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Um recomeço que ultrapassa fronteiras: a história da família Samim

Por: Kathleen Moneta (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Fonte: arquivo pessoal

Sentados em um tapete vermelho estampado com listras e com almofadas confortáveis à volta, a acolhida é visível. É dessa maneira que a família fazia questão de receber todos os clientes no restaurante, como se quisessem que a experiência afegã fosse completa. O local pequeno, mas aconchegante, faria qualquer um se sentir imersivo, mesmo que nunca tivesse visitado um país como o Afeganistão, como no meu caso. As paredes de cores brancas traziam destaque para as cortinas desenhadas com flores vermelhas que cobriam as janelas, mas não despertavam tanto a atenção como o cheiro que preenchia o ar: uma mistura de temperos excêntricos, quase como cítricos, e o aroma de um chá que variava do doce ao picante, mas que agradariam o olfato de qualquer um.

Em um português mais arrastado, mas ainda compreensível, Sohrab contava com orgulho sobre seu restaurante. Com a insegurança do idioma, era seu filho de 14 anos, já familiarizado com o português, que o ajudava a traduzir o que fosse necessário. Mesmo que a linguagem não pudesse traduzir completamente o que Sohrab sentia, era possível perceber nos olhos quase fechados, mas ainda brilhantes, o peso daquela trajetória que resultou em um futuro esperançoso para a família. Zakia, que mantinha um sorriso acolhedor desde o primeiro momento, olhava para o marido como se pudesse reviver a história inteira naquele exato momento.

Cada palavra contada abraçava o ouvinte em um gesto de solidariedade de uma angústia inimaginável e desumana. A atenção distribuída na minha expressão era tanta que era possível esquecer que eu estava ali para relatar aquela história, mas ao mesmo tempo, era como se um filme passasse na minha cabeça. Um filme que não vivi e nem senti, mas que pude mergulhar no relato.

Sohrab era jornalista. Talvez uma das poucas coisas que tivéssemos em comum. Era um rosto conhecido nas televisões, apresentando um programa e sendo porta-voz militar do Afeganistão. Mesmo com um currículo de peso, a família Samim teve sua paz retirada quando o extremismo invadiu o lar deles.

O Afeganistão não era mais o mesmo e a rotina da família, certamente, não seria mais a mesma. Era agosto de 2021, quando o regime do Talibã voltou a pintar o país e desenhar o medo em cada habitante.

Sohrab introduz seu pai na conversa em uma tentativa quase frustrada de não marejar os olhos, mas com um incentivo discreto de cabeça da esposa, ele parece puxar todo o ar antes de contar a tragédia que o envolvera: o pai era oficial da polícia, um homem de farda completamente respeitado pelo país e foi justamente por isso que foi alvo do Talibã. Sohrab conta que uma bomba foi colocada dentro do carro que estava e ainda acrescenta que a coragem e a dedicação para com o povo, que infelizmente, o colocaram nessa posição terrível para o grupo terrorista. Ele ainda complementa que no dia da tragédia, além de ter perdido o próprio pai, um símbolo de justiça também se evadiu dele. O luto não teve espaço o suficiente para ser sentido e vivido por aquela família, já que não demorou muito para que Sohrab também passasse a ser um rosto procurado entre o grupo terrorista. Por mais que a admiração pelo pai estivesse estampada nos olhos do afegão, era simples afirmar que a dor escondida na voz era maior.

O extremismo veio de repente, sem um aviso. Um país inteiro foi tomado, em poucos dias, por um controle tão cruel que transformou a atmosfera inteira em medo. Qualquer um que fosse contra, era morto. Não havia liberdade de expressão. O direito das mulheres foi enterrado, sem poder ter acesso à educação ou simplesmente ir até um restaurante com a família. Foi no momento que Sohrab contava sobre essa rigidez, se é que podemos chamar assim, que saí do meu papel de entrevistadora e apenas o escutei. Desfiz a postura ereta e parei de digitar. Me inclinei para escutá-lo melhor e apenas imaginar a tamanha crueldade com todos os afegãos, mas especialmente, as mulheres. Imaginei Zakia, a esposa, sendo privada das mínimas liberdades que, em qualquer outra parte do mundo, são comuns e que não despejamos o valor devido como simplesmente olharmos para o céu ou passearmos sem rumo. Mas aquilo deixou de ser realidade para ela e para milhares de mulheres do Afeganistão que teriam que ‘’viver’’ reclusas, sob uma severidade de um grupo de homens armados, violentos, perigosos e desumanos, a fim de preservarem o pouco de vida que as restava.

Sohrab diz, agora com mais firmeza, que se tornou alvo do Talibã justamente por defender publicamente a democracia e os direitos das mulheres. Algo que era evidenciado em seus tempos de imprensa. A partir daí, os dias da família não foram mais os mesmos.

O Talibã passou a procurar o rosto de Sohrab em todos os lugares, indo até a casa dele para prendê-lo, o que segundo o homem, seria sinônimo de matá-lo. Com profundo terror, a família Samim precisou viver às escondidas, sendo prisioneiros da própria vida para fugirem de um fim trágico e que dilaceraria ainda mais o coração de Sohrab. Ele se viu obrigado a fugir com eles. Com a mulher, privada de qualquer gesto que a denunciasse, e seus três filhos, eles viveram dias e noites repletas de incertezas, mas ainda esperançosas, para que conseguissem se abrir em um país novo, precisando deixar para trás histórias, momentos e sonhos no Afeganistão.

Com muita determinação e riscos sendo colocados à tona, iniciaram a imigração para o Irã. Sohrab conta que esses dias foram muito doloridos, principalmente por olhar para aquelas crianças e não saber como protegê-las. Não havia o que fazer a não ser se arriscar, ao invés de viver a mercê de não saber se acordaria vivo no dia seguinte.

Da capital do Afeganistão para a fronteira do Irã, são aproximadamente 10 dias andando, 21 horas de carro e apenas 2 horas de avião. A família Samim precisou fazer o possível em dez dias para finalmente respirar um ar seguro e aliviado. Através de travessias ilegais, os cinco precisaram lidar com dias em montanhas, passando por um frio intenso, sem muitos itens de sobrevivência e os poucos que tinham, eram prioridades aos filhos. Tudo era feito com extremo cuidado, afinal, o Talibã havia tomado o país inteiro. Que certeza a família tinha de que não poderia ser capturada a qualquer momento?

Os casacos já não esquentavam e as poucas mochilas ainda seguiam pesadas para quem precisava mudar de vida drasticamente. Para quem enxerga de um mapa, as rotas possuem traços, caminhos e direções, as fronteiras são perfeitamente visíveis e desenhadas, mas para eles, o caminho era tortuoso, difícil, sem fim e incerto. Além disso, Sohrab podia encontrar nos trajetos pessoas com as mesmas intenções, que precisavam de uma segunda chance, de um recomeço e de um novo lar. Todas com a mesma expressão carregada de terror, sem saber ao certo se o que estavam fazendo teria um final bom. Mas que todos torciam para que fosse.

Quando finalmente chegaram ao Irã, um peso pareceu ter sido tirado dos ombros de Sohrab, mas a incerteza ainda era companheira de seus pensamentos. A paisagem ainda era parecida ao que estavam acostumados a ver nos últimos dias, mas sabiam que ali não seria igual aos seus dias no Afeganistão. Conseguiram uma garantia de que poderiam testar um novo começo para a família no Irã, um país economicamente mais seguro, com costumes semelhantes, mas principalmente, sem perseguição. Permaneceram lá por três meses, mas os vistos logo expiraram, os forçando a continuar ali ilegalmente. O receio que um dia pareceu ser deixado na fronteira, apareceu com eles novamente.

Tentaram outras oportunidades: escapar para a Turquia, também ilegalmente, mas logo desistiram pela insegurança que sentiam em relação às pessoas que tinham se comprometido a ajudar. Não se podia confiar em qualquer um, mesmo que as esperanças e soluções fossem quase nulas. Tudo era muito arriscado. Decidiram então buscar um capítulo que seria completamente diferente de tudo. Uma virada de chave. Sohrab viu no Brasil uma resposta de consolação, quase como nascer de novo.

Estavam decididos. Sohrab entrou em contato com a embaixada brasileira na cidade de Teerã, no Irã, quase como um pedido de súplica. Ele contou toda sua história, em uma comunicação que traduzia superação e necessidade. E no meio de toda aquela escuridão, uma luz apareceu, como ele gosta de dizer: um telefonema de aprovação do pedido humanitário da família Samim.

Enquanto Sohrab contava a notícia da aprovação, seu filho sorriu simples, como se pudesse lembrar do alívio ao receber aquela esperança de recomeçar a sua vida, mesmo ainda tão novo. O pai parecia tentar encontrar palavras em português que pudessem expressar o suspiro descarregado de tensão que deu no momento em que recebeu a ligação. Mas eu assumi que aquilo não seria necessário. Os olhos falam muito e eu pude perceber a tamanha onda de gratidão que o rosto dele se transformou.

Os problemas financeiros foram um impasse para que o sonho brasileiro fosse realizado rapidamente, mas tudo deu certo no final. Em 2022, a família pôde respirar aliviada ao pisar no aeroporto de Guarulhos e perceber que todo o sacrifício teria uma recompensa, mesmo que eles não fossem merecedores de terem passado por tamanho sofrimento.

Sohrab contou, ainda com aqueles olhos de gratidão, que foram recebidos com muito amor e acolhimento no país, por pessoas que nem os conheciam. Em uma cultura oposta, uma língua difícil e um país novo, eles começaram do zero. As memórias de Sohrab nos levam para Salto de Pirapora, no interior de São Paulo, onde puderam se instalar e entender os costumes dos brasileiros, primeiro vistos como exóticos, mas depois, se tornaram parte deles também. Foi ali que começaram a levar a comida afegã para a região, participando de feiras e com a oportunidade de carregar um pouco do lar e espalhar a cultura do país para diferentes lugares.

Com um conselho de um amigo, a família entendeu que deveria se mudar para uma cidade maior. E foi assim que Sorocaba apareceu na vida dos Samim e os acolheu em 2023. O ramo culinário começou a dar esperanças para Sohrab, que se viu feliz em compartilhar o seu país com os outros. Então, decididos, resolveram abrir um espaço para que a culinária afegã fosse conhecida pelos brasileiros, juntando a paixão pela comida com um gesto de manterem a cultura do país deles ainda viva na rotina de cada um da família.

Zakia é a principal cozinheira da casa e o talento não se limitou apenas às refeições de família. Hoje, ela se sente feliz em poder cozinhar para os sorocabanos que visitam o restaurante deles e assim como os outros membros da família, faz questão de receber cada um com muita simpatia e gratidão. Aliás, segundo eles, os clientes se tornaram família.

No fim da conversa, Sohrab consegue expressar a felicidade de estar no Brasil e não se cansa de agradecer ao povo, que o acolheu e ‘’salvaram nossa vida’’. A hospitalidade do brasileiro permitiu que uma família de cultura diferente pudesse se sentir em casa e principalmente, livre e feliz.

É curioso pensar que um grupo possa carregar tanta força como eles. Tentar se colocar no lugar não seria suficiente, não passamos pelas mesmas aflições, mesmas incertezas, mesmos medos. Mas uma coisa é possível perceber e que vai além de qualquer fronteira terrestre: a capacidade de recomeçar. Quando uma família como a de Sohrab carrega tanta história e memória em uma mochila e atravessa o mundo com isso, fica evidente que a vida os deu uma segunda chance. E talvez seja daí que conseguimos entender que um lar é onde o coração está em paz e transbordando. O Brasil é isso para eles.  

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