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Produção artesanal de quitutes permanece viva em corações tatuianos que regam tradição e constroem legado

Por Isaac Sarti, João Vitor Casagrandi, Juliano Rosa, Maria Luiza Weiss e Victor Bezerra (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Em cerca de 10 anos, a Feira do Doce de Tatuí já atraiu mais de um milhão de visitantes | Reprodução/Prefeitura de Tatuí

Conhecida como a “Terra dos Doces Caseiros”, Tatuí leva desde 1952 a tradição da produção dos clássicos doces ABC (abóbora, batata-doce e cidra). Essa tradição foi iniciada por pessoas como Belarmina de Campos Oliveira, que cozinham os doces em sua própria casa. O costume da produção caseira caracterizou Tatuí como uma vitrine regional de sobremesas. Hoje, essa arte faz parte da identidade cultural da cidade e se transformou em receitas que atravessam gerações. No entanto, sua origem se deve à necessidade que a antiga população tinha de aproveitar o plantio dessas matérias-primas.

Com o tempo, a prática foi se consolidando em narrativas sobre o município, por escritores como Paulo Setúbal (1893-1937) e Chiquinha Rodrigues (1896-1966), e mais recentemente, ganhou maior visibilidade proporcionada pela “Feira do Doce”. Criada em 2013, inicialmente como “Festa do Doce”, por meio de uma parceria da Prefeitura com a Associação Produtores de Doces de Tatuí (Aprodoce), é, atualmente, reconhecida como a maior feira de doces caseiros do Estado de São Paulo. Somente em sua 11ª edição, realizada em 2025, a mostra recebeu 235.727 visitantes em cinco dias. Tem reunido há 13 anos pelo menos 50 produtores locais, com mais de 250 variedades de quitutes artesanais.

Conforme o secretário-adjunto de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer, Rogério Vianna, a criação do evento surgiu como uma forma de honrar essa vocação histórica e os profissionais do município. “Havia um entendimento de que Tatuí já possuía uma identidade consolidada na produção de doces caseiros, mas faltava um espaço estruturado para apresentar isso ao público de forma organizada”.

Após mais de uma década de existência, a Feira ocupa, hoje, um posto importante no calendário municipal, como um importante vetor de turismo e de geração de renda – movimentando cerca de R$ 3,5 milhões na edição de 2025, segundo dados da Prefeitura. Além do aspecto econômico, a Feira valoriza a cultura e a gastronomia local. “Ela movimenta a economia, fortalece os pequenos produtores e projeta Tatuí para toda a região, até em nível estadual. Para o futuro, a expectativa é de crescimento contínuo como referência em todo o Estado, tanto na estrutura quanto na qualificação dos participantes e fortalecimento da identidade cultural”, explica Vianna.


Amostra de doces vendidos durante a 11ª edição do evento (Reprodução/Prefeitura de Tatuí)

A itapetiningana Vitória Mendes, de 23 anos, frequentou a Feira nos dois últimos anos e alega o desejo de voltar em futuras edições. “Eu adoro doces e achei muito interessante uma feira totalmente dedicada a isso, com tantas opções diferentes. Além disso, eu já tinha ouvido falar muito bem do evento várias vezes, então tinha bastante curiosidade de conhecer, principalmente para experimentar os doces das confeitarias mais tradicionais da cidade, como a Pingo Doce”.

Ela expõe ainda que em Itapetininga, localizada a 45 minutos de ônibus, não é comum encontrar docerias tradicionais, com opções de sabores típicos como abóbora, coco e rapadura. “Aqui, vejo uma tendência maior aos doces gourmetizados, com ingredientes industrializados como Nutella e esses sabores ‘virais’ que, sinceramente, já estão muito enjoativos. Por isso aproveitei para consumir principalmente os doces caseiros, que são infinitamente mais gostosos.”

Embora tenha considerado os preços um pouco altos, Vitória conta que o que a incomodou foram as filas e a falta de lugares para sentar ao longo do dia. “Estava bem cheio, o que mostra que a Feira tem crescido bastante, e por isso acredito que a Prefeitura poderia acompanhar esse crescimento, talvez ampliando o espaço ou oferecendo mais estrutura para o público”.

Um dos responsáveis por manter a tradição dos doces ABC vivos na cidade é Rafael Rosa, neto de João de Almeida Rosa e Benvinda Prestes de Almeida, os fundadores da doceria Estrela Dalva, ativa desde 1970. Ele relata que naquela época havia uma mulher na cidade que fazia doces, porém não havia um comércio para isso. “Então surgimos nós, mais o Pingo Doce, com o doce de abóbora, batata-branca, batata-roxa e cidra, e aí Tatuí começou a ficar famosa como a terra dos doces caseiros.”

O tradicional doce ABC, vendido pela Estrela Dalva | Reprodução/Prefeitura de Tatuí

Rosa destaca que as sobremesas mais antigas ainda possuem um grande público, e o título que o município recebeu de “Estância Turística do Estado de São Paulo” tem acentuado a vocação da cidade como roteiro turístico que abrange e valoriza essas receitas antigas.

Para Rosa, o que mais chama a atenção é como esses quitutes passaram a ser mais apreciados durante a pandemia do Covid-19, havendo um aumento nas vendas, que eram realizadas por delivery. “Eu acho que as pessoas, devido a toda aquela situação, começaram a valorizar mais a vida, passear, comer ou beber, então, acabou que a doceria se fortaleceu. Acho que, no geral, o setor de alimentos e de turismo foi bem impulsionado por conta da Covid”, reflete, se referindo ao movimento pós-pandemia.

Agora, a equipe da Estrela Dalva se prepara para participar da 12ª edição da Feira do Doce, apontada pelo dono como o principal motivo do título que a cidade recebeu de Estância Turística. “No ano passado gerou em torno de 300 mil pessoas em cinco dias. Então, em 2025, ela foi considerada o maior evento do Brasil”, conta Rosa.

O evento tem crescido tanto que outras cidades como Cerquilho, Tietê e Sorocaba tem promovido a sua própria versão, e Rosa revela que os prefeitos desses locais têm procurado pela Associação Produtores de Doces de Tatuí (Aprodoce) e tentado firmar acordos para que os doceiros tradicionais de Tatuí participem das festas na região.

Festa fez surgir novas docerias na cidade

Já a doceira Lucilene Sperandio conta que iniciou sua carreira por meio dos dois filhos, que desejavam levantar um dinheiro no culto da igreja que frequentavam. Com o tempo, ela começou a gostar tanto que, de um hobby, se tornou a sua profissão. “A marca Chocolucia nasceu a partir da nossa primeira participação na Feira, na quarta edição, pela necessidade de dar um nome e profissionalizar a empresa”, explica.

Hoje, Lucilene enxerga a sua produção como uma forma de arte. “Decorar e criar é uma arte. As pessoas comem primeiro com os olhos, é vendo na vitrine um doce bonito, admirando, que elas querem”, afirma. Em suas participações na mostra, ela sempre busca maneiras criativas de inovar e lança anualmente um doce. “Um dos nossos mais famosos é o brigadeiro de bacon, que foi um estrondo na Feira do Doce. E temos agora o de pipoca, batata frita e o de pão de queijo, lançado na edição passada”.

Ela destaca que para ela a festa só tem ponto positivo e que, atualmente, o evento realizado todo mês de julho durante cinco dias, é a data mais lucrativa para a marca; ultrapassando até mesmo a Páscoa que, há décadas, é considerada a melhor época para vendas de chocolates e outros alimentos do setor no Brasil. “O forte é o doce do dia, então a maior parte da produção é na semana do evento, mas são pelo menos 15 dias de planejamento”.


Fernanda Sperandio, filha de Lucilene, atuando na 11ª Feira do Doce | Reprodução/Chocolucia

O secretário-adjunto, Rogério Vianna, acrescenta que a exposição apresenta um papel fundamental de equilíbrio entre essa tradição, a base que deu força para o crescimento econômico e turístico da cidade, e inovação, que os doceiros mais novos representam com força. “Ela abre espaço para as novas tendências, que atraem o público mais jovem, mas mantém como essência a valorização dos doces caseiros, feitos de forma artesanal. Os tradicionais ABC continuam sendo grandes símbolos desse legado. Ao mesmo tempo, vemos os doceiros inovando sem perder a raiz, o que fortalece ainda mais essa tradição”.

Título estadual

Em dezembro de 2025, o município interiorano foi elevado à categoria de Estância Turística do Estado de São Paulo pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).  Com a aprovação, Tatuí passou a integrar o grupo de 78 cidades consideradas como “Estâncias do Estado” – um título concedido aos municípios que apresentam alto potencial turístico, seja com atrações naturais, culturais, históricas ou religiosas.

A cidade conquistou o título após participar de um ranqueamento técnico, onde alcançou o 5º lugar no processo estadual, que avalia todos os 214 Municípios de Interesse Turístico (MITs) classificados. Na época, conforme o site da Prefeitura, “O resultado tatuiano é ainda mais significativo, pois as quatro cidades colocadas à frente de Tatuí já eram Estâncias Turísticas anteriormente, e Tatuí foi a 1ª colocada entre os MITs que subiram para Estância Turística”.

De acordo com os critérios estabelecidos pela legislação paulista, para que um MIT seja elevado à categoria de Estância Turística é necessário cumprir uma série de requisitos que avaliam não apenas os atrativos turísticos, mas também a qualidade da gestão pública e a capacidade do município de oferecer infraestrutura adequada aos visitantes.

Para Vianna, um evento do porte da Feira do Doce possuiu um papel estratégico nessa conquista, pois foi ela que demonstrou a capacidade de Tatuí em organizar grandes ações, atrair um elevado número de público e ainda promover a sua própria identidade cultural e regional diante de outros 214 potenciais turísticos que estavam sendo avaliados. “A Feira evidencia uma vocação turística consolidada, baseada na cultura, na gastronomia e na experiência do visitante. Esse conjunto de fatores contribui diretamente para o reconhecimento de Tatuí como Estância Turística, fortalecendo sua posição no cenário estadual e ampliando suas oportunidades de atuação”, reitera.

Segundo o secretário, agora, com este passo, um dos principais objetivos da administração local é preservar o saber e a produção tatuiana. Há um compromisso em manter essa característica, incentivando inclusive a participação de novas gerações para que essa herança não se perca. “A continuidade da Feira está diretamente ligada à valorização dessas pessoas, que são as verdadeiras guardiãs dessa cultura”.

[Texto produzido na disciplina Jornalismo Regional, ministrada pela professora Mônica Ribeiro]

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