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Quando o silêncio fala: terra, memória e resistência em Torto Arado

Entre terra, fé e memória, o romance de Itamar Vieira Júnior revela as cicatrizes da história brasileira e as formas silenciosas de resistência.

Por Sophia Ruivo Pompeu (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Torto Arado de Itamar Vieira Junior | Fonte: Estadão

Por entre as páginas de Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, o sertão ganha vida no silêncio e na força de suas personagens. Publicado em 2019, o romance conduz o leitor pela vida dos moradores de Água Negra, um vilarejo fictício marcado pela memória, pela terra e pelas cicatrizes da história brasileira.

Itamar apresenta, com riqueza de detalhes, os pensamentos das personagens que narram os capítulos. A narrativa revela as histórias que as conduziram até aquele momento, em um movimento constante entre passado e presente. Ao longo da obra, o autor apresenta figuras centrais da família das irmãs, como Donana, Zeca Chapéu Grande, Salustiana e tantos outros personagens que atravessam suas vidas.

Por meio das experiências dos habitantes, o autor nos apresenta a dura realidade da labuta incessante, o cansaço, a fome durante a seca e a dor causada pelas enchentes. Itamar também aponta com ênfase que as moradias são precárias e efêmeras, refletindo a incerteza e a instabilidade da vida dos descendentes de pessoas escravizadas após a abolição.

Um romance complexo, que demonstra a vida de maneira crua, em suas alegrias e dores, em suas violências e rezas, Itamar apresenta o sertão brasileiro de forma fiel e viva.

O livro aborda temas fundamentais como racismo, violência de gênero, estrutura fundiária do Brasil, sincretismo religioso, trabalho análogo à escravidão, dentre outros. E ainda coloca a educação como fator de constituição subjetiva e de transformação da realidade social e cultural.

À medida que a narrativa se desenrola, torna-se evidente que todos esses elementos são consequências da deriva dos negros após a abolição. Embora livres, muitos continuaram a viver em condições análogas à escravidão, trabalhando arduamente em troca de terra, mas sem salário, o que revela uma forma velada de escravidão.

Terra e memória

O romance, dividido em três partes centrais – “fio de corte”, “torto arado” e, por fim, “rio de sangue” – se inicia de forma misteriosa, com um acidente que une as irmãs Bibiana e Belonísia, em um pacto de silêncio. A princípio, é difícil discernir qual das duas carrega esse silêncio. No capítulo “fio de corte”, narrado por Bibiana, a narradora descreve o acidente com a faca da avó Donana e como a religiosidade e o trabalho árduo moldaram sua infância e adolescência em Água Negra.

Para Maria Laura Uliana, coordenadora na Carochinha Editora e criadora do perfil literário @prefaci.ando, as personagens femininas do romance ocupam papel central na preservação da história e da identidade da comunidade.

 “As mulheres, na história, elas estão sempre relacionadas com a preservação da memória, da identidade, das práticas espirituais. Então, seja através da luta política, no caso da Bibiana, seja através da preservação dos costumes, do contato com a terra, do contato com a natureza, que vem através da Belonísia. Também, com relação às práticas espirituais, elas são sempre mulheres lutando contra o apagamento, porque o apagamento é uma coisa muito comum, uma violência muito comum nessas comunidades. Conseguimos perceber como as mulheres sempre tiveram um papel fundamental na preservação justamente dessa identidade, dessa memória, evitando que isso seja apagado. É muito bonito como o Itamar constrói essas personagens que casam bastante com o que a gente vê na realidade brasileira das mulheres negras.”, explica Uliana.

Um silêncio que grita

Segundo Caio Cursini, doutor em Geografia Humana pela USP, o livro traz uma reflexão sobre o silenciamento presente na obra como um reflexo dos eventos ocorridos na própria nação. “O silenciamento presente no romance também é acompanhado pelo protagonismo tácito das personagens. Se pensarmos na história do Brasil, esse silenciamento das mulheres negras sempre caminhou junto com um papel fundamental que elas exerceram na sociedade.”

Em um país cuja elite foi formada pelo trabalho de amas de leite, cozinheiras e empregadas domésticas negras, o protagonismo dessas mulheres frequentemente foi apagado da narrativa oficial. Para Cursini, obras como o filme Que Horas Ela Volta? e o livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, ajudam a evidenciar esse processo de silenciamento histórico. “Essas obras mostram como o silenciamento dessas vozes sempre esteve presente, mesmo quando há momentos em que elas parecem ganhar mais visibilidade.”

No final do capítulo Torto Arado, o romance reconecta as irmãs Bibiana e Belonísia, introduzindo uma nova perspectiva na obra. Além do misticismo religioso e da vida rural, surge a consciência sobre a falta de direitos e um olhar atento aos efeitos persistentes da escravidão. A mudança de donos da fazenda e o senso de justiça de Severo orientam a narrativa para uma denúncia social.

Vozes que resistem

O empoderamento das personagens é um incentivo à liberdade de mulheres que passam pelo mesmo. A vida rural é cansativa para todos, porém a marginalização de um gênero se encontra nas raízes mais profundas da terra, em sua origem escravocrata e passando por latifundiária e, nesse caso, a exploração da mulher negra.

Embora ambientada em uma vila fictícia, a narrativa apresenta um recorte que reflete uma realidade mais ampla da sociedade brasileira.

Para Uliana, o romance ultrapassa o contexto local ao revelar estruturas sociais mais amplas presentes no país. “O livro revela uma estrutura social bem mais ampla. Acho que ele parte, sim, de uma realidade local, de um microcosmo ali, mas com base na análise dessa realidade a gente consegue entender a estrutura social brasileira de uma forma mais ampla. As trajetórias distintas das irmãs revelam a pluralidade das formas de resistência à opressão. Enquanto Bibiana se articula politicamente para reivindicar direitos, Belonísia preserva os saberes e a relação com a terra, mostrando que manter as tradições da comunidade também é uma forma de resistir em Torto Arado.”

Cursini também cita a preservação dos registros feita por mulheres, especialmente mães, e avós. “Se pensarmos nos registros da família — fotografias, histórias e lembranças — quase sempre são elas que sabem onde tudo está e que mantêm viva essa memória.” Segundo ele, revisitar essas histórias revela formas de resistência, muitas vezes, invisíveis, mas fundamentais para compreender o lugar que cada pessoa ocupa hoje.

Entre o mundo dos vivos e dos ancestrais

Outro ponto chave da história é a profunda conexão dos personagens com a religião Jarê, conhecida como Candomblé Caboclo. Esta religião afro-brasileira, específica da Chapada Diamantina, é retratada com riqueza de detalhes e muito respeito, destacando a afeição pelo sagrado espiritual, a fé e o respeito pela terra e seus mistérios. O misticismo religioso nos aproxima dos personagens, começando com Zeca, passando por Donana e finalmente Belonísia, que segue os ensinamentos do pai sobre a terra e a religião, herdando sua intimidade com o Jarê.

 “Muitas vezes, o preconceito nasce do desconhecimento. Quando a literatura apresenta essas práticas religiosas e mostra de onde elas vêm e como funcionam, ela permite que o leitor construa outros imaginários sobre essas tradições”, afirma Uliana.

Segundo ela, esse movimento é essencial em um país marcado por séculos de repressão às religiões de matriz africana, que desde a escravidão enfrentam tentativas de apagamento e, ainda hoje, episódios de violência e intolerância.

Para o sociólogo e geógrafo Caio Cursini, a chamada intolerância religiosa, muitas vezes, mascara uma questão mais profunda. “Quando falamos em intolerância religiosa, muitas vezes, estamos usando um eufemismo para falar de racismo.” Segundo ele, as religiões de matriz africana não foram apenas marginalizadas ao longo da história brasileira, mas também criminalizadas em determinados períodos, o que revela a profundidade desse problema na formação social do país.

O professor ressalta que a presença das religiões na literatura brasileira pode auxiliar para ampliar o conhecimento sobre as tradições, principalmente, as que vieram de culturas afrodescendentes. Ainda assim, ele alerta que a simples visibilidade não elimina o problema.

 “A difusão é importante, mas é preciso cuidado com discursos excessivamente otimistas. Às vezes, a exaltação da diversidade pode esconder violências que continuam existindo”, explica.

A fala de Cursini dialoga com um debate histórico sobre a formação da identidade brasileira. Os discursos otimistas podem gerar percepções como o mito da democracia racial de Gilberto Freyre, que anos depois foi questionado por intelectuais como Florestan Fernandes, que apontaram os limites dessa suposta harmonia social diante da permanência do racismo estrutural.

Memória, resistência e legado: o sertão que fala

Torto Arado é uma narrativa que atravessa a história de um país que foi construído por famílias como a de Zeca Chapéu Grande, onde as terras tinham donos brancos e mão de obra negra, onde as orações eram feitas com a alma para que as gerações posteriores tivessem um futuro melhor.

Mulheres como Donana, Salustiana, Bibiana e Belonísia mantiveram suas memórias, as dores guardadas, e o sentimento de pertencimento em um local que sempre tentou domesticá-las. É uma obra que denuncia a injustiça histórica e contemporânea e promove uma reflexão profunda sobre a resistência e a luta por direitos dos descendentes de escravos no Brasil.

A interseccionalidade do tema sobre a violência demonstra, mesmo que em outro tempo, as sequelas da sociedade atual. Por meio de uma narrativa rica e com personagens multifacetadas, o livro expõe as injustiças históricas e contemporâneas, enquanto celebra a resistência e a resiliência dessas mulheres. O romance de Itamar Vieira Júnior é, sem dúvida, uma leitura essencial para compreender a complexidade e a resiliência das comunidades negras no sertão brasileiro.

Desde sua publicação em 2019, Torto Arado foi premiado com o Jabuti, o Oceanos e recebeu reconhecimento internacional, incluindo indicações ao The International Booker Prize e ao prêmio francês Montluc Résistance et Liberté.

[Texto produzido na disciplina de Jornalismo Especializado, sob orientação da Profa. Dra. Georgia de Mattos]

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