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O jornalismo entusiasta em Ratatouille (2007)

    “De certa forma, o trabalho de um crítico é fácil. Nos arriscamos pouco e temos o prazer de avaliar com superioridade aqueles que nos submetem seu trabalho e reputação. Ganhamos fama com críticas negativas que são divertidas de escrever e ler. Mas a dura realidade que nós críticos devemos encarar é que, no quadro geral, a mais simples porcaria talvez seja mais significativa do que a nossa crítica. Mas há vezes em que um crítico arrisca de fato alguma coisa, como quando descobre e defende uma novidade. O mundo costuma ser hostil aos novos talentos, às novas criações. O novo precisa ser incentivado.”

    Este é o primeiro parágrafo da crítica do personagem Anton Ego, que, no filme Ratatouille, é um renomado crítico gastronômico, com suas críticas sendo publicadas em jornais. Além dele, outra jornalista aparece no filme, a também crítica gastronômica Solene Leclaire, que, apesar de ter uma participação curta, é de fundamental importância para o andamento da trama.

    É difícil imaginar quem nunca tenha assistido a essa joia dos estúdios Pixar, não tenha se encantado com o inusitado de sua premissa e não tenha ficado com vontade de experimentar os pratos do cozinheiro-rato Rémy. Mas é bem possível que o papel do jornalismo no filme tenha passado despercebido para uma parte do público. Mas o que se revela na crítica de Anton Ego é de grande valia para o nosso ofício. É algo que se concentra numa faceta especialmente bonita do jornalismo: o seu instinto de garimpeiro.

    Nos anos 1990, a jornalista Érika Palomino assinava na Folha de S. Paulo a coluna Noite Ilustrada, onde registrava com paixão e sensibilidade a vibrante cena cultural e noturna da capital paulista. A coluna serviu não apenas de registro, mas de holofote para vários artistas, como o jovem estilista Alexandre Herchcovitch. Érika acompanhou a ascensão de Alexandre desde seu chocante desfile de conclusão de curso na faculdade de moda Santa Marcelina, e foi uma das primeiras a dar visibilidade à estética arrojada e moderna do estilista, que viria a ser um dos maiores do Brasil. Esse entusiasmo pelo novo, associado ao poder de divulgação na imprensa, conferem ao jornalista atento o dom de amplificar vozes que, em outras circunstâncias, ficariam restritas.

    É esse o caso do cabeleireiro Ricardo Corrêa da Silva, que passou anos de sua vida sendo conhecido pela pitoresca alcunha de “Fofão da Augusta”. Ricardo vivia em situação de vulnerabilidade social e seu grandioso passado estava esquecido, até que o jornalista Chico Felitti publicou uma extensa reportagem investigando quem era a pessoa por trás da figura folclórica do centro de São Paulo. Essa reportagem, que depois foi expandida em livro, devolveu o nome e a história a Ricardo. Mais do que contar uma boa história, foi o jornalismo vendo preciosidade onde outros não viam valor.

    No ano de 1990, a jornalista Marília Gabriela entrevistou o estilista e apresentador Clodovil Hernandes. O contexto dessa entrevista era bem desfavorável para o entrevistado: na época, circulava a notícia falsa de que Clodovil estava com AIDS. Importante lembrar que era um período de profundo pânico moral e ignorância a respeito da doença, e o renomado estilista passou a ver várias portas de trabalho se fecharem abruptamente, pela mera suspeita da doença. Uma reputação lendária perdida por mentira e ignorância. Foi nesse cenário que uma jornalista do nível de Marília Gabriela abriu espaço para que Clodovil desmentisse as notícias falsas, num esforço não apenas pela verdade, mas pela justiça. É o jornalista trabalhando contra seu próprio tempo, contra as hostilidades da ignorância. O personagem Ego define muito bem essa atitude como algo arriscado, de defesa, não necessariamente do novo, mas do que é certo.

    Anton Ego, do filme Ratatouille, é mal compreendido pelos demais personagens. A própria imagética do filme lhe confere signos fúnebres e uma aura de amargura. Mas é interessante o trabalho que o enredo faz em desconstruir essa imagem. Um crítico não é um mal-amado querendo se aproveitar do esforço alheio. Um jornalista não é um abutre em busca de algo insólito para noticiar. Esses são ofícios que necessitam de grande esperança e fé na humanidade por parte do profissional. É preciso que nunca se perca o brilho no olhar, um brilho que consiga enxergar caminho onde outros só veem mato.

    O jornalista, em especial aquele crítico – não necessariamente o que publica críticas, mas o que tem uma postura crítica em relação ao mundo – precisa ser um entusiasta da humanidade. Precisa acreditar no poder transformador da verdade, do certo e do novo. Para apoiar seu entusiasmo, ele conta com o apoio de seu repertório cultural e da sua credibilidade. E é aí que é possível enxergar uma crise. Em tempos de algoritmo, posts patrocinados, publis e vídeos curtos, ainda há espaço para repertório e credibilidade? Ainda há espaço para um crítico fazer seu trabalho de, entre outras coisas, criticar?

    O que se vê cada vez mais é uma hostilidade em relação ao conhecimento, seja em vastidão ou em profundidade. As redes sociais não são ambientes onde a cultura é apreciada, mas sim consumida, e a lógica do consumo é reducionista, não deixa espaço para debates sérios. Outra coisa que fica cada vez mais difícil é defender novidades. Hoje, a divulgação é feita de outras formas, todas menos orgânicas e apaixonadas.

    Ainda assim, o que está do nosso lado é algo que ninguém tira: a visão treinada, atenta, sensível e, por que não, visionária que alguns jornalistas e críticos têm. Esse “sentimento do mundo”, como diz Carlos Drummond de Andrade, é a mais preciosa joia do nosso ofício.

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