Uma Silva que a estrela brilha
“Todo mundo devia nessa história se ligar.” A frase inicial da canção Rap do Silva de Mc Bob Rum faz muito sentido para a abertura do texto da coluna dessa quinzena. Mas, no caso de hoje, o trecho “Era só mais um Silva que a estrela não brilha” não se encaixa, pois a Silva de quem eu vou falar não é só mais uma, e para ela a estrela brilhou e ainda brilhará muito.
Me lembrei desse rap, não somente por ser um clássico de denúncia há mais de 20 anos e por ter em seu título o sobrenome da personagem desse texto, mas também por Silva ser o sobrenome que mais se repete em nosso país, segundo o IBGE.
Se os Silvas são muitos, por viverem no Brasil, onde mais da metade da população se autodeclara negra, as chances de eles serem pessoas pretas que lutam diariamente contra inúmeros obstáculos são muito grandes.

Ancestralidade na prática: três gerações em uma mesma foto, Eliana (à esq.) ao lado de sua mãe e filha | Créditos: Rafael Filho
De acordo com o IBGE, o sobrenome é derivado do latim e significa “selva” ou “floresta”. Tenho conhecimento de que o termo “da/do/dos” antes de sobrenomes era utilizado para informar a que família um escravizado pertencia — exemplo: quem pertencia a família Santos, era o “dos Santos” — mas aqui darei outro significado: Se Silva significa “selva” ou “floresta”, “da Silva” significa guerreira, desbravadora, defensora das matas, assim como meu Orixá Oxóssi. E essas qualidades condizem muito com ela: minha amiga Eliana Miranda Silva, a quem carinhosamente chamamos de “Bunita”.
Já imaginou, no mês das mulheres, uma mulher negra, próxima dos 60 anos, mãe solo, conquistar sua primeira graduação em uma instituição privada, em um curso considerado de elite (gastronomia) e de quebra colar grau no mesmo dia que sua filha, com a presença de sua mãe, a matriarca da família?
Sim, isso aconteceu. No dia 24 de março de 2026, na Uniso.
Sabe como eu sei? Te respondo com um bordão do saudoso e eterno Marcelo Rezende: “eu estava lá!”.

Rafael Filho e Eliana durante a cerimônia de colação de grau | Créditos: arquivo pessoal Eliana Miranda
Assim como o Silva do rap, Eliana é uma “trabalhadora, pega o ônibus lotado, tem uma boa vizinhança, e é considerada, todo mundo diz que ela é uma pessoa maneira.”
Nos conhecemos desde 2018 e nossa amizade se fortaleceu cada vez mais com o passar dos anos. Ela foi essencial para o meu encontro com o personagem do meu livro-reportagem (TCC) “Jorge Narciso de Matos, Um Mestre Sala nos Mares Sociais”, algo que agradecerei eternamente.
Eu cursei gastronomia em um passado não tão longínquo, mas por reviravoltas que a vida acadêmica dá, parei o curso para seguir no mundo do jornalismo.
Eliana quase desistiu por conta dos cansaços físico e mental que os estudos acadêmicos nos causam, mas a força da resistência que corre nas veias do povo preto não deixou. Ao saber que concluiria o curso em 2025, pensei e disse a ela: “e se eu reabrisse minha matrícula, concluísse e colasse grau junto com você?” Ela respondeu que seria ótimo. Complementei: “seria um sonho se desse certo da Aninha colar no mesmo dia que a gente”. Em resposta, ela disse que seria muito emocionante. E falei mais: “e se a Dona Dina viesse? Já pensou, no mês das mulheres, três gerações da mesma família presentes na cerimônia?” “Ai seria um espetáculo”, ela me disse.
Aninha é Ana Cristine Miranda Duarte, filha única de Eliana, que se formou no curso de Estética e Cosmética (sua segunda graduação, sendo Prounista na primeira), e “Dona Dina” é a forma carinhosa como chamamos sua mãe e matriarca da família, Enedina Miranda.
Foi encantador ver tantas pessoas importantes para Eliana chegando e perguntando: “Rafa, cadê a Bunita? Viemos para ver esse momento incrível”.
E novamente como no Rap do Silva, “Anoitecia. Ela se preparava, para curtir o momento emocionante que em suas veias rolava. Os seus olhos brilhavam, ela estava animada. Sua alegria era tanta ao ver que tinha chegado. Foi a primeiro a descer e por muitas foi saudada”
Dessa vez não é só mais um Silva.
É mais uma preta formada (no mês das mulheres) nesse Brasil tão preconceituoso, misógino e racista.
É vitória.
É resultado de lutas, de resistência.
É a interseccionalidade se fazendo presente.
É a Bunita.
É Eliana.
Parabéns “Xará”!






