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A Vulgarização do feminino: como hobbies considerados femininos são ridicularizados

[Série Mês das Mulheres] Da infância à vida adulta, gostos associados às mulheres continuam sendo tratados como fúteis — um reflexo de desigualdades culturais que ainda persistem

Por Nathalia Gussom (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Fonte: Freepik, Stephanie2212

No dia 4 de fevereiro de 2026, durante a assinatura do Pacto Nacional Contra O Feminicídio, a rapper Ebony, disse em entrevista que: “O feminicídio é o estágio final de uma doença que começa na infância dos meninos”, antes da violência extrema, há um processo silencioso e socialmente naturalizado: a desvalorização de tudo aquilo que é associado ao feminino. Desde cedo, aprende-se que o que é “de menina” é frágil, exagerado, fútil — e, por isso, ridicularizável.

A importância de manter hobbies é um fato consolidado, no estresse da vida adulta eles funcionam como uma válvula de escape, um respiro na rotina agitada, e podem se manifestar das mais diversas formas. Alguns homens jogam videogame, participam de uma partida de futebol com os amigos, jogam sinuca, colecionam figuras de ação ou leem HQs protagonizadas por um milionário que, à noite, veste-se de morcego para salvar os cidadãos dos vilões de sua cidade.

Todas essas formas de descanso são válidas e bem-vistas pela sociedade, mas, e se invertemos o lado?

Em uma lembrança pessoal, vem à minha mente um breve momento da infância: minha mãe me puxando da sala para a cozinha enquanto meu avô assistia ao futebol. Ela preparava o jantar e dizia que aquele era “o momento dele”. O que sempre me pareceu estranho: no dia seguinte, quem trabalharia seria ela. Ainda assim, não me lembro de vê-la tendo o “momento dela” durante o fim de semana. Esse relato parece inocente, mas não é.

Existe uma hierarquia cultural entre homens e mulheres, do ponto de vista da professora e socióloga Edsel Pamplona Diebe, essa hierarquia não é novidade: “Sempre existiu. Mulheres ganham menos, tem menos oportunidades e fazem muito mais jornadas que os homens, pois a casa e os filhos ainda continuam sendo sua responsabilidade. Sempre a ideia de que o homem apenas “ajuda”, se eximindo da responsabilidade.”

Analisando por esse ponto de vista, percebemos que o problema é muito mais complexo do que parece. As mulheres carregam um estereótipo bem definido dentro de uma sociedade misógina, por isso, uma mulher que possui hobbies demonstra ter outras prioridades e, portanto, não está confinada à prisão doméstica que socialmente lhe é imposta.

Esse tipo de represaria não prejudica apenas as mulheres. A professora Mônica de Cássia Ettinger, pedagoga e atualmente diretora de escola do Ensino Básico ao Médio, afirma que o medo de parecer feminino ainda assombra muitos meninos, que evitam se aproximar do chamado “mundo cor-de-rosa” para não se tornarem vítimas de bullying. A ridicularização surge, inicialmente, como um mecanismo de defesa; porém, à medida que esses meninos crescem, essa ridicularização pode se transformar em desprezo — e, em casos mais extremos, em violência.

A psicóloga Janaina Colombo explica esse fenômeno da seguinte maneira: “Durante a infância e a adolescência, os interesses e hobbies funcionam como espaços de constituição da identidade. Erik Erikson descreve essa fase como central para a formação do senso de identidade, em que o sujeito experimenta papéis e constrói coerência interna. Quando gostos associados ao feminino são ridicularizados, ocorre uma interferência direta nesse processo. […] Além disso, [o sociólogo francês] Pierre Bourdieu descreve a violência simbólica como uma forma de dominação que opera de maneira invisível, naturalizando hierarquias culturais. Ao desqualificar o feminino, a cultura transmite a mensagem de que aquilo que se associa às meninas tem menor valor. Isso afeta tanto meninas, que internalizam essa inferiorização, quanto meninos, que aprendem a rejeitar aspectos sensíveis da própria subjetividade.”

Enquanto meninos muitas vezes são incentivados a evitar comportamentos associados à sensibilidade ou ao cuidado, meninas acabam aprendendo, desde cedo, a relativizar ou justificar seus próprios gostos. Isso aparece, por exemplo, em uma entrevista concedida pela trancista Ana Vitória Feyisayo Layiwola. Ao receber suas clientes, ela percebe dois padrões recorrentes. O primeiro é que muitas mulheres sentem a necessidade de explicar o tempo dedicado ao autocuidado e o investimento que fazem em si mesmas. O segundo é que algumas relatam ouvir comentários pouco acolhedores, às vezes ingênuos e estruturais de seus companheiros. Entre as frases mais comuns, aparecem observações como: “vai gastar com esse cabelo?”, “vai ficar muito tempo no salão?” ou “não vai fazer trança curta ou nagô, né?

Fonte: Freepik

A doutora Janaina pontua que a violência masculina possui diversas raízes, que podem ou não estar diretamente ligadas a esse tipo de agressão simbólica. Segundo ela: “Não se trata de causalidade direta e isolada, mas de um componente estrutural relevante. A violência contra mulheres é multifatorial, envolvendo aspectos históricos, culturais e psicossociais. No entanto, a desvalorização simbólica contribui para a naturalização de assimetrias.”

Ou seja, existem diversas maneiras de incentivar meninos a se sentirem distantes das mulheres, como se vivessem em mundos opostos e hierarquizados, onde eles precisam demonstrar superioridade, mantendo a mulher em um lugar de submissão.

Como afirma a psicóloga, “Microdesqualificações e discursos depreciativos fazem parte de um continuum que pode evoluir para formas mais graves de violência. A socióloga brasileira Heleith Saffioti e Bourdieu demonstram que a dominação se mantém tanto por mecanismos simbólicos quanto materiais. Portanto, a ridicularização não é causa única, mas integra o contexto cultural que sustenta desigualdades de gênero.”

Ser mulher ainda carrega consigo preconceito, insegurança e medo. Infelizmente, não existe uma fórmula pronta para lidar com esse problema. Para a professora Laís Da Burgheri, a escola possui um papel fundamental na desconstrução da misoginia. “A informação diária é essencial. É preciso manter crianças e adolescentes orientados e desconstruindo estereótipos, abordando o tema de acordo com a idade dos alunos. Mas os responsáveis também precisam caminhar junto com a escola, o que nem sempre acontece.”

A psicóloga Janaina também aponta alguns sinais que podem ser observados em crianças e adolescentes, entre eles:

  • Vergonha persistente em relação a interesses pessoais;
  • Abandono de atividades prazerosas após episódios de ridicularização;
  • Autodepreciação baseada em estereótipos de gênero;
  • Rejeição agressiva ao feminino, especialmente entre meninos;
  • Isolamento social decorrente do medo de julgamento.

Segundo ela, o pensador russo Lev Vygotsky, referência na área da Educação, enfatiza que o desenvolvimento humano ocorre por meio da mediação social. Ambientes que validam experiências favorecem uma elaboração psíquica saudável, enquanto ambientes que ridicularizam reforçam internalizações negativas.

Como já dizia a intelectual francesa, Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher”. O chamado “sexo frágil”, na verdade, não tem nada de frágil. Mulheres como Anita Garibaldi, Joana d’Arc, Dandara dos Palmares, Glória Maria, Rita Lee e Cora Coralina mostraram, em diferentes momentos da história, que não aceitaram se encaixar em papéis impostos pela sociedade com base em seu gênero, não permitiram que suas vidas e ideias fossem moldadas a partir da ideia de um homem. Mulheres precisam estudar, se divertir, aproveitar cada minuto do seu dia.

Fortalecer meninas hoje é ajudar a construir mulheres livres amanhã.

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