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O olhar que salva: resenha de A vida que ninguém vê, de Eliane Brum

Por Vitória Rodrigues (Agência Focas – Jornalismo Uniso)


Antes de contar sobre uma de suas obras de mais sucesso, precisamos contar sobre quem a produziu. Eliane Brum, atualmente com 60 anos de idade, é jornalista, escritora e documentarista brasileira. Eliane amava literatura e escrevia poesias quando pequena. Porém, ainda na faculdade, não se identificava na profissão. “Gosto de olhar, não gosto de falar. Gosto de ser invisível”. Seu pai assinava o tradicional jornal gaúcho Correio do Povo, mas ela achava chato e preferia os livros.

Sua paixão pelo jornalismo nasceu apenas no último semestre da faculdade, quando teve a oportunidade de conhecer o professor Marques Leonam, onde lhe ensinou além de técnicas de redação. Logo em 1988, ingressou na Zero Hora, como prêmio de um concurso universitário que sua amiga a inscreveu. O seu jeito de escrever as reportagens que iam para a coluna do jornal, deram vida e fôlego para este livro.

“A vida que ninguém vê”, de Eliane Brum, é composta por 21 crônicas, sendo esses os textos originalmente publicados no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, ao longo do ano de 1999. Como o próprio nome diz, as inúmeras histórias do livro retratam a vida de pessoas que passam despercebidas no dia a dia, contando casos reais de seres humanos reais, e como histórias tão complexas e cheias de vida, dificuldades e superações estão tão próximas e, geralmente, não temos o olhar sensível para percebê-las.

Eliane traz uma escrita envolvente, leve e encantadora. É prazeroso identificar detalhes tão precisos que ela pôde apurar com tanta sensibilidade, cuidado e respeito pela fonte. Cada crônica traz uma narrativa completamente diferente e, conforme a leitura progride, é surpreendente como a seguinte é sempre mais envolvente do que a anterior, deixando com o desejo de “quero mais”. Em algumas entrevistas, ela utiliza travessões para indicar as falas, o que torna o texto mais dinâmico e fluido.

Pessoalmente, a obra mudou a minha perspectiva sobre o jornalismo. Compreendi que muitas vezes as coisas mais valiosas estão em histórias que não necessariamente precisam de uma pessoa ou um acontecimento grandioso, mas são especiais apenas por serem quem são, na sua simplicidade e singularidade. Ao final do livro, já em uma perspectiva da autora, ela nos convida a refletir que o que chama mais atenção nas histórias dos heróis não são os poderes grandiosos que eles podem ter, mas sim o quão humanos são. E essa é a visão da obra. Pessoas, histórias e objetos que muitas vezes são rejeitados, mal-vistos ou desprezados pela sociedade, carregam um poderoso ensinamento de superação, busca pela dignidade, sensibilidade e, na minha visão, principalmente, resiliência.

Todas as histórias são especiais, mas algumas me chamaram mais a atenção. “O cativeiro” traz a reflexão de que as pessoas vão ao zoológico para ter a sensação de que são livres, mas que na verdade tentam esconder que também são cativas de suas próprias rotinas.

“O sapo” por trazer a visão de alguém que vive “embaixo da sociedade” devido à paralisia nas pernas que o impede de andar, a entrevista é envolvente e as respostas do personagem trazem grandes reflexões.

“Dona Maria tem olhos brilhantes” conta a história de uma mulher que deixou seus filhos, sua terra e o amor da sua vida, para ir aprender a ler, ela ia em busca de seu sonho, o que a deixava com os olhos iluminados.

Mas a minha favorita é “Eva contra as almas deformadas”. Mesmo tendo sofrido uma paralisia cerebral no nascimento que faz suas mãos tremerem e a impede de realizar atividades básicas, o sonho dela era estudar e se tornar educadora, e o principal, ela não aceitava ser coitada! Ao final desta crônica, a reflexão que mais me impactou: ‘A vida é pródiga em paradoxos. O de Eva é que a odeiam porque não podem sentir pena dela. E o do mundo é que as piores deformações são as invisíveis’.

Portanto, o livro é um convite para olhar com mais atenção e humanidade para quem vive ao nosso lado. Uma leitura essencial para quem ama jornalismo, e para quem ainda não aprendeu a ver a vida que ninguém vê. 

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