ColunaNostalgia

Inúteis não, históricos!

Esses dias eu estava fuçando em algumas raridades que guardo em casa, para expor em aula, fita VHS, DVD, Vinil, fita k7, CD, Discman e um MP3. O intuito era falar sobre a evolução das formas de se ouvir músicas, desde as vitrolas até o Spotify, mostrando as interferências da Indústria Cultural.

Fiz uma viagem no tempo.

Lembrei de que, na adolescência, levava meu Discman para ouvir as músicas do Metallica e outras bandas no caminho para a escola e durante o intervalo (que naquele tempo era chamado de recreio).

Fiz a experiência de mostrar para uma colega minha de 19 anos.

“Você andava com esse negócio gigante na rua para poder ouvir música?” Foi muito engraçado ver que ela não sabia como ligava o aparelho e que havia um cd dentro dele. “Meu Deus”, ela gritava.

Uma reação bem diferente de outro jovem amigo que há uns tempos comentei que guardava esses materiais em casa. “Para que guardar essas coisas inúteis?”. Tive um misto de mágoa com perdão, pois ele não tinha noção daquilo, e nem deveria talvez pois não eram “coisas de sua geração”.

Para mim não são inúteis. Pelo contrário, me trazem boas lembranças.

Parei por um momento e fiquei observando os objetos e voltando no tempo.

Lembrei da Tv de tubo, com o “póle” em cima, do Bombril na antena, ou de subir no telhado para mexer na antena externa. “Vira para o outro lado. Volta, foi muito. Ai, para, pegou.” Quem não lembra desse diálogo que entrava e saía pelas janelas?

Recordei o tempo em que ia na Pirata, uma das mais famosas locadoras de video da cidade. Pegava na sexta para devolver na segunda. E tinha multa caso não rebobinasse a fita. Hoje, nós cobramos cada vez mais pela qualidade da imagem, mas aquela das fitas me satisfazia.

“E, como rebobinava isso?”, perguntou minha amiga com a K7 na mão. Contei a ela sobre a história romântica entre este objeto e a caneta Bic.

Ao falar dos vinis, mostrei os encartes artísticos que os acompanhavam, entregando não somente músicas, mas também arte. Ela se assustou quando eu disse que um disco poderia demorar um ano para ficar pronto e chegar às mãos dos fãs. Sem internet, eles esperavam ansiosamente a chegada de um novo álbum, para ter acesso a fotos de seus ídolos.

DVD, ela disse que conhecia, mas não tinha noção da revolução tecnológica que foi sua chegada. Já emendei com a história do BlueRay uma promessa de inovação que não durou muito.

O ápice da conversa foi o MP3. “Nossa, esse é pequenininho, dá para carregar de boas.” Mas ficou assustada quando comentei que naquele aparelhinho só cabiam umas 5 ou 6 músicas. “E como vocês faziam? Acabava as músicas, vocês ouviam tudo de novo as mesmas músicas?” Para seu espanto, respondi que sim. Pensa em uma pessoa que ficou o resto da tarde reflexiva sobre como as músicas são escritas atualmente em massa, com cada vez menos tempo, para atender as ânsias comerciais.

Acho que fez efeito minha ação.

Valeu a pena.

Para mim não são coisas velhas.

Não são materiais descartáveis.

Não são inúteis.

São revivadores de memórias.

São manutensores de sentimentos.

São condutores da história.

São resistência.

Obrigado por me levarem de volta a caminhos tão nostálgicos.

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