Slam: a força da poesia falada nas ruas
Em Sorocaba, o crescimento das batalhas de slam mostra como a poesia falada se tornou ferramenta de expressão social nas periferias.
Stefany Lima (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Batalha de poesia do Slam Trincheira | Reprodução: Slam Trincheira / Eduarda Port
Ao contrário do que muitos pensam, o Slam não é uma batalha de rima comum, daquelas que frequentemente viralizam na internet com punchlines (rimas de impacto) surpreendentes que são aguardadas ansiosamente para receberem gritos de admiração.
O Slam é uma batalha de poesia que surgiu na década de 80, criada por Marc Smith em Chicago, mas chegou ao Brasil somente em 2008, com a atriz, pesquisadora e slammer Roberta Estrela D’Alva, responsável por introduzir o formato no país após conhecer competições de poesia falada nos Estados Unidos.
Embora a poesia falada exista há muito tempo, o que diferencia o slam de outras manifestações poéticas é o seu caráter popular e coletivo. Se antes a poesia era associada principalmente a espaços acadêmicos e elitizados, o slam surge justamente com a proposta de aproximar essa arte do público comum, ocupando ruas, praças e espaços públicos. Nas apresentações, os poetas utilizam apenas o corpo e a voz para recitar textos autorais, geralmente com duração de até três minutos, sem qualquer acompanhamento musical ou objetos cênicos.
A palavra “slam”, em inglês, remete ao som de uma batida forte, como o fechar de uma porta ou janela. Na prática, o termo representa a intensidade e o impacto das performances poéticas. Durante as competições, cinco jurados são escolhidos entre o público e atribuem notas às apresentações logo após cada declamação, avaliando aspectos como criatividade, performance e conexão com a plateia.
Mais do que uma competição artística, o slam se consolidou como um importante movimento cultural e social. Nas poesias, é comum que os participantes abordem temas atuais e urgentes, como racismo, violência, desigualdade social, identidade, política e vivências das periferias. Ao trazer essas questões para o centro do debate público, o slam transforma a poesia em uma ferramenta de reflexão e posicionamento político.
No Brasil, o primeiro campeonato de slam foi o ZAP! (Zona Autônoma da Palavra), criado em São Paulo em 2008. Pouco tempo depois, surgiu o Slam da Guilhermina, considerado o primeiro slam realizado nas ruas do país. Organizado próximo à estação Guilhermina–Esperança do metrô, na zona leste da capital paulista, o evento ajudou a consolidar o formato de batalhas abertas ao público e realizadas em espaços urbanos.
Com o passar dos anos, o movimento se expandiu rapidamente. A partir de 2014, novos coletivos começaram a surgir em diferentes cidades brasileiras, e em 2017 ocorreu o que muitos organizadores chamam de “boom do slam”, quando o número de grupos e campeonatos cresceu significativamente. Atualmente, os vencedores das competições locais podem participar do Slam BR, o Campeonato Brasileiro de Poesia Falada. O campeão nacional segue para representar o país na Copa do Mundo de Slam, realizada anualmente em Paris.
A presença feminina também é uma característica marcante da cena. Muitas das principais vozes do slam brasileiro são mulheres, que utilizam o espaço da poesia para discutir questões de gênero, violência e desigualdade. Esse ambiente mais diverso e inclusivo contribui para que diferentes grupos sociais encontrem no slam uma forma de expressão e representatividade.
Para o estudante de Publicidade e Propaganda Thiago Rodrigues Freitas, de 20 anos, o contato com o slam aconteceu por acaso, mas rapidamente se transformou em paixão. “Eu não sabia o que era slam. Eu estava numa batalha de hip hop e vi um pessoal recitando poesia de forma mais intensa. Achei parecido com o que eu já fazia nas escolas e resolvi participar”, conta.
Thiago participou pela primeira vez do Slam 015, em Sorocaba, e mesmo não avançando nas etapas da competição, se sentiu acolhido pelo ambiente. “Eu gostei muito da forma como as coisas aconteceram e do acolhimento dos outros poetas. Foi ali que eu me apaixonei pelo movimento”, afirma.

Thiago Rodrigues Freitas | Foto: Stefany Lima
A experiência foi tão marcante que, no mesmo dia, surgiu a oportunidade de criar um novo coletivo. Ao lado do poeta conhecido como Zé Ninguém, Thiago ajudou a fundar o Slam Trincheira (@slamtrincheira), com o objetivo de ampliar o acesso ao movimento na região. “A gente quis levar o slam para a Zona Norte da cidade. O evento que já existia era no centro, o que é bom, mas queríamos descentralizar e facilitar o acesso para quem mora na periferia”, explica.
Segundo ele, a criação de novos grupos também contribui para revelar talentos locais e fortalecer a cultura periférica. “Em pouco tempo já apareceram muitos poetas da Zona Norte. Isso mostra que existe muita gente com vontade de se expressar, só precisava de um espaço para isso.”
Entre os temas mais recorrentes nas rodas de slam estão questões raciais, violência policial, desigualdade social e feminicídio. Os assuntos discutidos nas poesias costumam refletir diretamente o momento político e social vivido pela comunidade.
Além da valorização cultural, Thiago acredita que o slam tem um papel social importante, especialmente entre jovens. Para ele, a arte pode funcionar como uma ferramenta de transformação. “Na periferia, muitas vezes o único incentivo que chega é o esporte. A arte quase não aparece. Quando você leva poesia para esses lugares, você mostra que existe outra forma de se expressar e de pensar o mundo.”
Apesar do crescimento do movimento, os organizadores ainda enfrentam desafios, principalmente em relação ao financiamento. Muitos coletivos funcionam de forma independente e dependem de editais ou iniciativas culturais para manter suas atividades.
Mesmo diante dessas dificuldades, o estudante acredita que o futuro do movimento é promissor. Seu principal objetivo é ampliar o alcance do slam e inspirar novas iniciativas. “A nossa meta é levar essa cultura para o máximo de pessoas possível. Quando você apresenta o slam em um lugar e alguém se inspira a criar outro grupo, a cultura vai se espalhando.”
Assim, entre versos, performances e vivências compartilhadas, o slam segue se consolidando como um espaço de resistência, expressão e construção coletiva, em que a poesia deixa de ser apenas literatura e se transforma em voz ativa da sociedade.
[Texto desenvolvido na disciplina de Jornalismo especializado, ministrada pela professora Georgia de Mattos]
