeza de sua forma abstrata,
Mas sei que sua presença constante e sedutora, pode me apaixonar.
O que é Saudade?
Não sei,
Mas sei que aparenta ser um livro sem fim,
que nunca o indicarei, por acreditar que a musa, matou o artista.
O que é Saudade?
Não sei se é uma água salobra,
Mas sei que me causa estranhas e intensas sedes.
O que é Saudade?
O que é Saudade?
O que é Saudade?
Não sei…
Mas sei que é, o que sinto, longe de você…
“O QUE É AMOR?”
Seria como Etan, destruidor?
Ou aquela mão que ajuda um acender de cigarro numa ventania litorânea?
Seria um band de Still Got the Blues,
Ou riff perfurante e perturbador de Iommi?
Sinônimo de dinheiro, que te traz tudo, mas também a infelicidade;
Ou o abstratismo de uma palavra que pode ter a força de uma corda de resgate?
Será ele a simplicidade de Adoniram, ou a perfeição de Chopin?
Será que pode ser alcançado somente através de um IPhone, ou na longa viagem de um pombo correio?
Será que Pode estar ao mesmo tempo nas mãos de Deus que dão a vida, e nas de Bundy?
Será possível ser encontrado ao mesmo tempo em lágrimas ou sorrisos de Chaplin, ou na tristeza, alegria e genialidade de Mazzaropi?
Será que após mil palavras pode ser definido, ou um simples e único gesto responde mais?
O que é o amor?
Não sei defini-lo…
Mas sei exemplifica-lo:
É o que sinto por você!
“MISTERIOSA”
Porque surgistes em minha vida com esse mistério contundente e perturbador, como as letras de Sabbath?
És uma afronta mandada pelos malignos ou um teste dos divinos?
Procuro respostas que não encontro…
Estas, que nem mesmo uma egrégora entre Holmes e Horatio Caine poderia trazer.
Essa busca incessante pelo desvendar de tua face está mais longa e angustiante que a de Ryan Hardy e Joe Carroll.
Mistério que me envolve, me seduz, me atiça, me causa conflitantes ganas, que me cega, que me vicia, que me entorpece como uma mandrágora.
Mesmo após 9 meses na Marmetina ao lado de Hercule Poirot e Auguste Dupin, não conseguirei te dissecar…
Como te desvendar?
Com a ajuda de Henrik Fexeus?
Te analisando como um observador atônito de um ataque de um escorpião a sua presa?
Recorrendo a um contato extra carne com Houdini?
Através de seu beijo?
Através de seu sexo?
Através do seu olhar?
Já tentei…, mas a única coisa que consegui foi me apaixonar ainda mais…
Paixão esta por este olhar, indescritível, como o Paraíso Perdido de John Milton, onde ora vejo a delicadeza e meninice de Anita, ora a potência e o desgarramento de Lana Starck.
Será que terei que conviver com esse mistério para o resto de minha vida? Igualmente aqueles que olham para Stonehenge, ou aguardam a próxima capa da Darkside?
Seu mistério se entrelaça aos meus sentidos como as primeiras notas de Silence de Beethoven, me provocam como as palhetadas de Hetfield e me atingem como as emissões vocais de David Draiman em The Sound of Silence.
Será você a Lila de meu Dexter?
Não sei…
Somente sei que ao mesmo tempo que quero te desvendar, ainda quero continuar bebendo dessa bebida que me causa dependência, chamada:
SEU MISTÉRIO!
“GUERRA DE AMOR”
Por que foges de mim ó deusa grega?
Dilacerando meu coração com olhares de desdém e que geram esperanças isonomicamente.
Por que me fazes sofrer de amor?
Fragmentando sua ternura; será por puro prazer próprio? Já que sabes que as simples migalhas de seu amor podem satisfazer as mais miseras de minhas fomes sentimentais.
Por que negas que me ama?
Mesmo sabendo que por tanto te amar meu coração chora, umedecendo meu mais profundo âmago, com lágrimas; estas que não sei se são de sangue, de dor por tanto amor não correspondido ou de alegria por cada vez que apenas lembro de sua existência…
Por que segregas seu corpo do meu?
Contrariando o que já conheces; o meu discurso de como é bom sentir o forte calor que ressurge da sua pele com a intensidade de um vendaval destruidor.
Por que dá-me as costas?
Independente de eu estar exclamando que delírios e pensamentos inexplicáveis surgem em minha mente quando te vejo, ouço sua voz ou simplesmente quando seu nome ressoa em qualquer parte do universo.
Minha razão, em um interrogatório frio e provocativo me perguntas: isso é amor? Mesmo nesse momento de confusão psico-sentimental, meu coração responde que sim!
Isso é amor…
Amor que ultrapassa qualquer montanha para te ver, amor que faz com que palavras de carinho e paixão borbulhem em meu ventre desatinadas para sair e exclamar minha intensa e imensa alegria em te ver
Sofro por te amar?
Sim, mas eres senhora de qual não quero que a escravidão termine. Em momentos de mínima lucidez, ainda me pergunto: será loucura? Será apenas uma paixão? Ou apenas um leve delírio? Será que estou a sonhar? Não sei…, mas sei que obter seu amor, é uma batalha em que nunca deixarei de guerrear.

