Padre Júlio Lancellotti mostra que amar é um ato de resistência
Mais do que caridade, seu trabalho é um chamado à ação, um lembrete de que a fé se faz no gesto de partilhar o pão e na coragem de enfrentar a injustiça.
Por: Letícia Américo Camargo (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Com um olhar manso e as mãos calejadas de partilhar o pão, Padre Júlio Renato Lancellotti segue caminhando pelas ruas de São Paulo, as mesmas que já tentaram expulsar aqueles que ele mais defende. Nascido em 27 de dezembro de 1948, construiu uma vida inteira dedicada ao ativismo e à luta ao lado dos moradores em situação de rua. Tornou-se uma figura que conquistou o olhar da população e da mídia, especialmente após seu trabalho durante a pandemia da COVID-19. Considerado por muitos a “personificação da bondade”, o Padre Júlio Lancellotti segue ajudando os mais necessitados com iniciativas importantes, sem esperar qualquer tipo de recompensa.
Sendo filho de um comerciante e uma dona de casa, desde cedo, recebeu uma educação religiosa. Aos 12 anos, ainda menino, no seminário em Araraquara, conheceu a dor da rejeição e da humilhação. Mas foi desse sofrimento que nasceu a compaixão que, décadas depois, o faria abraçar aqueles que ninguém mais queria olhar. Abandonou o seminário e concluiu os estudos em uma escola de padres agostinianos. Mais tarde, retornou à vida religiosa, formou-se frade e concluiu o curso de auxiliar de enfermagem na Santa Casa de Misericórdia de Bragança Paulista. Também se graduou em Pedagogia pela Faculdade Oswaldo Cruz e se especializou na PUC-SP.
Aos 19 anos, contrariado com o autoritarismo praticado no seminário, abandonou a vida religiosa e passou a trabalhar em hospitais. Hoje, aos 77 anos, segue indignado com o sistema capitalista e com a forma como ele impede que as pessoas saiam da miséria. Ganhador de diversos prêmios sobre a defesa dos direitos humanos, na última quinta-feira (6/11), ganhou o título de Cidadão Sorocabano, por apoiar o projeto Natal sem Fome, organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos e o Banco de Alimentos de Sorocaba.
Durante a coletiva, o Padre comenta sobre os desafios da pobreza e da exclusão social no Brasil, além de arquitetura hostil, Aporofobia, e a necessidade de respostas complexas para problemas igualmente complexos. Ele argumenta que a insegurança alimentar não constitui um fato isolado, mas sim um dos principais sintomas da pobreza, estando associada a um conjunto de problemas sociais como a falta de moradia, saúde e emprego. “Nós não podemos esperar que a sociedade mude para alimentar os famintos, porque eles vão morrer no caminho. Então é por isso que a gente diz, com uma mão eu partilho o pão e com a outra eu luto. Não dá para só lutar e não partilhar e nem partilhar sem lutar, você tem que partilhar e lutar”, enfatiza.
Ao falar sobre arquitetura hostil, ele recorda um dos momentos mais marcantes de sua trajetória — quando, de marreta nas mãos, quebrou os blocos de paralelepípedos instalados sob viadutos na Zona Leste de São Paulo, uma medida higienista criada para afastar a população de rua. “Temos que nos indignar com isso, e, às vezes, dar uma boa marretada na arquitetura hostil.” O sacerdote continua dizendo que, a implantação de projetos desse tipo é considerada ilegal, e que há uma lei que proíbe a iniciativa, e cita que se lembra de Santo Agostinho, sempre seguindo com a indignação e coragem para continuar seu trabalho.
A campanha do Natal sem Fome é uma das muitas iniciativas que nascem na época do Natal, uma época marcada por esperança e amor entre as famílias que tem a oportunidade de comemorar. Para quem vive nas ruas, o Natal sem Fome é mais do que uma refeição – é a chance de ser visto, ouvido e acolhido. Padre Júlio lembra que o Natal é todos os dias, pois Deus se faz presente em cada gesto de amor, e não apenas em uma data do calendário. “Que essa solidariedade não seja de enfeites. O melhor enfeite de Natal é dizer ao pobre: você é meu irmão”, finaliza.
Em um país onde a pobreza é tratada como paisagem e a compaixão, como exceção, o exemplo do Padre Júlio é um lembrete incômodo: não há fé verdadeira sem ação. A marreta que derrubou as pedras sob os viadutos é a mesma que tenta quebrar a indiferença. Ele não distribui apenas alimento, mas devolve dignidade, nome e voz a quem o mundo tenta calar, porque enquanto houver fome, haverá também quem partilhe o pão, e lute.
