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A Machosfera: Para além da Matrix

“Se escolher a pílula azul, a história acaba, você acordará na sua cama acreditando no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha, ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho.”  (Morfeu, em Matrix – 1999).

Por Antony Moscatelli (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Reprodução do filme

Continuar tomando a pílula azul e permanecer na ignorância sobre como a sociedade funciona ou tomar a pílula vermelha e finalmente entender as regras do jogo? É neste conceito que se baseia o Movimento Redpill, em que os redpilados (aqueles que escolheram tomar a pílula vermelha) teriam compreendido que a sociedade seria estruturada de forma a oprimir os homens e privilegiar as mulheres.

Apesar do conceito estar sendo amplamente difundido nos últimos anos, ele não é novo. Segundo o sociólogo Michael Kimmel, especialista em estudos de gênero, alguns homens sentem como se alguns espaços fossem seus por direito, fazendo com que a inclusão de outros grupos antes marginalizados nesses espaços lhes pareça uma perda de direitos.

Historicamente, podemos observar os movimentos feministas que ocorreram em maio de 1968, na França, que reivindicavam direitos como o de poder trabalhar sem precisar da permissão do marido e a igualdade no mercado. Como resposta a isso, no início dos anos 70, surgiu o Movimento pelos Direitos dos Homens (MDH). Warren Farrell, uma das principais referências do movimento nos Estados Unidos, defendia que os homens eram tão oprimidos quanto as mulheres e, em seu livro The Myth of Male Power (1993), trouxe a tese de que os homens seriam tratados como “sexo descartável” por, segundo ele, nunca ter havido preocupação com a vida e bem-estar dos homens ao serem enviados para guerras.

Entretanto, essa posição “de guerrilha” onde o homem é obrigado a estar, citado por Farrell, foi pensada e estruturada para corresponder aos interesses de cima. Enquanto as mulheres eram vistas como incapazes, foi moldada a propaganda do homem que melhor se encaixaria ao contexto social e econômico para a época.

“A partir da Primeira Grande Guerra, começaram algumas características do imaginário coletivo sobre a masculinidade. Essas fantasias giram em torno do homem forte, que não reclama, que não demonstra dor, nem cansaço. Aquele homem que realiza qualquer coisa, que tem muito apetite para o trabalho, para cuidar da família e que tem um amor imenso por Deus e pela Pátria. E essas ideias foram muito importantes para convencer os jovens a largarem as suas vidas e aceitarem fazer parte de um exército.”, conta o psicólogo Bruno Farias, pesquisador de ciúmes e masculinidades.

A partir disso, conforme a luta das mulheres por direitos foi avançando, a frustração e sensação de perda de direitos masculina, também. Em 2016, no palco do TED, Kimmel descreveu uma situação em que ilustra esse sentimento:

“Eu estava num programa de TV com mais quatro homens brancos. […] E estou dizendo isto porque quero que ouçam o título deste programa. Foi a fala de um dos homens que dizia: “Uma mulher negra roubou meu emprego”. E todos contaram suas histórias, qualificados para o trabalho, e para promoções, não conseguiram, estavam bravos. E era a minha vez de falar, e eu disse: “Eu só tenho uma pergunta pra vocês, e é sobre o título do programa, […]. Quero saber da palavra ‘meu’. De onde você tirou a ideia que o emprego era seu? Por que o programa não se chama ‘Uma mulher negra conseguiu um emprego?’ […].”

Nos anos 80, nutridos por essa frustração derivada da autonomia que as mulheres vinham conquistando, surgem os primeiros Pickup Artists (Artistas da Sedução, “PUAs”), homens que definem sua masculinidade e valor social em torno de seu sucesso sexual, e acreditavam ser vítimas de um sistema feminista opressor, mas que teriam descoberto métodos de conquista que mudariam esse “jogo”.

Ross Jeffries é conhecido na comunidade PUA como o pioneiro das técnicas de sedução. Ele teria desenvolvido habilidades usando uma combinação de hipnose e programação neurolinguística, estabelecendo o padrão de sucesso com mulheres utilizando essas abordagens. 

“Durante séculos, a mulher que não conseguia se casar tinha a certeza de que teria uma vida insatisfatória. Existia um medo de não se casar, de ser abandonada, porque isso poderia significar o fim da vida social de uma pessoa. Ela seria considerada indigna de se conviver em sociedade. […] Então, as mulheres lutam e demonstram que agora a coisa é diferente, que elas não dependem mais do homem para nada, sendo assim, o homem recebeu um grande golpe no ego”, explica Bruno.

No decorrer dos anos, os “ensinamentos” dos PUAs foram sendo repassados de forma nichada, por livros de menor alcance e fóruns da “machosfera”, nos primórdios da internet, até o ano de 2005, quando o livro “The Game – Penetrating the Secret Society of Pickup Artists” (O Jogo: A Bíblia da Sedução) foi publicado pelo jornalista Neil Strauss. O livro narra a jornada de Strauss, infiltrado na comunidade PUA, até ser considerado o melhor artista da sedução sob o pseudônimo de “Style”. O livro permaneceu na lista de best-sellers do New York Times por dois meses no ano de seu lançamento e deu origem a série televisiva “The Pickup Artist”.

Strauss deixa claro no livro que as técnicas violam princípios necessários para manter a sinceridade, confiança e a conexão, coisas que ele descreve como sendo importantes para as mulheres, como a “negging”, o ato de insultar para tornar a mulher mais vulnerável. Ele se refere às mulheres como “alvos” e, em uma passagem, descreve uma mulher como “todos os buracos: ouvidos para me escutar, uma boca para falar comigo e uma vagina para me fazer ter orgasmos”.

Desde o livro até vídeos que circulam na internet, de “aulas” sobre sedução, os homens são ensinados a ignorar sinais de desinteresse e desconforto. Gustavo Gambit, auto-descrito em seu canal do YouTube como “especialista em inteligência social”, viralizou após uma de suas aulas virar um react no canal Maicon Kuster, em 2020. Apesar de teor cômico do react, os comentários feitos por Maicon, Kotaka, Luba e Orochi sobre o claro desconforto da moça abordada e falta de noção do PUA, como em momentos onde ele força aproximação física e reclama dela mexer no celular, foram compactuados por relatos nos comentários.

Comentários do vídeo de Maicon Kuster, Luba e Orochi reagindo ao vídeo de PUA

Posteriormente, Maicon trouxe Gambit para falar sobre o vídeo e a prática, onde ele explicou que estaria vivendo um personagem muito tímido, sem habilidades sociais, para uma aula intitulada “Vencendo a Rejeição”, em que, mesmo nesse contexto, seguindo as dicas, o flerte iria dar certo.

Comentários no vídeo de Maicon Kuster com Gambit

No início de 2010, devido a 4° onda do feminismo, uma parcela dos PUAs se radicaliza um pouco mais, só então absorvendo a metáfora das pílulas do Matrix, citada no início. 

Ana Carolina Weselovski da Silva, em sua dissertação de mestrado em Psicologia Social, divide a evolução da machosfera (ou manosfera, do inglês “manosphere”) em três partes:

“Um primeiro momento de 2006 a 2011 onde os MRAs e os PUAs eram os grupos predominantes e os Incels estavam em seu início; segundo momento de 2012 a 2016 em que houve um crescimento do grupo MGTOW (Men Going Their Own Way) e um declínio dos PUAs; e um terceiro período de 2016 a 2018 quando os grupos Incels e MGTOW passaram a predominar dentro da manosfera” (Weselovski, 2022)

Todas essas comunidades citadas por ela seriam, então, de homens que tomaram a pílula vermelha e passaram a habitar a machosfera. Mas, para além de uma comunidade on-line simples, a machosfera possui uma órbita própria, onde a organização social é diferente, e as nomenclaturas mudam conforme a comunidade, como os termos “sigma”, que é definido pela comunidade como “o homem que não precisa de validação social e foca apenas no próprio sucesso, marcado por isolamento e desprezo pelas mulheres”, que é uma definição muito parecida com a do “MGTOW”, que são homens que, partindo da consciência de que as mulheres são seres biologicamente programados para se atrair por homens com “alto valor sexual de mercado”, portanto, estarão sempre procurando alguém com valor maior, e que o mundo seria um lugar misândrico aos homens, escolhem se isolar e manter distância.

Comentário anônimo em um blog MGTOW | Captura de tela

Além desses, outros termos usados com frequência são “Chad”, para homens que teriam nascido geneticamente perfeitos e, por isso, seriam os únicos pelos quais as mulheres realmente se atrairiam, independente do caráter; “Alfa”, para a idealização do homem no topo dessa hierarquia social masculinista, sendo um status que pode ser alcançado por esforço; “Beta” para descrever homens vistos como submissos ou cooperativos com as mulheres, ou que não fazem parte do movimento redpill, assim como os “Bluepills”. Há também os termos “Femoid” e “FHO” (Female Humanoid Organism), para se referir às mulheres

Parte de uma postagem do Reddit “Brasil Livre”

Além das nomenclaturas, há também as teorias que circulam a machosfera e que embasam a crença de que a sociedade seria ginocentrada, ou seja, privilegiaria as mulheres e oprimiria os homens.

Para Imran Khan, autor do texto “A Bolha Misândrica”, de 2019, aponta os quatro principais motivos pelos quais a sociedade estaria cada vez mais privilegiando as mulheres como sendo:

1º. Contracepção fácil que tornou possível para as mulheres terem vários parceiros e “seguir seus impulsos de hipergamia”

2º. Facilidade em se divorciar podendo elas deixar um casamento sem ter que declarar nenhum motivo, diferentemente de anos atrás quando teria de provar má conduta do marido para conseguir um divórcio

3º. Liberdade econômica feminina, pois agora as mulheres não precisam mais do casamento para obter apoio financeiro.

4º. Engenharia social centrada nas mulheres, ou seja, leis que as protegem. 

Perfil MGTOW reivindicando a lei dos homens, sobre o Caso Dj Ivis, condenado a oito anos de prisão por agredir a ex-mulher, o perfil foi desativado

No texto, ele defende que as mulheres nunca foram oprimidas da forma como as feministas pregam e, para justificar, utiliza o mesmo argumento de Warren Farrell sobre as guerras e a “descartabilidade” do homem.

A hipergamia citada por ele é outra teoria que embasa o desprezo pelas mulheres dentro do movimento. Weselovski aponta que a “hipergamia é um termo usado inicialmente pela antropologia, para descrever a característica de algumas sociedades nas quais mulheres não se casavam com alguém cuja posição social fosse inferior, muito por conta de serem usadas como “moeda de troca” e para consolidar alianças”, mas, dentro do discurso da machosfera, as mulheres teriam um “instinto hipérgamo”, seriam biologicamente programadas a procurarem por alguém com uma condição social superior.

“A rejeição e a frustração dói para todo mundo, todo mundo vai passar por uma rejeição, seja você o Brad Pitt, seja você quem for. Só que nessa sociedade extremamente individualizada, eu não posso aceitar que eu não fui desejado o suficiente, então o que eu vou fazer? Vou buscar alguma explicação da biologia, até mesmo da etologia, a observação dos animais, vou distorcê-los para inventar uma teoria dizendo que a mulher é um parasita, e esse parasita vampiriza principalmente homens provedores. Biologicamente, isso é uma mentira, mas essas teorias malucas confortam aqueles rapazes que não sabem lidar com a frustração”, explica Bruno Farias.

A partir disso, chegamos ao conceito de “Valor Sexual de Mercado”. A ideologia Redpill atribui valor a homens e mulheres. Mas, como as mulheres seriam naturalmente interesseiras devido a hipergamia, só se relacionariam com “Alphas” e “Chads”.

Thiago Schultz, redpill popularmente conhecido como o “Calvo do Campari”, durante o episódio do dia 19/06/2024 do PODMOOD Podcast, afirmou que “o que aumenta esse valor sexual de mercado do homem e da mulher são duas coisas totalmente diferentes”, definindo em uma palavra para cada um, para os homens, o dinheiro, e para as mulheres, a beleza física/corpo, com o apogeu dos 20 aos 30 anos.

Para os homens com “baixo valor sexual de mercado”, os caminhos a serem percorridos seriam correr atrás de se tornar um alpha, continuar sendo um beta e ignorar esses conceitos apresentados, ou tomar a “blackpill”.

Enquanto a redpill prega que o homem pode vir a se tornar um alpha, a partir de esforço, a blackpill traz um olhar niilista e fatalista sobre o assunto, determinando o destino por questões eugenistas como estrutura óssea, altura e genética, portanto não há esforço que impediria o fracasso social e amoroso dos indivíduos.

Muitos casos de massacres estão ligados a comunidade incel e blackpill, como o Massacre de Isla Vista, na California, em 23 de maio de 2014, em que Eliot Rodger assassinou seis pessoas e ceifou a própria vida, e foi “santificado” pela comunidade incel, passando a ser chamado de “Saint Eliot”.

Incels comemorando o aniversário de morte de Eliot Rodger em um fórum de Incels | Captura de tela

No Reino Unido, em Plymouth, Jake Davison, de 22 anos, matou cinco pessoas antes de também tirar a própria vida em 12 de agosto de 2021. Em vídeos que fazia para a internet, ele fazia referências a ser incel e se comparava a homens “Chads”, falando sobre “ter uma overdose de blackpill”.

Comentários do Facebook na notícia sobre Jake Davinson | Captura de tela

No Brasil, o mais comentado é o Massacre de Realengo, em 7 de abril de 2011, no Rio de Janeiro, em que Wellington Menezes, frequentador de fóruns de misoginia on-line, matou 10 meninas e dois meninos em uma escola, tirando a própria vida em seguida.

Segundo o Ministério da Educação, o Brasil registrou 36 ataques a escolas entre 2002 e 2023, e, muitas vezes, há algum vínculo dos agressores a grupos online de misoginia.

O acesso fácil a esses grupos e fóruns precisa ser um ponto de atenção quando pensamos que as pessoas mais expostas ao mundo on-line são os jovens.

Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, o TikTok é a plataforma mais popular entre os jovens e adolescentes. Vídeos rápidos, cortes com discursos bem calculados e disfarçados de piadas politicamente incorretas e humor ácido, são a aposta principal do algoritmo.

Um estudo da Universidade de Dublin, de 2024, mostrou que demora menos de 30 minutos para o primeiro conteúdo misógino ser apresentado para contas novas em plataformas de vídeos curtos (especificamente TikTok e YouTube Shorts).

O Núcleo, em parceria com a Revista AzMina, monitorou durante dois meses dois perfis fictícios criados na plataforma, um de um menino nascido em 2009 e outro de um menino nascido em 2010. À medida que as interações com postagens, sobretudo, motivacionais e religiosas passavam, surgiram conteúdos de extrema-direita, desinformação política e discursos que reforçam estereótipos de gênero.

Segundo a SaferNet, a organização que atua em defesa dos direitos humanos na internet, o TikTok está entre os 10 domínios online mais denunciados por violência e discriminação contra mulheres no mundo, desde 2020. O TIC Kids Online Brasil 2024 aponta que 93% da população entre 9 e 17 anos, no Brasil, tem acesso a internet, e 50% usam o TikTok todos os dias.

O psicólogo Bruno Farias alerta que os jovens que crescem tendo acesso a esse tipo de conteúdo, denominado por ele como “filosofia distorcida”, vão desde cedo reforçando essa crença que pode ser muito difícil, senão impossível de reverter.

“Cristiano Nabucco, um dos maiores especialistas em mundo digital do mundo, é categórico em dizer que nós precisamos voltar para o analógico. Rede social não é lugar para criança e não deveria ser lugar para jovem”, ele reforça ainda os perigos não somente para os rapazes, mas para as meninas que sofrem uma pressão estética muito grande, podendo vir a desenvolver distorção de imagem e até distúrbios alimentares.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Público de Pesquisa de Opinião do Setor (Ipsos) e pelo King’s College de Londres, envolvendo 23 mil pessoas e 29 países (incluindo o Brasil), apontou que 31% dos homens da Geração Z (nascidos entre 1996 e 2012), acreditam que “a esposa deve sempre obedecer seu marido”. 24% dos homens da Geração Z concordam que uma mulher não deve parecer muito independente ou autossuficiente, em comparação com 12% dos homens da Geração Baby Boomer (nascidos entre 1945 e 1965).

Segundo a IPSOS, é a primeira vez que os jovens estão mais propensos a concordarem com visões mais conservadoras sobre os papéis de gênero, do que as gerações mais velhas.

A professora Heejung Chung, que dirige o Instituto Global para a Liderança das Mulheres do King’s College de Londres afirmou para a BBC que isso ocorre porque os influenciadores e políticos “exploram as reclamações das pessoas” e “tentam recapturar parte do sentimento de serem enfraquecidos pela geração mais jovem”.

As mulheres mais jovens que acreditam que as esposas devem obedecer aos maridos foi de 18%, menor do que a porcentagem de homens da mesma geração, porém maior do que a porcentagem da geração mais velha (12% dos homens e 6% das mulheres).

“Da mesma forma que os homens jovens são ensinados que o caminho para a felicidade é o dinheiro, carros, garotas e força física, existem mulheres sendo ensinadas que o caminho para a felicidade é a ideia tradicional de feminilidade”, explica Penny, executiva-chefe da Sociedade Fawcett, organização de defesa dos direitos das mulheres com sede no Reino Unido. “Parece simplesmente que tudo está indo na direção errada”, lamenta ela.

Em 2016, as irmãs Wachowski, diretoras e roteiristas do filme Matrix, vieram a público enquanto mulheres transgênero e explicaram o filme como uma alegoria para a transição de gênero. Elas condenam a comunidade Redpill publicamente.

Lilly Wachowski responde o ex-ministro da educação brasileiro, Abraham Weintraub, filha de Donald Trump, Ivanka Trump, e o Elon Musk

  1. Estudo realizado pela IPSOS e pela King’s College:

https://www-ipsos-com.translate.goog/en-uk/almost-third-gen-z-men-globally-agree-wife-should-obey-her-husband?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc

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