Nucab debate consciência e letramento racial na pós-graduação em aula na Uniso
A importância da consciência crítica e da mudança de postura no ambiente acadêmico foram temas da aula magna “ERER e a Pós-graduação: Consciência e mudança de postura”, realizada no auditório do bloco D da Universidade de Sorocaba (Uniso).
Por Ana Carolina Figueiredo e Antony Moscatelli (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Foto por Antony Moscatelli
As professoras Eloísa Gonçalves Lopes e Gleice Bárbara Marciano, representantes do Núcleo de Cultura Afro-brasileira da Universidade de Sorocaba (Nucab-Uniso), ministraram a aula magna do primeiro semestre de 2026 para alunos e professores do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba (PPGCC-Uniso), na última segunda-feira, 27 de abril, na cidade universitária Professor Aldo Vannucchi, em Sorocaba. Gleice atualmente é coordenadora de Assuntos Gerais e de apoio às Câmaras de estudo do Nucab e Eloísa é coordenadora da Câmara de Estudos de Literaturas Brasileira e Africanas do núcleo.
A abertura do evento foi marcada por um minuto de silêncio em homenagem à professora Ana Maria Souza Mendes, fundadora do Nucab-Uniso, que faleceu no dia 19 de abril. Durante o minuto de silêncio, e mesmo depois dele, a educadora foi lembrada pelo legado da valorização da cultura afro-brasileira que a manterá como referência no assunto, dentro e fora da instituição.
Uma citação à professora Ana Maria foi destacada para ilustrar como a história da população negra ainda é ensinada de forma limitada. No trecho, exibido em slide, a educadora afirma: “Na escola, havíamos aprendido três datas que culminaram com a abolição, mas não havia relação entre elas […]. Não se falava da nossa vida, nem da existência anterior do negro.”

Eloísa Gonçalves Lopes e Gleice Bárbara Marciano | Foto por Antony Rafael
Durante a aula, foram discutidos temas ligados à Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER), com foco na necessidade de uma postura mais consciente por parte de estudantes e pesquisadores, especialmente no contexto da pós-graduação.
Entre os principais pontos abordados, estiveram a diáspora africana, o racismo estrutural e a desconstrução de estereótipos ainda presentes no ambiente acadêmico e social. Também foi problematizada a tendência de generalizar o continente africano como se fosse um único país, além da redução de sua imagem a estereótipos ligados exclusivamente à miséria e a conflitos.
“Nós, enquanto professores e educadores, temos que ser os primeiros a nos desconstruir”, afirmou Gleice, ressaltando a responsabilidade dos educadores na luta antirracista.
As palestrantes reforçaram que a construção de um ambiente acadêmico mais inclusivo depende não apenas do conhecimento teórico, mas também de mudanças nas atitudes cotidianas na universidade. Durante o encontro, as professoras também destacaram o papel da universidade como espaço de reflexão crítica e transformação social, incentivando a formação de profissionais mais conscientes e comprometidos com a diversidade.
Além das reflexões atuais, o evento também trouxe um resgate histórico sobre a criação do Nucab. O núcleo surgiu em 1979, inicialmente com o nome de Instituto de Cultura Afro-Brasileira (ICAB), a partir da mobilização de jovens interessados na valorização da cultura negra em Sorocaba. Um dos fundadores do ICAB, o professor Jorge Narciso de Matos, foi lembrado pelas professoras e pelo mediador da aula, o jornalista Rafael Filho, que também faz parte do núcleo. O professor Jorge, ao lado da professora Ana Maria e do advogado Bernardino Francisco, levou o ICAB para a Uniso e o transformou em Nucab, uma ação que visava ajudar na aprovação do projeto de criação da universidade. Eloísa lembrou que essa aprovação dependia da comprovação da existência de núcleos de pesquisa vinculados à instituição e, por isso, os professores Jorge e Ana Maria, ao lado do dr. Bernardino, fazem parte da história não só do Nucab, como também da própria Uniso.
Rafael Filho encerrou o evento recomendando o álbum “O Canto dos Escravos” (1), de 1982, que reúne canções da década de 1930, nas vozes de Tia Doca da Portela, Geraldo e Clementina de Jesus. Ele recitou a letra “14 de Maio” (2), de Lazzo Matumbi, que conversa diretamente com a frase da professora Ana Maria Souza Mendes sobre o 13 de maio de 1888, quando foi proclamada a Abolição da Escravatura no Brasil. Entretanto, a data não significou uma mudança social real, uma vez que a população negra foi “liberta”, mas continuou sendo sistematicamente marginalizada por meio de leis que criminalizaram manifestações culturais e religiosas da população afro-brasileira – algumas lembradas durante a aula – e do racismo.
“No dia 14 de maio, eu saí por aí
Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir
Levando a senzala na alma, eu subi a favela
Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci
[…]
No dia 14 de maio, ninguém me deu bola
Eu tive que ser bom de bola pra sobreviver
Nenhuma lição, não havia lugar na escola
Pensaram que poderiam me fazer perder
Mas minha alma resiste, meu corpo é de luta
[…]”
(1) Álbum “O Canto dos Escravos”:
(2) Canção “14 de Maio”:

Excelente texto. Parabéns Carol e Antony. Ubuntu!