Os desafios e chances do jornalismo sério no formato 9:16
O jornalismo enfrenta o desafio de se adaptar ao formato vertical, em que três segundos definem se o conteúdo vai sobreviver à velocidade das redes
Por Clara Abrami (Agência Focas – Jornalismo Uniso)
Já parou para pensar em como as notícias se adaptam ao formato vertical? Sim, estamos falando do feed do TikTok, dos Reels no Instagram e dos Shorts no YouTube.
De primeira, pode parecer que jornalismo sério e vídeos de um minuto com música e cortes rápidos jamais existiriam no mesmo mundo. Mas a realidade mudou, na verdade, foi forçada a mudar. Para o jornalismo, estar ativamente presente em plataformas digitais deixou de ser uma simples escolha e passou a ser questão de sobrevivência e de responsabilidade já que hoje o público está no “scroll infinito”.
Nas plataformas digitais, os primeiros três segundos de um vídeo são decisivos. Nesse curto intervalo, o espectador decide se vai continuar assistindo ou deslizar para o próximo conteúdo.
O algoritmo privilegia vídeos que retêm a atenção logo de início, impulsionando o alcance e a visibilidade. Por isso, a forma em que contamos as notícias teve que se reinventar, sem perder a precisão nem a credibilidade. Em um ambiente extremamente carregado de estímulos e ruídos, manter a atenção do user nos primeiros segundos é um desafio gigantesco.
O jornalismo tradicional opera na ordem de contexto. O jornalista tem espaço e tempo para construir um raciocínio, apresentar fontes e explorar e aprofundar as peculiaridades. Já as plataformas verticais funcionam sob a lógica da retenção, ou seja, manter o espectador assistindo pelo maior tempo possível.
Essa disputa pela atenção é confirmada por quem vive imerso na tecnologia, como Juan Rech, desenvolvedor de 19 anos. O jovem de Caxias do Sul (RS) confirma que a tolerância é baixa. “Quando vejo uma notícia dependendo do interesse busco mais informações, mas caso não me prenda, independente do assunto que seja, não termino o vídeo de 60 segundos”.
Para ele, o gancho inicial é o fator decisivo: “O que mais prende minha atenção para uma notícia é a forma como é abordada o início dela, se for algo muito catastrófico ou inovador”. A adaptação da linguagem também se mostra essencial para gerar confiança: “Geralmente, busco esse tipo de notícia em criadores de conteúdo nos quais confio. Gosto da forma como eles abordam os temas, muitas vezes com uma linguagem mais informal e trazendo sua própria opinião junto.”
Artur Vergennes, chefe da unidade da TVTEM em Itapetininga, explicou que os links e notas apresentadas nos telejornais, produzidos de forma rápida e conectados a matérias mais aprofundadas, funcionam não apenas como uma forma de informar, mas também como um recurso para estimular o público a buscar a reportagem completa.
“Na TV, otimizamos o tempo, usando a manchete e o lead para captar a audiência e fazê-la clicar na notícia.” afirma Artur.
Assim, surge a questão central: como explicar uma decisão complexa de política econômica ou o impacto de uma nova lei antes que o usuário deslize para o próximo vídeo de entretenimento?
Nesse cenário, a técnica jornalística precisa se adaptar sem perder sua base. O jornalismo sério se diferencia do infotenimento ou da simples opinião porque mantém seus pilares éticos e metodológicos, ainda que em um formato mais rápido.
O vídeo curto não deve ser encarado como um “resumo” da matéria completa, mas como uma segmentação estratégica. O papel do jornalista é escolher uma informação essencial, verificá-la com rigor e apresentá-la de forma direta e compreensível ao público que se destina. O contexto mais aprofundado pode ser oferecido na legenda, em um link complementar ou em uma segunda parte do conteúdo.
“No caso da mídia tradicional, usamos esses formatos mais rápidos como um chamariz para a matéria principal, encaminhando o telespectador para o G1, por exemplo”, acrescenta Vergennes.
Apuração e Fake News
Foto: Reprodução
Outro ponto essencial é o papel da apuração como freio do imediatismo e consumo desenfreado. Nas redes sociais, boatos e fake news se espalham em altíssima velocidade, enquanto o jornalismo trabalha com etapas fundamentais: checar a origem, confirmar a veracidade das fontes, ouvir todos os lados envolvidos, pedir notas, buscar imagens etc.
A linguagem, por sua vez, também precisa ser repensada. O maior desafio é usar os recursos das plataformas (como textos na tela, cortes rápidos, ganchos visuais, memes e linguagem jovial) sem perder a credibilidade. O jornalista pode se apropriar de tendências visuais ou sonoras, mas o conteúdo central PRECISA permanecer fiel aos fatos. A credibilidade é o ativo principal; o formato é apenas o veículo.
Ganhos e perdas
O principal ganho é a possibilidade de “furar a bolha” e levar informação de qualidade para públicos que dificilmente consumiriam jornalismo por meios tradicionais. É ocupar o mesmo território onde a desinformação circula para combatê-las.
O risco, por outro lado, está em simplificar (até demais) o conteúdo: ao buscar ser rápido e impactante, corre-se o perigo de transformar temas complexos em explicações superficiais, empobrecendo a compreensão do fato.
No fim, o jornalismo sério nas plataformas verticais é um exercício constante de equilíbrio. Trata-se de traduzir realidades complexas para a linguagem que circula na net, sem abrir mão da precisão, da responsabilidade e da ética.
Não se trata de fazer dancinhas ou sensacionalizar para dar a notícia e capturar a atenção do público, mas de compreender que o jornalismo digital é o novo espaço público da informação: onde, se os profissionais sérios não estiverem presentes, quem ocupará esse espaço será a desinformação.
Glossário:
Infotenimento: termo usado para descrever conteúdos que misturam notícia e diversão, onde o foco é o engajamento e não a veracidade.
Segmentação estratégica: técnica que consiste em recortar uma mensagem em partes menores e mais específicas, adequadas a públicos ou formatos diferentes.
