MET Gala 2026: professora de Moda da Uniso compartilha suas impressões sobre o baile
Por Gustavo Guebert (Agência Focas – Jornalismo Uniso)


Heidi Klum e sua referência, a Rebeca Velata, de Giovanni Maria Berzoni
No último dia 4 aconteceu o MET Gala, baile já tradicional do Costume Institute do MET (Metropolitan Museum of Art), de Nova York. O baile, que se originou nos anos 1940 como forma de arrecadar fundos para o Costume Institute, hoje tem o tapete vermelho mais extravagante do mundo, por onde passam grandes celebridades em trajes dos maiores estilistas.
O Costume Institute
De certa forma, o Costume Institute é um museu dentro de um museu. Diferentemente das outras partes do MET, ele precisa se financiar por conta própria. O acervo desse instituto reúne peças de vestuário de todo o mundo e de várias épocas, e busca preservar essas peças como manifestações da cultura humana e da moda como uma forma de arte.
Anualmente, o Costume Institute inaugura no início de maio uma exposição temática, e na primeira segunda-feira desse mês o MET recebe em seu salão o MET Gala, baile onde os convidados se vestem inspirados pelo tema da exposição daquele ano.
“Fashion is art”
O tema da exposição deste ano é “Costume art” (arte do traje) e o tema do baile foi “Fashion is art” (moda é arte). Alinhado com as origens do Costume Institute, o dress code do baile convida a pensar em trajes inspirados em outras formas de arte, como pintura, escultura, cinema e fotografia.
Professora e artista opina
A professora Laura Mello de Matos tem relação próxima com os dois temas do MET Gala 2026: moda e arte. Ela é coordenadora do curso de Moda da Uniso e uma reconhecida pintora, trazendo em seu trabalho temas como vestuário, bordados e detalhes do cotidiano.
Segundo ela, “a relação entre Arte e Moda se sustenta na História da arte desde o período gótico. Artistas eram os responsáveis pela criação dos trajes da nobreza e de compartilhar através das obras de arte a moda vigente na Europa. O próprio Diego Velásquez cuidou pessoalmente da criação de todos as vestimentas do casamento da Infanta Maria Teresa com Luís XIV. Mas foi no século XX que essa relação se tornou cada vez mais próxima tornando as produções de artistas e estilistas interligadas e concorrentes.”
Sobre o MET Gala 2026, ela diz que “corpo, arte e moda foram inseparáveis na construção dos trajes do MET. O corpo é a estrutura que sustentará a ideação dos trajes e conceitos de arte desenvolvidos. Na sua maior parte foi utilizado com essa finalidade.” Ela traz à tona uma parte importante do dress code do baile deste ano, que era a relação da moda e das roupas com o corpo.
A professora aponta que essa relação se fez presente especialmente em alguns looks, como o da modelo alemã Heidi Klum, que apareceu vestida e maquiada como uma estátua de mármore, a Rebeca Velata, de Giovanni Maria Berzoni. “O traje foi construído sobre seu corpo e a rigidez da escultura é a base da proposta, entretanto perde o sentido de vestuário de moda.”
A cantora Madonna ousou referenciando o quadro A Tentação de Santo Antônio, de Leonora Carrington. No centro do red carpet, ela apareceu com um chapéu em formato de navio criado por Philip Treacy, um vestido Saint Laurent e um véu que se dividia em cinco direções, com cada ponta segurada por uma modelo vendada. Para a professora Laura, Madonna foi “a que melhor trouxe a obra, embora eu discorde da utilização de outras pessoas segurando o traje.”
Alguns trajes brincaram com a ideia de nudez, como o de Kylie Jenner, que referenciou a Vênus de Milo com um vestido Schiaparelli. Sobre a nudez na arte, Laura diz que “o traje é uma tensão entre revelar e esconder, desde o início dos tempos. A nudez relaciona-se a contenção da privacidade.”
Nas últimas décadas, o MET Gala passou a figurar como um dos eventos de moda mais influentes do mundo, rendendo comentários. Quando perguntada sobre a influência do baile nas tendências de moda, Laura disse que não entende “esse evento como influência, mas como uma maneira das grandes maisons revelarem seus potenciais artísticos e suas próprias propostas de tendências”.
Muitos artistas foram referenciados nos trajes do baile, como o pintor Vincent Van Gogh, no vestido da youtuber Emma Chamberlain, e o fotógrafo Robert Mapplethorpe, no look do cantor Troye Sivan. Porém, não houve referência a artistas brasileiros. A professora Laura citou alguns artistas que acredita que cairiam bem com o tema do baile. “Uma das artistas brasileiras que tem uma relação interessante com o Vestuário e a Arte é a Nazareth Pacheco. Trabalha assuntos sobre aceitação e dor que caberiam perfeitamente numa das concepções do MET Gala.”

Fachada do MET (Metropolitan Museum of Arts)



Emma Chamberlain usou um vestido Mugler insultado na Noite Estrelada, de Vincent Van Gogh


Troye Sivan foi de Prada, em um traje inspirado no visual do fotógrafo Robert Mapplethorpe

Fotógrafo Robert Mapplethorpe

A Vênus de Milo foi referenciada no vestido Schiaparelli usado por Kylie Jenner

A Vênus de Milo
