A pressão da moda: entre tendências e estilo próprio
Como redes sociais e fast fashion moldam o visual coletivo e porque manter a autenticidade continua sendo escolha pessoal.
Por Sophia Ruivo Pompeu (Agência Focas – Jornalismo Uniso)


Instagram: Tamires Dagnes, à esquerda, em seu perfil pessoal, e Suellen Cristina, à direita, em seu perfil pessoal
Você já assistiu a um filme dos anos 1980 ou 2000 e reparou como cada personagem parecia ter um estilo próprio? De acessórios marcantes a cores vibrantes e modelagens diversas, a moda parecia refletir identidades únicas. Com o passar do tempo, no entanto, essa diversidade foi dando lugar a padrões e, hoje, a sensação é a de que todos caminham na mesma direção.
Com a padronização das tendências nas redes sociais, a moda deixa de ser apenas expressão e passa a revelar as tensões entre pertencimento, identidade e autenticidade.
Uma pesquisa quantitativa foi realizada especialmente para esta reportagem. O levantamento foi composto por cinco perguntas (quatro objetivas e uma aberta) com o objetivo de compreender como o público percebe o estilo pessoal em meio à lógica contemporânea da moda.
O formulário, divulgado online ao longo de quatro dias, reuniu 57 respostas de participantes da região de Sorocaba, com idades entre 18 e 50 anos. A proposta foi mapear a percepção sobre a padronização do vestir, identificar os principais fatores que influenciam o consumo e captar, em respostas espontâneas, como os indivíduos definem o que é ter um estilo próprio.
60% dos usuários disseram que as pessoas estão sim se vestindo cada vez mais parecidas, enquanto 29% disseram que talvez pareçam iguais e 10% alegam que não. Ainda de acordo com o formulário, o que rege o consumo das roupas são o estilo pessoal e o conforto; as redes sociais aparecem em terceiro lugar. Os resultados demonstram que, mesmo com a massificação, a tendência é ir contra a cultura de padrões em uma busca de conforto e autenticidade.
Para a jornalista e influencer de moda Tamires Dagnes, as redes sociais contribuem para essa percepção porque a informação que demorava meses para chegar das passarelas ao consumidor agora está cada vez mais instantânea. “Looks viram tendência em horas e passam a ser consumidos rapidamente, tornando a moda mais baseada no parecer do que no ser. O importante passa a ser estar dentro de um código visual reconhecível, uma fórmula pronta e não necessariamente construir algo próprio. É como se o significado ficasse mais raso, porque a estética vem antes da história por trás dela.”
Essa perspectiva se intensifica com a lógica do consumo rápido. Aplicativos de redes sociais com lojas integradas diretamente dentro das plataformas induzem o público a consumir no próprio vídeo em que a peça está exposta. Em uma rede social de alto consumo, um único vídeo pode vender milhares de peças de roupas. Jovens são especialmente influenciados a reproduzir padrões visuais como forma de pertencer e de serem aceitos socialmente. “É natural sentir essa pressão, principalmente, quando o algoritmo te força a seguir uma direção”, comenta Tamires.
Além disso, o cenário também é observado em estudos acadêmicos. Um artigo de Maria Isabella Pereira de Alencar e Maria Eduarda Bonfim de Oliveira, publicado em 2025 na Revista de Geopolítica, aponta que a exposição constante a padrões de beleza irreais nas redes sociais está diretamente relacionada à insatisfação corporal e à construção da autoimagem de adolescentes.
A influenciadora de moda Suellen Cristina se destaca nas redes com seu cabelo ruivo, maquiagens nada convencionais e looks que misturam elementos dos anos 1970 e 1980.
Para ela, a moda depende muito de como você a usa. “Qualquer pessoa pode usar qualquer peça de roupa! Você pode muito bem usar um blazer e passar uma imagem formal, mas também pode usá-lo de uma forma divertida e descontraída. As peças são padronizadas, mas você não! A forma que estiliza a sua roupa é o que determina o seu estilo, a sua essência! Eu não considero que tenho um estilo definido, eu fui crescendo, descobrindo o que eu realmente gosto e me moldando ao longo dos anos.”
Suellen diz que, mesmo com seu estilo, ainda sente medo do julgamento ao usar certos looks na rua. Ela comenta que, por mais que as pessoas olhem, cabe a cada um decidir se absorve ou ignora esses olhares. “Na verdade, eu acho que as pessoas pararam de tentar, sabe? Estamos em um momento onde tudo que foge minimamente do padrão é tomado como esquisito, ridículo. Então, para evitar comentários desconfortáveis, as pessoas acabam se escondendo e caindo na padronização. Elas deixam a sua essência de lado pelo simples medo de julgamento.”
Ainda que exista a ascensão da pasteurização na moda, o formulário refletiu que estilo pessoal ainda é caracterizado por palavras como “autenticidade”, “personalidade”, “independência” e “criatividade”. Em uma das respostas anônimas da pergunta aberta sobre estilo pessoal, o respondente diz que “se sentir bem com o que está vestindo, sem precisar seguir padrões ou tendências. Usar uma roupa que expresse quem você é, e não uma roupa que todos usam. Sinto que muitas pessoas que se vestem igual a influencers ou famosos e seguem tendências estão perdendo sua essência e personalidade.”
A essência também é citada por Suellen, com um misto de referências que você carrega de quem admira. “A sua essência vem daquilo que gosta, daquilo que consome. Você se veste dessa maneira porque admira alguém que te inspirou a se vestir assim, usa essa maquiagem porque é algo que faz parte de você, e isso é a sua identidade! Ninguém pode apagar aquilo que admira, aquilo que você gosta, a não ser você mesmo!”
Tamires Dagnes também cita que ter um estilo próprio não impede de seguir tendências, e parte disso se reflete em patrocinadores que buscam creators com identidade própria. “Hoje, meu estilo influencia meu conteúdo. Isso não quer dizer que eu seja uma creator imutável, mas acredito que ser fiel a você te permite ser autêntico até quando a mudança é inevitável. Apesar disso, me mantenho fiel ao meu conteúdo e acredito que as marcas me procuram justamente por isso.”
Mesmo com a busca por padrões que façam pertencer a algum grupo, manter a identidade autêntica é uma forma de se adaptar à realidade do consumo massivo.
Assim como Tamires Dagnes e Suellen Cristina mostram, misturar referências, estilos e gostos é fundamental para construir um estilo pessoal.
Alternativas sustentáveis, como artesanatos e brechós, são sempre uma escolha para quem busca construir uma identidade única. Assim, ao escolher peças além do catálogo convencional, é possível refletir ainda mais sua identidade sem repetir padrões ou competir por aceitação.
[Texto desenvolvido na disciplina de Jornalismo especializado, ministrada pela professora Georgia de Mattos]
