A Indústria Cultural não nos para?
Nesta semana, tive o prazer de assistir ao show do gênio da musicalidade afro-brasileira Jorge Ben Jor. Aos 87 anos (sim! 87 anos), ele fez duas horas e meia de show sem intervalos e nem água bebeu.
Errou algumas entradas de música? Sim. Desafinou? Sim. Esqueceu de voltar depois do refrão em algumas canções? Sim. Mas ele estava muito bem amparado por duas excelentes backing vocals – entre elas, a cantora Paula Lima – e por uma banda de sonoridade impecável.
E podemos cobrar algo de alguém que fez tanto pela música e está com quase 90 anos?
Mas, em alguns casos, até que ponto isso é resistência; continuidade da arte; ou desejo de continuar próximo aos fãs?
No caso de cantores de menor projeção midiática, será que a necessidade financeira os força a continuar mesmo contra os sinais do corpo?
Será que a Indústria Cultural está identificando um novo “nicho de mercado”?
Há algum tempo, assisti a um show com Alcione, Jorge Aragão e Zeca Pagodinho. Todos mais novos que Ben Jor.
Diferentemente de Jorge, passaram grande parte do show sentados. E ficaram nítidos para o público, o cansaço físico e o desgaste vocal pelos anos de carreira.
No mesmo show uma grande surpresa: Martinho da Vila (o mais velho de todos os citados até aqui) subiu ao palco como artista convidado. Cantou vários clássicos de maneira impecável.
Por outro lado, vemos artistas mais novos cujas gargantas estão pedindo descanso, em que são nítidos o déficit vocal e a necessidade de cuidados com a saúde, mas não param.
Os pagodeiros Rodriguinho (ex-Travessos) e Chrigor (ex-Exaltasamba), os sertanejos Zezé di Camargo e Ralf (que por muitas décadas fez dupla com seu irmão Chrystian) e o roqueiro Axl Rose são grandes exemplos disso.
Vemos algumas bandas de rock fazendo o “último show” diversas vezes. O último show de Gilberto Gil teve inúmeros capítulos. Tom Zé (o mais longevo do texto agora) mais conta causos do que canta atualmente em seus shows, o que não diminui em nada sua importância musical. Benito di Paula nos deixou no domingo. Mesmo durante o tratamento do câncer, estava fazendo shows, o último foi há três meses.
Lembro-me das críticas à Indústria Cultural, principalmente aquelas apresentadas pelos criadores do termo Indústria Cultural, e em tempos de “escárnios digitais” em relação à qualidade técnica das apresentações dos coroas — e dos “six seven” — recordo também de Walter Benjamin, a reprodutibilidade técnica e a verdadeira aura. Quem vai a esses shows precisa estar ciente de que muitas vezes não verá exibições vocais perfeitas, mas sim a aura do artista.
Reforço que este texto não é uma expressão etarista, mas uma preocupação com os nossos mais velhos. Um momento de reflexão.
Será que o nosso egoísmo (disfarçado muitas vezes como amor de fãs), somado a produção de lucro — e não o cultural, antes fosse — não faz com que queremos cada vez mais apresentações artísticas ou novos álbuns de pessoas que precisam e merecem descansar?


