Avanço da esporotricose: casos em humanos saltam 960% em Sorocaba
Causada por fungos presentes no solo e transmitida, sobretudo, por contato com gatos infectados, a infecção exige cuidados simples de higiene e responsabilidade dos tutores para ser contida.
Por Larissa Tirabassi e Marizete Resende (Agência Focas – Jornalismo Uniso)
A esporotricose é uma micose, ou seja, uma infecção causada por fungos, que afeta principalmente a pele e pode atingir tanto humanos quanto animais, especialmente gatos. A doença é provocada por fungos do gênero Sporothrix, encontrados no solo, em plantas, espinhos, madeira e materiais orgânicos em decomposição. A infecção ocorre quando o fungo entra no organismo por meio de pequenos ferimentos na pele ou nas mucosas. Isso pode acontecer em acidentes com espinhos, lascas de madeira ou contato com plantas contaminadas, além de arranhões, mordidas ou contato com secreções de animais infectados.
Segundo a médica veterinária Fernanda de Figueiredo Beda, 47 anos, a esporotricose se tornou uma zoonose crescente no Brasil nos últimos anos, principalmente devido à transmissão envolvendo gatos domésticos. De acordo com a especialista, o aumento dos casos está relacionado a fatores como o crescimento da população de felinos sem acompanhamento veterinário, o abandono de animais e a falta de diagnóstico precoce da doença. “A pessoa vê um gatinho com uma lesão, mas não conhece, não sabe que pode ser esporotricose. A falta do diagnóstico precoce também contribui para o aumento dos casos no Brasil. O acesso limitado ao tratamento e a desinformação também influenciam”, explica.
A veterinária afirma que os gatos têm um papel central na disseminação do fungo, pois costumam desenvolver lesões profundas na pele com grande quantidade de microrganismos. “Nos gatos, o fungo está presente em grande quantidade nas feridas e pode ser transmitido por arranhões, mordidas ou pelo contato direto com secreções dessas lesões”, afirma. Segundo ela, os sinais mais comuns da doença são feridas que não cicatrizam, lesões ulceradas com crostas, nódulos na pele e perda de pelos, geralmente na face, orelhas, patas e cauda. O comportamento territorial dos felinos, as brigas frequentes e o acesso à rua também favorecem a disseminação do fungo entre os animais e aumentam o risco de transmissão para humanos.
Além da transmissão da doença, a especialista alerta que o abandono de animais infectados ainda é um problema frequente no país e contribui para o aumento dos casos. Segundo ela, muitos tutores deixam de continuar o tratamento por causa do tempo ou do custo, o que agrava a disseminação do fungo. “Infelizmente, o abandono de animais diagnosticados ainda acontece. Em muitos casos, as pessoas não têm condições de manter o tratamento ou simplesmente negligenciam a saúde do animal”, afirma. A veterinária lembra que abandonar um animal é considerado crime de maus-tratos. “Quando você adota um animal, precisa assumir a responsabilidade por toda a vida dele, principalmente quando ele está doente”, diz.
Entre as principais medidas de prevenção, a especialista recomenda manter os gatos dentro de casa, realizar a castração e buscar diagnóstico veterinário ao identificar feridas suspeitas. O uso de luvas ao manipular animais com lesões também é indicado. Para ela, ampliar a informação sobre a doença é fundamental. “Uma questão muito importante é ampliar a divulgação das informações, o que chamamos de Educação em Saúde. A população precisa ter mais acesso a informações sobre casos que ocorrem em cada município, sobre como prevenir, e é fundamental aumentar também a divulgação sobre essa zoonose”, afirma.
A reportagem também buscou contato com os setores de zoonoses da região de Sorocaba para ampliar a apuração, mas até o fechamento desta matéria não houve retorno.

Entre 2023 e 2025, os casos aumentaram 960% em humanos e 383,7% em animais.
Dados da Secretaria Municipal da Saúde de Sorocaba indicam crescimento dos casos na cidade. Entre humanos, foram registrados cinco casos em 2023, 26 em 2024 e 53 em 2025. Entre os animais, principalmente gatos, foram 49, 152 e 237 casos nos mesmos períodos.
O aumento local acompanha uma tendência observada em todo o estado de São Paulo. Desde a primeira notificação da doença, em 2011, mais de 7,8 mil casos de esporotricose humana foram registrados no estado até 2025, evidenciando crescimento expressivo ao longo dos últimos anos.
Estudos epidemiológicos também apontam que a doença afeta mais frequentemente mulheres adultas, especialmente entre 30 e 59 anos, com destaque para as faixas de 40 a 49 e 50 a 59 anos. Esse padrão pode estar relacionado à maior exposição no ambiente doméstico e ao contato com animais, já que muitas mulheres assumem os cuidados diários com os pets.

Mais de 90% dos casos de esporotricose humana ocorrem em áreas urbanas e estão associados ao contato com gatos infectados.
A auxiliar veterinária Rogéria Tozadori, 48 anos, conhece bem os riscos da doença. Ela descobriu que estava com esporotricose após notar uma pequena lesão na mão. “Eu descobri quando começou a sair uma bolinha vermelha na minha mão e essa bolinha começou a coçar. Eu achava normal e nem dava bola, parecia uma picada de mosquito, como se fosse uma alergia. Mas ela começou a aumentar, e eu comecei a coçar. Quando apertei, saiu água”, conta.
Rogéria acredita que o contágio aconteceu após ser arranhada por uma gata chamada Bibi enquanto trabalhava em uma clínica veterinária. “Ela me arranhou na unha, saiu um pouco de sangue, algo comum para quem trabalha com animais. Ninguém sabia que ela tinha a doença, porque não apresentava sintomas”, relata.
A ferida apareceu em outro ponto da mão e foi aumentando com o tempo. “Depois descobrimos que ela tinha esporotricose, mas era como se fosse uma forma silenciosa da doença”, diz. A recuperação foi longa, “demorou cerca de oito ou nove meses para cicatrizar totalmente”.
O diagnóstico também apresentou dificuldades. O primeiro exame deu resultado negativo devido a um erro na coleta. “A profissional ficou com dó de retirar um pedaço da ferida e pegou só algumas casquinhas. O resultado demorou mais de 40 dias e deu negativo”, lembra. Somente após procurar uma médica dermatologista foi feita uma nova coleta, que confirmou a infecção.
O tratamento durou cerca de seis meses com medicamentos antifúngicos. “Assim que comecei a tomar o remédio já fui vendo a diferença, a ferida foi secando bastante”, afirma. Apesar da recuperação, algumas cicatrizes permanecem.
Além dos desafios médicos, Rogéria também enfrentou a desinformação sobre a doença. “Uma vez uma pessoa viu meu braço e perguntou o que era. Quando falei que era esporotricose, ela começou a se afastar de mim”, conta. Segundo ela, muitas pessoas acreditam que a doença pode ser transmitida apenas pelo contato próximo, o que não é verdade. A transmissão entre humanos é rara e, para ocorrer, seria necessário contato direto entre feridas.

Fonte: Arquivo pessoal Rogéria Tozadori
Rogéria ainda apresenta sequelas da doença, com cicatrizes no local da ferida e a unha, onde foi arranhada pelo gato, com coloração roxa.
Segundo uma enfermeira da rede pública de saúde, que pediu para não ser identificada, os casos de esporotricose costumam chegar às unidades quando as lesões já estão mais avançadas. “Os sintomas mais comuns são feridas ou nódulos na pele, vermelhidão, inchaço e lesões que podem se espalhar ao longo do braço ou da perna”, explica.
A profissional também destaca que o diagnóstico inicial pode ser difícil, principalmente porque muitas pessoas não reconhecem os sinais da doença. “Em muitos casos, o paciente acha que é apenas uma ferida simples e demora para procurar atendimento. Além disso, nas fases iniciais, a doença pode ser confundida com outras infecções de pele”, afirma.
Para ela, um dos principais desafios no enfrentamento da esporotricose ainda é a falta de informação da população sobre a doença. A profissional ressalta que a prevenção depende de ações simples, mas que precisam ser amplamente divulgadas. “O mais importante é informar a população, incentivar o tratamento dos animais doentes, evitar o abandono de gatos e buscar atendimento logo no início das lesões”, diz.
Ela também destaca que o controle das doenças transmitidas por animais faz parte das atribuições da vigilância epidemiológica dos municípios. No entanto, avalia que ainda faltam iniciativas de educação em saúde em algumas cidades. Para a enfermeira, a ausência de ações preventivas faz com que muitas doenças só recebam atenção quando os casos já estão mais avançados. “Hoje, é preciso que dezenas de casos sejam registrados para que haja algum alerta das autoridades”, afirma.

Medidas de prevenção contra a esporotricose recomendadas pela Secretaria da Saúde, disponíveis em materiais informativos e boletins epidemiológicos do órgão.
[Texto desenvolvido na disciplina de Jornalismo especializado, ministrada pela professora Georgia de Mattos]
