Uma Aventura no Universo Pokémon em Sorocaba: Como seria se o Ash viesse caçar Pokémons no Parque da Água Vermelha?
Nesta narrativa, o personagem Ash é usado como recurso literário para mediar o encontro com os entrevistados. As circunstâncias dos encontros são fictícias, porém a ambientação e os depoimentos são reais. Os trechos de falas que passaram por modificações para dar sentido à conversa serão sinalizados. Na história, Ash é um personagem real que tem consciência de que sua jornada foi televisionada.
Por Laura Machado (Agência Focas – Jornalismo Uniso)



Registros da reunião da comunidade no aniversário de 2 anos. Imagem: Laura Machado
Ash Ketchum, o herói da cidade Pallet, decide passar um fim de semana caçando Pokémons na cidade de Sorocaba após ouvir sobre um famoso grupo de caçadores na região. Após chegar em seu destino no sábado de manhã, Ash busca saber qual seria o local ideal para iniciar sua jornada em Sorocaba e conhecer a comunidade.
No vai e vem das pessoas, um brilho amarelo chamou sua atenção: uma camiseta do Pikachu, vibrante em meio ao cinza do asfalto e da calçada. Logo, imaginou que ela pudesse ser uma caçadora Pokémon e aproveitou para cumprimentá-la. Assim ele descobriria que ela era Natalia Rolim Fogaça, pedagoga de 26 anos e moradora de Araçoiaba da Serra.
Natália contou que seu primeiro contato com Pokémon foi na infância, quando tinha por volta de 5 ou 7 anos e assistia o desenho ao chegar da escola. Depois, ela ficou um bom tempo sem acompanhar, até que em 2023, seu chefe a apresentou ao Pokémon Go e ela sentiu que precisava conhecer mais um pouco do universo.
A: Aha! Então você me assistia batalhar nas telinhas e me abandonou, mas voltou graças a esse tal de Pokémon Go… Interessante, vou pesquisar um pouco sobre. Agora, me conte, você fala sobre Pokémon com seus alunos?
N: Meus alunos também gostam muito de Pokémon, de repente até sabem mais do que eu, então eu chego na escola já com a camiseta do Pikachu, com brincos de Pokémon e eles adoram. A gente troca cards, fazemos um monte de coisa juntos. Então a gente acaba conversando sobre o desenho, sobre algumas mensagens e ensinamentos. Muitas vezes eu falo com eles sobre a causa animal, eu adoro animais e eu acabo fazendo essa associação para eles utilizando o seu exemplo1, que foi lá e acabou resgatando o Charmander, assim como seus amigos2 cuidaram e acolheram o bichinho. Isso é muito importante, não abandonar, não maltratar, sempre acolher, cuidar e fazer o melhor que você pode pelo bichinho porque ele é seu amigo.
1 – Natália diz “fazendo essa associação para eles entenderem que realmente o Ash foi lá e resgatou o Charmander”.
2 – Natália diz “os amigos dele”.
Enquanto Natália falava sobre ensinar as crianças a cuidar dos animais, Ash sentiu uma memória acendendo no peito.
“O Charmander… ele quase apagou de tristeza. Se eu não tivesse encontrado ele naquela chuva…”, pensou, olhando para a professora com admiração.
Era reconfortante perceber que, em um mundo sem Pokébolas, aquelas pessoas ainda entendiam o valor mais profundo de sua jornada: cuidar antes de batalhar.
“Eles realmente aprenderam o que eu tentei mostrar por tantos anos.”
A: Os Pokémons são um ótimo exemplo de cuidado e parceria mesmo. Você mencionou que tem alguns itens colecionáveis, você coleciona mais coisas?
N: Bastante coisa! Eu gosto muito da Amaura, um Pokémon fóssil que não é tão conhecido assim. Não se encontra coisas com facilidade, então eu encomendo.
Natália mostra objetos de impressão 3D, cards, decorações e diz que a Amaura/Aurorus deveria ser mais reconhecida.



Alguns dos itens colecionáveis de Natália que ilustram seu amor pela personagem. Imagem: Arquivo Pessoal
N: No Pokémon Go, ela foi um dos primeiros que eu capturei e eu pensei “que bonitinho um bichinho azul, sorrindo, balançando, que gracinha, vai ser minha melhor amiga!”.
A: Poxa, que bom que você encontrou sua melhor amiga, é sempre importante ter uma boa companhia na nossa jornada de caçador Pokémon.
Ash continuou curioso sobre o Pokémon Go, ainda mais depois de Natália dizer que sua avó de 84 anos também se apaixonou pelo jogo. Ash se despede de sua nova amiga e resolve fazer uma pausa na caminhada para pesquisar sobre Pokémon Go.
Ao jogar esse nome na rede de pesquisa, ele descobre um fenômeno que atraiu milhões de pessoas, inteiramente baseado em seu universo e em suas criaturas.
Pesquisando um pouco mais a fundo, Ash descobriu que existia uma comunidade de Pokémon Go em Sorocaba, que se reunia para caçar no Parque Natural da Água Vermelha. O Campeão Mundial Pokémon, buscando novas aventuras, parte para o Parque sem pensar duas vezes.
A: Ah! Então os famosos caçadores são os jogadores de Pokémon Go! Preciso conhecê-los.
Enquanto usava o GPS para se localizar e encontrar a entrada do parque, Ash foi atraído por um pequeno ponto movimentado: na calçada, havia uma mesa com diversos produtos com Pokémons estampados, desenhos e pelúcias… Curioso, o mestre Pokémon se aproximou dos dois jovens atrás da mesa para entender sobre o que estava acontecendo ali.
A: Oi pessoal! Que legal o que vocês estão fazendo aqui. Como vocês se chamam?
Q: Meu nome é Quéren Garcia, tenho 26 anos, sou professora de inglês e de artes, ilustradora e desenhista. Também vendo minhas artes.
A: E quem é seu amigo?
P: Meu nome é Paulo Kaliske, tenho 28 anos e sou encarregado de açougue.
A: Prazer, Quéren e Paulo! Eu sou o Ash! Por quê vocês estão vendendo produtos de Pokémons?
Q: Desde pequena eu gostava muito de Pokémon e me interessava muito por artes, então juntei os meus desenhos com uma coisa que eu gostava.
P: Sempre foi um gosto desde criança também, sempre amei Pokémon e tinha deixado meio de lado esse sonho, mas depois vi ela vendendo e isso me motivou a voltar nesse meio. Depois, conversei com meu primo que costura e tivemos a ideia de criar um instagram nosso para começar a vender pelúcias.
A: Que demais! Adorei os produtos do Pikachu!

Alguns dos produtos vendidos por Quéren e Paulo. Imagem: Laura Machado
Ash se despediu e seguiu caminhando e buscando a entrada do parque. Então, ele se deparou com um pórtico verde e branco, com as escritas “Parque Ecológico Água Vermelha” em preto. Ele não sabia o que esperar quando entrou no parque, mas se deparou com uma vasta natureza e caçadores de todas as idades e estilos. Assim que atravessou o pórtico verde e branco, Ash sentiu o ar mudar. O frescor úmido das árvores antigas tomou o lugar do calor da rua.
O mestre Pokémon se deparou com um vasto lago cortando o parque, que tinha uma enorme variedade de flora, de altas palmeiras até árvores de copas largas. Gansos andavam à beira do rio, próximos às famílias que descansavam e faziam piqueniques.
Ao ver tudo aquilo, pensou que aquele lugar tinha algo raro: a harmonia entre o mundo humano e o natural, exatamente como o Professor Oak sempre lhe ensinara.


Vista do parque. Imagem: Laura Machado
O Mestre Pokémon observou um grupo de jovens caçadores que aparentavam ter cerca de 7 a 12 anos.
Um menino que estava acompanhado de dois adultos chamou a atenção de Ash por estar com uma roupa um tanto quanto familiar.

Matheus com sua fantasia de Ash na frente do Parque. Imagem: Laura Machado
Conversando com a mãe do rapaz, Íris Daval, mentora e palestrante de 34 anos, Ash descobriu que o nome dele era Matheus Daval, ele tinha 7 anos e já estava na comunidade de Pokémon Go há dois anos, tendo descoberto o jogo sozinho. Ash ficou surpreso com a idade de Matheus, que começou sua jornada de caçador muito jovem.
A: Nossa, ele é um prodígio! Boa sorte na sua jornada, Matheus!
Ao ver o pequeno Matheus com a fantasia que lembrava a sua própria roupa, Ash sentiu um misto de orgulho e nostalgia.
“Comecei com 10 anos… mas ele já vive tudo isso com 7? Que coragem.”
O Mestre Pokémon ainda queria conversar com os líderes da comunidade para entender como havia sido possível organizar tudo aquilo que ele estava presenciando: pessoas de todas as idades se divertindo, jogando e brincando juntos. Conversando com alguns caçadores, ele foi instruído a procurar um rapaz com uma camiseta escrito “Xuxa”, que era o apelido de um dos líderes do grupo.
Depois de algum tempo, Ash encontrou o “Xuxa”. Tratava-se de Gustavo Henrique Costa, de 33 anos, especialista em produtos. Ele estava acompanhado de Carolina Pires Alves de Souza, também de 33 anos, analista de dados.
Gustavo se apresentou e disse que cuidava da parte mais social do projeto, recebendo o pessoal, conversando e vendo se alguém precisa de ajuda.
A: E como se iniciou o Sorocaba Go?
G: A empresa do jogo, a Niantic, ela lá atrás resolveu fazer um projeto de comunidades, porque é difícil o próprio jogo controlar todos os jogadores, então é mais fácil você centralizar em comunidades específicas para elas se autorregularem. Cada cidade, cada comunidade tem necessidades diferentes, uma quantidade de jogadores diferentes, então as próprias comunidades fazem esse controle. A gente não recebe nada da Niantic, então é tudo na nossa conta mesmo. Temos um apoio muito básico que eles dão com alguns itens, mas a maior parte vem da comunidade em si.
Gustavo ainda completou comentando que se trata de um projeto internacional, onde as pessoas podem solicitar a criação de comunidades a partir da observação de grandes grupos de jogadores. Além disso, existem grandes eventos em capitais para a integração entre comunidades do Brasil e de da América Latina.
O grupo de Sorocaba se organiza através de canais de WhatsApp que são separados por bairros, para que as pessoas se conheçam e se aproximem.
Ainda entendendo tudo aos poucos, Ash questiona sobre a funcionalidade do jogo. Então, Carol, que joga assiduamente assim como Gustavo, se oferece para trazer a visão dela de quem também conheceu esse universo repentinamente.
C: A ideia do jogo é que você se movimente, você caminhe, então não é para você jogar de casa. Teoricamente as pessoas teriam que passear pela cidade, em uma velocidade baixa, para o jogo entender que você está caminhando ou no máximo andando de bicicleta. Então, o ponto de partida mais óbvio é a residência da pessoa, e se você sai andar no seu bairro você vai encontrar outras pessoas jogando também.
Gustavo comentou que sempre foi um fã da franquia e que no dia do lançamento do jogo, ele estava ansioso e começou a jogar assim que ele foi disponibilizado, mas parou por um tempo e voltou recentemente, no final de 2024. Ele observa que o jogo evoluiu muito durante essa pausa.
G: Enquanto eu estava parado ele cresceu muito, então tipo, cada esquina, cada bar tem um Poke Stop, tem um ginásio. Você tem atividades pela cidade inteira independente de onde você se encontra, então você não precisa ficar fixo só na prefeitura ou só na Kasatu Maru igual era antigamente.
A: E a comunidade também é abrangente, né? Vi até crianças caçando Pokémons.
G: Tem a nova geração, que são os filhos de quem assistia Pokémon quando era criança, e esses pais querem apresentar essa parte da memória afetiva que eles tem pelo Pokémon, pela franquia para os filhos e passar de geração em geração. Ele ainda aponta que tem outras crianças que acabam encontrando esse universo sozinhas.
Carol ainda reforça que esses jovens membros sempre estão acompanhados dos pais, por ser um jogo que exige locomoção na rua.
O grupo sorocabano encontra força e ajuda na comunidade, que se entrosa e oferece apoio através de brindes e oportunidades para rifas, sorteios e eventos. No dia 30 de agosto de 2025, a comunidade fez uma comemoração de aniversário de 2 anos, reunindo artistas como Quéren, mesas para troca de itens colecionáveis e sorteios que movimentaram o pessoal.
A: Vocês têm uma noção de quantos jogadores estão nessa comunidade?
G: Por se tratar de um jogo mobile, tem muito entra e sai de jogadores, então tem os jogadores fixo que a gente sabe que vai bater carteirinha todo final de semana e tem aqueles jogadores que vem, jogam por 2, 3 meses, cansam e voltam depois de 5 meses. Tem também os que jogam um pouco, não gostavam, mas acabam comentando com alguém que depois vem jogar também. Isso acaba gerando uma rotatividade muito alta, mas que acaba sendo bom para o pessoal que apoia a gente, porque quando divulgamos mensalmente, acaba atingindo mais gente.
Os eventos são divididos entre grandes eventos de lançamento de novos Pokémons, Dias de Rede que acontecem nos ginásios do Pátio Cianê e eventos de Dia Comunitário, que acontecem no Parque da Água Vermelha, reunindo famílias. Em eventos mais corriqueiros, como o Dia Comunitário, a comunidade reúne cerca de 100-150 pessoas.
A: Nossa, são muitos caçadores reunidos! Por isso eu ouvi falar de vocês! Existem outros grupos bem reconhecidos no estado de São Paulo?
G: Nós somos a maior comunidade do interior do Brasil. Todas as demais que estão acima da gente são capitais, por exemplo São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte. Acho que essa parte social e mais humana que a gente disponibiliza é o que chama mais atenção, tanto que vem jogadores até de Votorantim, de Piracicaba, e outras cidades da região para jogar aqui com a gente.
Na visão de Carol, Gustavo gasta umas 10 horas por semana gerenciando o projeto, e ela, como acompanhante, passa cerca de duas horas envolvida na organização da comunidade. As comunidades do WhatsApp exigem bastante atenção e controle das mensagens enviadas, além dos eventos, que exigem organização no pré e no pós. Também existe um controle das redes de apoio de doadores, gerenciando as relações e estoque de brindes. A rotatividade de líderes do projeto também é movimentada, gerando diversas perspectivas na liderança com grupos selecionados por sua capacidade de levar o projeto adiante.
Quando Gustavo falou sobre a organização da comunidade, Ash os observou com respeito.
“Eles fazem aqui o que muitos líderes de ginásio faziam nas cidades que visitei… acolhem, orientam, mantêm todos unidos.”
Ash agradeceu à Carol e Gustavo pelas explicações e os parabenizou pela gestão da comunidade. Antes de chegar em Sorocaba, ele não sabia que era possível reunir tantos caçadores de diversas idades e cidades através de jornadas virtuais, mas que incentivam a atividade física e a interação. Ele sabia que iria encontrar algo de especial nessa cidade e não via a hora de contar sobre todos os seus novos amigos para o Pikachu.
