O jornalismo retratista em Gretchen Filme Estrada (2010)
No ano de 2008, a cantora Gretchen, que fez enorme sucesso nos anos 70 e 80, resolveu dar uma guinada profissional: entrou para a política. Muitos artistas fazem o mesmo movimento, mas geralmente se candidatando para cargos no Legislativo. Gretchen, porém, sonha diferente, e se candidata à prefeitura da Ilha de Itamaracá, município de Pernambuco próximo à capital Recife.
Lançado em 2010, o documentário Gretchen Filme Estrada mostra essa campanha eleitoral, da qual a cantora saiu com apenas 2% dos votos, e também acompanha suas viagens fazendo shows em circos pelo Nordeste. Aparentemente, apenas um documentário de celebridade. Mas não. Porque Gretchen Filme Estrada conta com dois diretores: o respeitado documentarista Paschoal Samora e a jornalista Eliane Brum, verdadeira lenda do jornalismo, sempre atenta a lugares inusitados e pessoas pitorescas para contar boas histórias. O olhar atento e perspicaz desses realizadores transforma a experiência de assistir ao documentário em algo muito mais profundo do que se poderia esperar.
Em certa medida, o jornalista é um retratista. Existe uma parte do nosso ofício que está ligada, e até de certa forma depende, de um olhar que busca tipos ideais, situações pequenas que representam algo maior. A trajetória de Gretchen no filme tem essas características, o tal “suco de Brasil”. Vemos as sutilezas de uma campanha política feita numa cidade muito pequena, onde a cantora e agora candidata precisa mais de uma vez se desvencilhar de práticas irregulares que, aparentemente, são corriqueiras naquele microcosmo, como a compra de votos. A reputação e o passado de Gretchen são trazidos à tona por seus concorrentes, e também por parte de seu eleitorado, como forma de descredibilizar não apenas seu projeto de governo, mas sua própria pessoa.
Porém, é no contraste entre a campanha eleitoral e as viagens para shows que o filme mostra sua maior força. Gretchen se apresenta em circos deteriorados, baratos, com pouco público, e percebe-se que, por mais que seu nome nos cartazes chamem público, esse público está ali apenas por curiosidade mórbida, esperando ver uma Gretchen do passado. O filme também mostra a relação entre essas duas faces da vida da protagonista. Se não fizer os shows, Gretchen não terá dinheiro para bancar sua campanha.
E é nesse retrato ao mesmo tempo afiado e sensível da candidata que revela uma faceta sádica do jornalista, que muitas vezes precisa observar o acidente de carro para poder descrevê-lo. Ninguém acredita na campanha de Gretchen. Nem seu próprio partido. Nem seus colaboradores. Nem mesmo sua candidata a vice, uma figura que parece ser bem engajada, e que hesita em entrar na campanha. Ela acaba entrando, mas seus atritos com Gretchen a fazem ser tirada da chapa.
Quando, a poucos dias da eleição, as pesquisas deixam claro que Gretchen não tem a menor chance de ganhar, ela desmorona no seu comitê eleitoral. Cercada por fotos de campanha onde sorri, a rainha do rebolado chora, se queixa sobre o quanto está perdendo de sua saúde nessa campanha inútil. E é nessa hora que o filme atinge o seu ápice. A voz do narrador entra e diz: “A partir desse momento, decidimos revelar as negociações que antes eram ocultas. Registrar a verdade de nossa representação. Quando não há mais chance de vencer a eleição, o filme passa a ser toda a realidade. Esse é um filme sobre os usos. Todos usando todos”.
O gosto que fica é agridoce. O documentário é muito bom, mas é triste pensar que sua figura central é desconhecia sua real natureza. Gretchen achava que estava num filme sobre sua ascensão política, mas na verdade estava num filme sobre sua decadência artística – e sobre a decadência política do Brasil, também. O jornalismo tem dessas ambiguidades.


