Carta à Mãe Ana Maria
“Silêncio, a Matriarca está dormindo
Ela foi, mas foi sorrindo
A notícia chegou quando anoiteceu
Movimentos, eu peço o silêncio de um minuto
Sorocaba está de luto
A voz de Ana Maria emudeceu
… Depois de tanta alegria que ele nos deu
Assim, um fato repete de novo
Antirracista de rua, artista do povo
E é mais uma que foi sem dizer adeus”.
Parafrasear a canção Silêncio no Bexiga, composta pelo sambista paulista Geraldo Filme e conhecida também na voz da saudosa Beth Carvalho, caiu bem para retratar o momento triste que vivemos esses dias. Além de ser uma denúncia que deve ser lembrada sempre, pois apesar de relatar algo que ocorreu no fim da década de 1960 — a morte misteriosa do sambista negro Pato N’Água, assassinado pela repressão da ditadura militar sob acusação de crimes que nunca foram provados — é uma situação ainda muito familiar atualmente: a extinção daqueles que tem a pele preta.
Esse parafraseamento foi para contar sobre o falecimento da “Avó de muitos pretos de Sorocaba”, nossa Matriarca de Nucab, minha Mestra, Griot, ancestral, uma mulher preta, diretora, professora e ensinadora, Ana Maria Souza Mendes, que nos deixou no dia 19 de abril.
No meu caso, assim como na música, “a notícia chegou quando anoiteceu”. Jamais esquecerei daquele domingo, era fim de tarde, eu me preparava para fazer o jantar, quando recebi um telefonema de minha “Madrinha nucabiana”, Eloísa Gonçalves Lopes dizendo: “Rafa, não tenho uma notícia boa para te dar. Nossa amiga Ana Maria se foi.” Aquilo caiu como uma bomba, me desestruturando totalmente, tirando meu chão.
Ana Maria teve inúmeras participações no movimento antirracista e na defesa da educação sorocabana, uma que se destaca é a fundação do Instituto de Cultura Afro-brasileira (ICAB), em 1979, com os colegas do clube afro-sorocabano 28 de Setembro, Jorge Narciso de Matos e Bernardino Francisco. Em meados dos anos 1990, o ICAB se tornou um Núcleo (Nucab) e se mudou para as dependências da Uniso, sendo vital para a criação da universidade.
Nos conhecemos em 2017 quando, estudando na biblioteca da Uniso, via passar uma senhora de olhos protuberantes e sorriso acolhedor. Me indagava: “quem será essa senhora que sempre fica naquela sala sozinha?” Um dia atendendo a minha curiosidade — já talvez inconscientemente jornalística — fui até ela e falei: “tudo bem? Eu queria saber quem é a senhora, o que é aqui e o que a senhora faz aqui”. “Claro, sente-se filho, por favor. Eu sou a professora Ana Maria e essa é a sala do Nucab”, ela me respondeu. Ali nascia uma relação de admiração, carinho e muito aprendizado.
Com Ana Maria, aos 30 anos de idade, é que fui me entender como um homem negro. Percebi a necessidade de letramento racial constante, e entendi que para uma luta antirracista ser produtiva, além de força, é preciso muito, mas muito conhecimento.
O tempo foi passando e a cada encontro, fosse na sala do Nucab, em eventos nos mais diversos lugares da cidade, durante uma andança pelo centro ou tomando uma cerveja no bar, fui me conectando cada vez mais ao universo nucabiano. Ana Maria foi fonte em um livro-reportagem sobre o professor Jorge Narciso de Matos para meu TCC de jornalismo. Ao estudar Jorge, consequentemente eu também estava estudando o Nucab. Relações ainda mais sólidas.
Em outubro de 2025 perdemos uma de nossas lideranças mais velhas, o professor Ademir Barros dos Santos, que há quase três décadas liderava nosso núcleo ao lado de Ana Maria, Eloísa e Gleice Barbara Marciano, nossa primeira estagiária (1996). A perda e a dor foram grandes. Dissemo-nos que seguiríamos. Praticamente seis meses depois, quando estávamos nos recuperando vem outro duro golpe.
Assim como no começo deste texto, apontando em negrito as alterações, e fazendo o caminho inverso em relação ao processo psicográfico, parafraseio (e enalteço) outros cantores pretos, GOG e Ellen Oléria, transformando a canção Carta a Mãe África, em uma carta para “Namaria”.
“É Mãe Ana Maria, é preciso ter pés firmes no chão para suportar sua falta.
Sentir as forças vindas dos céus, da missão. Dos seios da mãe África e do coração.
Literalmente está sendo a hora de escrever entre a razão e a emoção. Mãe! Aqui ainda crescemos subnutridos de amor. A distância de ti, o doloroso chicote do feitor, nos tornou algo nunca imaginável, imprevisível. E isso nos trouxe um desconforto horrível.
As trancas, as correntes, a prisão do corpo outrora, evoluíram para a prisão da mente agora. Mãe, tem coisas que ainda não mudaram, continua caso raro ascensão social.
As senzalas são as ante salas das delegacias, corredores lotados por seus filhos e filhas.
Mãe, a falsa abolição continua fazendo altos estragos, fez acreditarem em racismo ao contrário.
Mãe, aqui ainda são exaltados os heróis brancos, destruidores de quilombos. Usurpadores de sonhos, seguem reinando.
Mãe! Me imagino arrancado dos seus braços. Por aqui de ti falam muito pouco.
Por que fizeram com a gente isso? O plano fica claro… É o nosso sumiço.
Mãe, infelizmente a maioria da população ainda tem guetofobia. E o pior, a triste constatação: muitos irmãos patrocinam o vilão.
A carne mais barata do mercado ainda é a negra, e a carne mais marcada pelo Estado ainda é a negra
Os tiros ouvidos aqui vem de todos os lados, mas não se pode seguir agachado.
É por instinto que levanto o sangue Banto-Nagô, e em meio ao bombardeio, graças a você, ainda reconheço quem sou, e vamos, mesmo feridos, ao fronte, ao combate, mesmo em dias que tem sido bem dolorosos sem você.
Eles tem tentado cada vez mais nos mergulhar numa grande confusão, dizendo que racismo não existe e sim uma social exclusão. Mas sei fazer bem a diferenciação. Sofro pela cor, pelo patrão e o padrão.
Tem dias que a lágrima corre como num chafariz. Mas me apego ao fato de que criamos nossos laços, reescrevemos sonhos. Mãe! Sou fruto do seu sangue, das suas entranhas.
O sistema me marcou, mas não me arrebanha, mesmo a carne mais barata do mercado ainda sendo a negra, e a carne mais marcada pelo Estado ainda sendo a negra.
Serão dia difíceis sem você Madrinha, mas seguiremos. Você viu que no dia 27 de abril a gente já estava na luta novamente? Eu, a Elô e a Gleice fizemos uma Aula Magna sobre educação antirracista, para alunos e professores do mestrado e doutorado da Uniso (https://focas.uniso.br/index.php/2026/05/04/nucab-debate-consciencia-e-letramento-racial-na-pos-graduacao-em-aula-na-uniso/). Espero que tenha gostado.
Obrigado por tudo Mãe, seus ensinamentos serão eternos.
Espero que Olorun tenha te recebido de braços abertos.
Um dia nos reencontraremos no Orun.
À Mãe Ana Maria. À Mãe África.
Outono de 2026”.

Ana Maria em um de nossos encontros na Sala do Nucab, em 2022 | Foto: Rafael Filho

Ana Maria durante entrevista para meu livro, na Sala do Nucab, em setembro de 2023 | Foto: Rafael Filho

Ana Maria ao lado de Ademir, em uma palestra do Nucab, no Sesc Sorocaba, em 2024 | Foto: Rafael Filho

Ana Maria em um evento no Sindicato dos Metalúrgicos em 2025 | Foto: Rafael Filho

