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Redivivus: Projeto do Banco de Alimentos de Sorocaba capacita mulheres para reduzir o envio de lixo orgânico para o aterro

Por Antony Moscatelli (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Participantes do Redivivus recebem seus certificados | Foto por Antony Moscatelli

O que antes era visto apenas como restos de alimentos ganhou um novo significado nas mãos de um grupo de mulheres em Sorocaba. O projeto Redivivus, realizado pelo Banco de Alimentos de Sorocaba (BAS), com o apoio da Ofebas, capacitou 20 moradoras de áreas vulneráveis da cidade para transformar resíduos orgânicos em adubo orgânico por meio da compostagem.

O pesquisador e professor Matheus Soares de Vasconcellos (30), um dos responsáveis pelo projeto, conta que o Redivivus surgiu após o BAS observar que o número de resíduos residenciais encaminhados ao aterro era muito grande.

Sorocaba encaminha os resíduos da cidade para o aterro sanitário de Iperó desde setembro de 2010, quando o aterro sorocabano chegou ao fim de sua vida útil. Segundo a Câmara de Sorocaba, a cidade envia cerca de 18.500 toneladas mensais de resíduos, o que gera o custo aproximado de R$ 117,92 por tonelada, excluindo os custos de coleta e transporte.

“Nesse processo, a gente tem um impacto ambiental muito significativo, porque tem a questão da coleta, de você enviar até o aterro e depois o ciclo de vida para que ele seja decomposto. E, como as pessoas não fazem essa separação do que é resíduo reciclado e do que é resíduo orgânico, o período para essa decomposição acaba aumentando, fazendo com que aconteça uma maior emissão de gás metano na atmosfera”, explica Matheus.

O projeto contou com o apoio financeiro da Ofebas. Meire Ellen Rodrigues, assistente social do Banco de Alimentos, explica que, muito mais do que um serviço funerário, a Ofebas também oferece assessoramento técnico e serviços de capacitação para organizações sociais. “Em cada período de formação, que dura em média sete meses, eles [Ofebas] selecionam três projetos para receberem o recurso e poderem fortalecer e implementar as ações idealizadas.”

Matheus conta que a base das aulas foi a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), aprovada em 2010 por meio da Lei n°12.305, que trouxe um conjunto de normas responsáveis pela regulamentação e gestão dos resíduos sólidos, desde materiais como plásticos, papel e metais, até produtos finais – eletrônicos, móveis, roupas, etc.

As aulas foram desenhadas em torno dos quatro pilares principais da PNRS, os “4 R’s”:

  • Repensar os hábitos de consumo e descarte, questionando a real necessidade de adquirir novos produtos e optar por escolhas mais conscientes;
  • Reduzir a geração de resíduos e consumo de recursos naturais, como água, energia e matérias-primas, evitando o desperdício;
  • Reutilizar os materiais antes de descartá-los, aumentando sua vida útil;
  • Reciclar resíduos usados em novos produtos.

Só então é considerado o descarte adequado para o tipo de resíduo.

“O grande objetivo do Redivivus é que os resíduos não sejam direcionados a aterros sanitários, e vocês, ali no dia a dia, conseguem fazer isso com uma ação simples, e depois vocês disseminam isso com os colegas de vocês, na comunidade ao entorno, para que eles também criem esse hábito, e a gente consegue então atingir nosso objetivo maior”, defende Matheus Vasconcellos | Foto por Antony Moscatelli

Muitas das participantes relataram já terem feito compostagem em casa, mas após as aulas, perceberam que mesmo que a intenção fosse boa, elas faziam de forma errada.

Rose Leila Leitão (64), líder da Associação de Moradores da comunidade Lopes de Oliveira, na Vila Helena, contou que ensinou seus filhos desde pequenos a separar os tipos de lixo gerados em sua casa. “Eu já os eduquei assim. Não comeu toda uma banana, então é aqui [que joga]. Eu tenho uns potinhos de maionese, separava tudo naqueles potinhos. Eles já iam certinhos nos potinhos. Aí colocava nas minhas plantas e, quando tinha uma grande quantidade, distribuía na vizinhança.”

Em ordem: Matheus Vasconcellos, Rose Leila Leitão e Fernanda Ikedo | Foto por Antony Moscatelli

A cozinheira haitiana Marieyolene Fils Aime Delsona (38), levou o filho de 6 anos no primeiro dia. “Colocou luvas, colocou avental, tudo para me ajudar. Hoje ele falou, mãe, eu tenho que participar!” Marieyolene conta também que via muitas pessoas fazendo compostagem no Haiti, mas que só aprendeu o modo certo de fazer a partir do projeto.

A jornalista Fernanda Ikedo (45), coordenadora do Redivivus, diz que o perfil do projeto foi traçado pensando nas mulheres. “Muitas são donas de casa, no sentido de cuidadoras da casa, da família, muitas vezes também são provedoras e, tendo uma oportunidade de fazer cursos, elas conseguem ser multiplicadoras.”

Ela explica, citando Paulo Freire, que estimular esse olhar crítico é muito importante para promover a leitura da sociedade e do mundo. “Assim, espera aí, para onde esse lixo está indo? Se eu jogar esses restos de comida no lixo, ele vai parar onde? É essa leitura crítica que o Banco de Alimentos faz, porque ele não quer apenas entregar cestas básicas. Ele tem como proposta fomentar essa leitura de sociedade para que as pessoas reivindiquem seus próprios direitos.”

Fernanda Ikedo | Foto por Antony Moscatelli

Izenelda Ferreira de Avis Oliveira (42), atualmente estudante de administração, relatou que na comunidade em que mora, Rosa Luxemburgo, em Votorantim, já começou a repassar o que aprendeu durante o curso.

“Foi o primeiro contato que eu tive [com a compostagem]. Quando vim fazer o curso, uma das meninas da comunidade falou que fazia [compostagem] em casa, eu perguntei como ela fazia e não estava certo. Então ela falou para eu vir aprender e ensinar para ela depois.”

Izenelda contou que costumava descartar os restos orgânicos no quintal, onde tinha galinhas, e no lixo da cozinha. “Quando a gente não sabe das coisas, a gente vive dentro de uma ignorância, e quanto aprende, tem a possibilidade de passar adiante. Cada vez que a gente aprende algo e coloca em prática, isso se torna um retorno para nós mesmos, para o nosso bem-estar, para a nossa família, para os nossos vizinhos e para o nosso planeta. E quando ficamos na ignorância, o planeta fica sofrendo junto.”

Meire Ellen Rodrigues explica que o Banco de Alimentos de Sorocaba vê como algo fundamental investir na formação cidadã, de modo que recorrentemente são abertos projetos com esse objetivo, como o Chefe Aprendiz, que ensina iniciação culinária profissional para adolescentes, e o Alimentando a Cidadania, que mostrou que a alimentação digna e de qualidade é um direito.

“Tendo em vista que o nosso país saiu do mapa da fome pela segunda vez, nós entendemos que a vulnerabilidade não está só na questão alimentar. Então, a inclusão no mercado de trabalho, promover o conhecimento sobre o consumo consciente dos alimentos, essa sustentabilidade que hoje é o foco desse projeto”, diz ela.

A compostagem é um meio simples e viável de ressignificar o lixo orgânico como algo que se pode reutilizar em hortas, plantações, podendo se tornar, inclusive, algo rentável.

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