ColunaFocando em

ONÃ, caminhos negros sorocabanos

“Rafa, gostaria de te convidar para a abertura de uma mostra negra, você topa?”

Ao receber o convite da minha colega de profissão Fernanda Ikedo, não imaginava o que viria. Para não ser influenciado, como de costume procurei não pesquisar nada antes, apenas levar meus olhos e a câmera fotográfica.

Tenho alguns problemas com mostras e exposições por considerar que não sou um bom avaliador, pois, assim como dizem que a beleza é algo subjetivo, para mim todo tipo de arte é linda. Para mim, todo o trabalho desde a concepção criativa, até a confecção final é válido e o esforço tem que ser considerado e não avaliado como bom ou ruim. Mas essas são palavras de um simples mortal.

Cheguei no Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (MACS) bem antes como de costume. Detalhe: o mapa de meu celular não reconhecia o local e alguns colegas que comentei onde ia, me responderam: “mas tem museu na Avenida Afonso Vergueiro?”

Não vi nenhum conhecido. E agora o que fazer? Mas como os clãs se aglutinam, logo começaram a surgir caras conhecidas e amigas: professoras Eloísa Gonçalves e Thifani Postali, o rapper Márcio Brown, os quilombolas Cintia Delgado e Antonio Junior, entre outras dezenas de ativistas do movimento negro sorocabano. Percebi o quanto tem aumentado as pessoas que conheço e me conhecem nesse meio. Que orgulho!

 “A exposição ONÃ existe para que o caminho não termine nela, mas comece”, detalha o folheto que peguei na entrada. Daí fui entender melhor onde estava pisando.

Na primeira parada após assinar a lista de presença já desabei… dei de cara com um exemplar o do livro “África – Nossa História, Nossa Gente” escrito pelo meu padrinho de Nucab (Núcleo de Cultura Afro-Brasileira de Sorocaba) e professor de negritude, Ademir Barros dos Santos. Doeu, viu.

Ademir nos deixou recentemente e sua falta ainda machuca muito. O bom de não ter feito pesquisa prévia, foi que descobri somente dentro da exposição, que ela tinha dedos de Ed Mulato (como ele era conhecido) em seu desenvolvimento.

Confesso que parei de tentar focar em análises e apenas sentir o acontecimento.

A cada passo que eu dava, encontrava uma pessoa e virava uma resenha.

Um aquilombamento.

E falando em quilombo, ainda nem havia me recuperado da cena sobre Ademir, já dei de cara com as obras da artista quilombola Cintia Delgado, uma das personagens de minha pesquisa de mestrado sobre a Casa Quilombola Turi Vimba e o extinto Quilombo do Caxambu. Que emoção. Mas ainda viriam mais.

Caminhando mais um pouco, vejo as obras de Vine Ferreira, e descubro que o artista é filho de uma companheira minha de lutas na Comissão Mista de Trabalho (CTM) “Viva Nhô João de Camargo”, minha querida Marlucia Ferreira. Como costumo dizer para meu amigo, colega de trabalho e de academia Anderson Vieira, quando nos deparamos com as conexões da vida, “tá tudo amarrado!”

Entre outros passos e conversas, me deparo com uma arte interativa. Quando olho na tela da televisão, vejo meu amigo, irmão de santo e colega de samba, Manu Netto. Mais alegrias.

Paro um pouco com minha desconexão com a realidade que ocorre quando foco somente em tirar fotos, para ouvir a fala de apresentação da exposição, feita pelo meu amigo, historiador e biógrafo de João de Camargo, Wellington Ataide.

Volto para minha desconexão.

Saio dela ao sentir em meus ombros a mão da minha outra colega de CTM, Elaine Machado, me alertando que minha amiga e multiartista Daia Moura iria fazer uma intervenção.

Bora fotografar e ver Daia, que nos insere sempre em uma viagem cultural penetrante.

O que ela apresentou foi simplesmente sensacional. Daia vestiu um vestido que continha costuradas em si, fotos de diversas mulheres que foram e ou são importantes para a luta antirracista de Sorocaba. Durante a atividade, a artista ia convidando outras mulheres para costurarem outros objetos no tecido do vestido, enquanto eram executados áudios com falas das guerreiras negras. Remetendo a uma simbologia de que Daia (assim como outras mulheres negras da cidade) foi criada, costurada, preparada pelas suas ancestrais. Emocionante!

Por um segundo, volto da desconexão e vejo minha madrinha de Nucab Marilda Corrêa aos prantos. Penso: “ué, o que está acontecendo?” Vejo minha outra madrinha Eloísa Gonçalves me olhando firmemente. Como já nos conhecemos somente pelo olhar, achei melhor ir ver pois algo grande estava acontecendo.

— O que houve, Elô?

— Você não percebeu quem está falando né?

— Não, Elô, quando estou focando em tirar fotos, me desligo do mundo.

— É, eu imaginei mesmo Rafa. Então ouça meu querido!

Quando dei por mim, ao ouvir a primeira palavra, minha ficha caiu e desabei novamente. As lágrimas vieram instantaneamente: uma das vozes era da professora Ana Maria Souza Mendes, umas das fundadoras do Nucab (1979). Ana Maria era minha ídola, minha Rainha, minha Mestra, uma educadora que me fez me entender como um homem negro e que deveria estudar a negritude para entrar na luta armado de conhecimento.

Ana Maria nos deixou no mês de abril deste ano, e aquele áudio foi gravado um dia antes de sua morte. Era a última voz (fisicamente gravada, pois nunca deixará de ecoar) que tínhamos registrada dela.

Quantas emoções em uma só noite.

Continuei a caminha pela exposição, mas apenas sentindo cada emoção, sem “avaliar” nada.

Por isso, caros leitores, assim como vocês — pois tenho a certeza de que sentirão vontade de ir — terei de ir novamente na ONÃ, para ver e viajar nas obras de arte. Pois essa minha primeira visita me preparava algo diferente, uma viagem “transcestral”, uma dose de “Ayuasca africana”.

Na filosofia Yorubá, ONÃ significa dentre outras coisas, caminhos. E, literalmente, deixei meu corpo caminhar pelos caminhos negros sorocabanos.

Solte o que te prende e se deixe levar por ONÃ!

Confira imagens da exposição:

UBUNTU – Eu sou porque Nós somos!

Axé.

Eai, ficou mais enegrecido?

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