Cerquilho vê declínio de roseiras em praças públicas
Na cidade conhecida historicamente por seus jardins, moradores divergem sobre a manutenção da identidade cultural
Por Gustavo Goes (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Canteiro do “Senhor das Rosas”, plantado na década de 1960, deu início à tradição e inspirou moradores a dar continuidade | Reprodução: Revista de Sábado
A tradição que deu a Cerquilho, na Região Metropolitana de Sorocaba, o título de “Cidade das Rosas” parece enfrentar o desafio do tempo. Em 2026, a paisagem das principais praças da cidade, como “Prefeito José Orestes Corradi”, “Presidente Kennedy” e “Pio X”, já não exibe a exuberância que, um dia, justificou esse título. Moradores notam que a cultura do cultivo, iniciada na década de 60, tem perdido espaço no planejamento urbano.
Para Yasmim Silva de Azeredo, de 21 anos, a mudança é nítida. “Há uns 10 anos, havia muito mais rosas nas praças e no centro”, recorda a jovem, que viveu na cidade até os 18 anos. Ela acredita que a administração pública pode ter deixado essa tradição em segundo plano.

Vitaliano Gaiotto e sua esposa, na Praça Presidente Kennedy na década de 1960 | Reprodução: Revista de Sábado
Essa história, que hoje parece minguar nos espaços públicos, começou com um gesto simples do morador Vitaliano Gaiotto. Conhecido como o “Senhor das Rosas”, Gaiotto iniciou o cultivo em sua própria residência, na década de 1960. A beleza de suas flores atraiu o olhar de gestores públicos, como os ex-prefeitos Otávio Pilon Filho e Aldomir José Sanson, que investiram no embelezamento da cidade, criando os primeiros canteiros coletivos.
A alcunha de “Cidade das Rosas” foi dada durante uma missa na Igreja Matriz São José, quando o Padre Júlio Prestes Holtz exclamou que Cerquilho merecia tal nome. A oficialização veio em 1999, por meio de um projeto do vereador Francisco Nelson Andreolli.

Cenário da Praça Kennedy em dezembro de 2025, com a ausência de rosas em seus canteiros | Arquivo pessoal: Lara Melo Camargo
Apesar do cenário menos florido nas ruas, o sentimento de pertencimento resiste para parte da população. Maria Inês Pantojo, de 67 anos, mantém a tradição em seu próprio quintal. “Acredito que a cultura se mantém viva. Eu mesma tenho duas roseiras em minha casa”, afirma a moradora, destacando o impacto cultural que o título exerce na cidade.
Por outro lado, Yasmim observa uma mudança na percepção da identidade local. Para ela, a manutenção do título de “Cidade das Rosas” pode não ser mais tão necessária, já que hoje enxerga o município com uma força muito maior no mercado têxtil. Segundo a jovem, a cidade passou a ser vista por ela como a “capital da moda infantil”, devido à grande concentração de lojas e confecções que hoje definem o cenário comercial de Cerquilho.
Questionada sobre a manutenção dos roseirais e planos futuros para a tradição, a prefeitura não enviou resposta até o fechamento desta edição.
[Texto produzido para a disciplina Jornalismo Regional, ministrada pela professora Mônica Ribeiro]
