Uma vivência quilombola
“Se achegue, Rafa. Venha tomar um cafezinho com mandioca frita que as meninas acabaram de fazer.” Assim fui recebido pelos meus amigos — e, por que não, irmãos — Antônio (Junior) e Cintia, lideranças do Quilombo do Caxambú, localizado na cidade de Salto de Pirapora, “aqui do lado”.
Minhas visitas, que ocorrem desde 2019, sempre foram para admiração das atividades culturais e participação nos eventos quilombolas. Quantas Festa da Santa Cruz não comemorei no Cafundó, comunidade quilombola irmã do Caxambú.
Desta vez foi diferente, eu estava como pesquisador. Na prática, sendo JORNALISTA, mas vou manter o termo mais acadêmico.
Fui acompanhar um dia de visitação na Casa Quilombola Turi Vimba, que acolhe o grupo cultural de mesmo nome, criado em 2009. Turi Vimba significa “Terra de negro”, no dialeto Cupópia, a “língua do quilombo”, criado pelos mais velhos para confundir os escravizadores.
Disse a eles: “finjam que não estou aqui, serei um observador silencioso na minha pesquisa de observação participante”.
Os visitantes foram recebidos com um delicioso, belo e farto café quilombola — o qual fui “obrigado” a comer novamente —, com bolo e tudo mais.
Após a apresentação dos integrantes do grupo Turi Vimba, Cintia levou os visitantes até a entrada da capelinha para contar toda a história daquele quilombo. Tudo bem que existem materiais físicos e digitais para pesquisa/confirmação de histórias, mas a oralidade me contagia e tem muito mais valor para mim. Relembrando aquela antiga propaganda de cartão de crédito, ouvir a 6ª geração do Quilombo do Caxambú contar a história daquela terra, que foi aprendida com os mais velhos, “não tem preço”.
Junior assumiu na sequência e nos levou para conhecer o caminho que nossos antepassados usavam — durante as madrugadas, em silêncio — para conversarem com escravizados de fazendas vizinhas, para planejarem formas de alcançarem a liberdade.
Paramos para aquele almoço caseiro, revigorante, farto, mas também que deu uma moleza geral.
Depois fomos para o Curima Adúfo, ou “trabalho dos tambores” em Cupópia. Para mim e para os visitantes, não foi somente uma oficina de tambores, foi uma aula de história, cultura e transmissão de ancestralidades.
Na oficina de ervas, aprendemos a importância da seleção, limpeza e preparo das ervas. Fizemos um incenso natural, que na visão de Cintia não é “terceirizado” como ocorre com o industrializado que costumamos deixar lá parado, queimando. O natural, temos que reacender o tempo todo e andar com ele pela casa para o ato de purificação.
Na oficina culinária, fizemos — sim, eu coloquei a mão na massa e tenho imagens para comprovar — uma das mais deliciosas paçocas (salgada, de alho, sal, carnes bovinas e suínas e farinha de milho grossa) que já comi em minha vida. E novamente não foi somente uma “oficina para pegar no pilão”, foi outra aula de companheirismo, humildade e comensalidade.
Saí de lá renovado.
Recomento a todos!
Ainda não conhece o Quilombo do Caxambú e a Casa Quilombola Turi Vimba?
Vou te deixar umas fotos para mostrar um pouquinho da minha experiência e te instigar a viver essas emoções.
Vavúro Turi Vimba!! (Bem-vindo a terra de negro!)
Para mais informações, acesse o perfil do quilombo no Instagram:
https://www.instagram.com/turi.vimba?igsh=YXoxbWNzaWNnaTRh













