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Mais que Monstros: Como o Cinema de Terror sempre falou sobre nós

Entre sustos e metáforas sociais, o gênero se reinventa e transforma nossos medos em histórias que revelam mais sobre nós mesmos do que sobre monstros na tela.

Por: Italo Gabriel (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

De repente, a trilha sonora para, a câmera foca apenas no personagem. Ao fundo, é possível ouvir uma porta rangendo. A ansiedade já começa a subir. Agora, nada mais faz barulho, apenas a respiração ofegante do personagem. Então, o susto vem, junto de uma vergonha por ter gritado ao ver um filme, mas essa sensação já vira um alívio momentâneo. Filmes de terror. O que antes era considerado filmes de nicho, hoje faz parte da cultura pop, mas a pergunta continua. Por que as pessoas pagam para sentir medo? Esse fenômeno é o que faz esse gênero continuar tão forte mesmo um século depois da sua estreia. A resposta para esse paradoxo não está apenas nos sustos em si, mas na capacidade de adaptação, que o fez sair de tramas, à primeira vista, rasas, para o tapete de premiações como o Oscar. Em vez de focar mais em monstros assustadores, eles passaram a focar mais em nós mesmos, começando assim uma nova era de ouro do terror.

Um Século de Medos

As Sombras da Alemanha: Caligari e Nosferatu, os monstros expressionistas

O expressionismo foi um movimento artístico surgido na Europa no início do século XX. No meio de uma época conturbada no pré-primeira guerra, os artistas sabiam que o mundo estava caótico e queriam que suas obras refletissem esse caos interior. Eles não estavam mais preocupados com a anatomia ou coisas do tipo, a parte mais importante era passar o sentimento. E numa terra arrasada como a Alemanha, principalmente no período pós-guerra e pós Tratado de Versalhes, os nervos estavam à flor da pele. É nesse cenário que nasce o primeiro grande filme de terror, O Gabinete do Dr. Caligari (1920). Na história, um vilarejo é abalado pela chegada do misterioso Dr. Cagliari e do seu show bizarro com Cesare, um sonâmbulo que está adormecido há 23 anos, porém de alguma forma é controlado por Caligari, sendo assim, seu servo. Quando uma série de assassinatos acomete o vilarejo, Francis (o protagonista) passa a desconfiar que Cesare, controlado pelo Dr. Caligari, possa estar por trás das mortes. O filme carrega um forte subtexto político da época, sendo escrito por Hans Janowitz e Carl Meyer, ele reflete o clima de desesperança e pessimismo que acometia o território alemão após a Primeira Guerra, lançando um olhar de desconfiança para figuras de autoridade, sendo o Dr. Caligari, chefe de uma instituição mental, que controla sonâmbulos incapazes de pensarem por si mesmos para atingir seus próprios fins, costurando um paralelo entre Caligari e as autoridades alemãs que levaram o país à Guerra.

Cena de O Gabinete do Dr. Caligari (1920) | domínio público, Wikimedia Commons. Os cenários tortos e a fotografia sombria não mostravam o mundo como ele era, mas como a mente perturbada dos personagens o via

Se Caligari explorava o terror psicológico da tirania, outro clássico do movimento, Nosferatu (1922), daria forma a um medo mais palpável: o da praga. No filme de Friedrich Wilhelm. Murnau, o vampiro Orlok não é bonito, mas uma criatura disforme que traz a doença e a morte de uma terra estrangeira para uma cidade alemã. Para um público que havia acabado de sobreviver à Primeira Guerra e à pandemia da Gripe Espanhola, a imagem de uma praga incontrolável era um reflexo direto de um trauma recente. Além disso, muitos críticos analisam o filme como uma poderosa alegoria da xenofobia, onde o monstro vindo do “Leste” representa o “outro”, o estrangeiro, visto como uma ameaça contagiosa para a nação.

Os Monstros da Grande Depressão: Os Perseguidos da Década de 30

O que foi semeado em solo alemão cruzou o Atlântico e floresceu em Hollywood. Em 1930, o estúdio Universal Pictures pegou essa fórmula expressionista e a adaptou para um novo contexto social, a Grande Depressão, uma crise econômica e empregatícia que acometeu os Estados Unidos durante a década de 30. Assim, Drácula (1931) e Frankenstein (1931) foram criados. Enquanto Drácula representava um medo do que vinha de fora, do estrangeiro, um aristocrata que veio para corromper e se alimentar da sociedade americana. Já o Frankenstein, além do filme trabalhar uma ideia no qual o cientista “brincava de Deus” ao tentar criar a vida a partir da morte assim criando um desastre, um monstro; esse conceito pode ser entendido como um alerta ao sonho americano: a noção de que o progresso e ambição, quando acima da ética, pode criar monstruosidades. Os dois eram caçados por uma sociedade desesperada que buscava constantemente um bode expiatório para as suas crises, aparentemente sem soluções. Ver um monstro ser derrotado para eles, era uma espécie de catarse, e assim controlar seus próprios medos.

A Bomba e os Invasores: O Terror da Guerra Fria nos Anos 1950

Com as tensões da Guerra Fria o medo se adaptou novamente O monstro continuou sendo fruto de uma paranóia, um pavor nuclear e uma histeria ideológica. De um lado, o trauma de Hiroshima e Nagasaki ganhou vida, Godzilla (1954), a personificação do horror da bomba atômica. Do outro, nos Estados Unidos, o medo do comunismo ganhou vida com Invasores do Corpo (1956), filme no qual alienígenas substituíam humanos por cópias perfeitas, porém sem sentimentos ou individualidade. A obra é uma alegoria da paranoia comunista e dos medos de infiltrados que se pareciam com americanos comuns.

Lobby card promocional de Invasores do Corpo (1956). Allied Artists Pictures Corporation | domínio público, via Wikimedia Commons

O Colapso da Confiança: O Pesadelo Americano dos Anos 1960 e 1970

A desilusão dos anos 60 e 70, marcada pela Guerra do Vietnã, pelos conflitos raciais e pela crise de confiança nas instituições (como no caso Watergate), trouxe não criaturas grotescas ou irreais, mas sim monstros parecidos conosco. O marco zero dessa nova fase foi A Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George Romero. O filme não era apenas sobre devoradores de cérebro, mas uma crítica à sociedade da época. Os zumbis podiam ser vistos como metáfora da massa consumista, e ainda como se não bastasse, no final do filme o protagonista, Ben, um homem negro, após ser o único sobrevivente de uma noite de puro horror, é morto por um grupo de homens brancos que o confundiram com um zumbi. A relevância disso? Alguns meses antes do lançamento, em abril de 1968, Martin Luther King Jr. foi assassinado. Por mais que esse debate não tenha sido colocado no filme de propósito, mas o cenário já estava montado. Anos depois, em 1974, O Massacre da Serra Elétrica, foi usada uma família de canibais para representar o colapso do sonho americano e a violência sem sentido que acometia o país.

Cena do filme Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George Romero | Imagem em domínio público via Wikimedia Commons. Os monstros passaram a ser vizinhos, familiares, tornando a ameaça mais íntima. Além de simbolizar uma sociedade que havia perdido o rumo

A Reação Conservadora: A Punição Moral e a Paranoia Corporal

Depois de uma década de “libertinagem” por conta da contracultura, o conservadorismo entrou em ascensão nos anos 80, por conta de figuras como Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que pregavam os “valores tradicionais”. No meio dessa confusão moral, o cinema do terror deu a ela uma máscara, e então o auge dos slashers começou. Figuras como Jason Voorhees (Sexta-Feira 13, 1980), Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo, 1984) e Michael Myers (Halloween, 1978) agiam como justiceiros puritanos, que puniam jovens que não fizessem jus à família tradicional: sexo antes do casamento, uso de drogas e desobediência aos responsáveis. A “Final Girl”, a única sobrevivente, na maioria dos casos, era a garota mais comportada da turma. Em paralelo, o horror corporal de filmes como A Mosca (1986) e O Enigma de Outro Mundo (1982) realçam o delírio que ainda existia por conta da Guerra Fria (o inimigo pode estar dentro de nós) e o pavor de doenças que destroem o corpo por dentro, o que dialogava diretamente com a crise da AIDS, por exemplo.

Com o fim da Guerra Fria, os medos mudaram de um inimigo estrangeiro para um cinismo interno e uma desconfiança na própria imagem. O grande filme que traduziu isso foi Pânico (1996), a crítica não era sobre política, mas sobre a própria mídia. Os assassinos não eram monstros, mas adolescentes que viram muitos filmes de terror. O filme, além de ser uma crítica aos filmes de terror slasher, que nessa altura já estavam saturando, é também uma sátira a um mundo que é incapaz de perceber que a vida não é um filme.

No final da década, A Bruxa de Blair (1999) começou uma nova onda, os filmes found footage, que explorava uma dúvida da internet que nascia e a dificuldade de diferenciar o real do inventado.

 

O Terror Pós-11 de Setembro: A Dor e a Câmera na Mão

Bom, tudo ficou de cabeça pra baixo após o atentado das Torres Gêmeas em 2001. A década de 2000 foi marcada pela “Guerra ao Terror”, por uma paranoia com a segurança e por prisões como Abu Ghraib, uma prisão que, durante a Guerra ao Iraque, era usada por membros do Exército Americano e da CIA para torturar abusar física e psicologicamente de prisioneiros. O cinema pegou todo esse contexto e colocou na tela, aí nascia o torture porn, com Jogos Mortais (2004) e O Albergue (2005). O medo aqui se tornou uma representação física da dor, reflexo direto da violência que dominava os noticiários. Em paralelo, o que começou em 1999 com A Bruxa de Blair ganhou mais força nos anos 2000, filmes como REC (2007) e Atividade Paranormal (2007) continuaram difundindo o gênero found footage.

 

A Nova Era de Ouro: O Monstro Somos Nós

Após a violência gráfica ter sido explorada à exaustão, tirando filmes com tramas sobrenaturais, como a franquia Invocação do Mal e o Invocaverso, que foram sucessos de bilheteria, no geral, o terror da última década se tornou mais intimista. É basicamente um consenso entre crítica e público que existe uma nova era de ouro do terror, impulsionada por um movimento chamado pós-terror, onde o medo não depende de algo gráfico ou de um jump scare, mas sim numa atmosfera que te deixa angustiado, o terror aqui passou a ser definitivamente uma metáfora. Em O Babadook (2014), o monstro era a personificação da depressão; em Hereditário (2018), o horror era derivado de uma tragédia familiar junto do luto.

Mas o filme mais famoso e importante dessa nova onda é Corra! (2017), de Jordan Peele. O filme usou o terror para criar a mais potente crítica ao racismo do século. E mesmo não tendo sido o primeiro filme a ganhar um Oscar, ele foi o primeiro a ganhar a categoria de Melhor Roteiro Original sem ser derivado de outras obras (O Silêncio dos Inocentes e O Exorcista foram adaptados de outros livros, por exemplo), e assim iniciando de fato essa nova era do terror que continua até hoje, com filmes como A Hora do Mal (2025), Pecadores (2025), Nós (2019) e Faça Ela Voltar (2025).

Depois de um século de existência, o cinema de terror finalmente conquistou seu lugar ao sol e passou a ser respeitado por público e crítica. Mesmo com filmes que, muitas vezes, eram rasos para a maioria dos espectadores e simples em sua execução, eles sempre tiveram um papel fundamental de espelho para a sociedade de suas respectivas épocas.

A Química do Susto

Para Davi Vilarins, estudante de história, 22 anos, a paixão pelo terror começou de uma forma inusitada: foi convidado pela sua babá. “Sinceramente não sei o porquê, mas quando estava só eu e a babá em casa ela começou a assistir o filme O Grito (2004) e me chamou pra ver junto, e eu fui na onda. Tinha uns 7 anos.” A experiência foi marcante e definiu a sua relação com o gênero. “Fiquei noites sem dormir, achando que a Kayako ia aparecer no meu quarto. Foi horrível, mas de alguma forma eu gostei da sensação.”

Esse paradoxo vivido por Davi, o prazer encontrado no pavor, é a chave para entender por que um gênero que antes era de nicho hoje faz parte da cultura pop e vive uma nova era de ouro. A resposta não está apenas nos sustos, mas na forma como o terror evoluiu para espelhar nossas ansiedades e satisfazer uma complexa necessidade psicológica de confrontar nossos próprios medos.

“Acho que são experiências diferentes: um é pra refletir, o outro é pra se divertir e gritar junto com os amigos.’’

Para entender o porquê disso tudo, a neuropsicóloga e analista do comportamento Franciele da Costa, de 36 anos, convida a um mergulho no cérebro humano. Segundo ela, filmes de terror são eficazes porque ativam áreas cerebrais primitivas, como a amígdala, responsável pelo processamento do medo, gerando uma resposta fisiológica idêntica à de uma ameaça real: o coração acelera e a adrenalina sobe. A diferença crucial está no contexto. “O medo controlado gera um ‘pico de adrenalina’ e, depois, dopamina e endorfina, que trazem uma sensação de prazer e alívio”, explica a especialista.

O processo de um susto, detalha a Dra. Franciele, acontece em duas vias. Na “via rápida”, um estímulo na tela vai direto para a amígdala, que dispara a resposta automática de “luta ou fuga”. É por isso que o susto é tão físico e imediato. Segundos depois, a “via lenta” se completa: o córtex pré-frontal, a parte mais racional do cérebro, analisa a situação e “avisa” o resto do corpo: “Calma, é só um filme”. É nesse contraste entre o pânico e o alívio que o cérebro nos recompensa com a onda de euforia que tantos fãs do gênero procuram.

Dra. Franciele da Costa atua na área há 9 anos | Imagem: Acervo pessoal

Essa sensação de “descarga emocional” é o que muitos conhecem como catarse. A especialista descreve o processo como uma forma de regulação emocional: viver emoções intensas em um ambiente seguro, o que resulta em uma sensação de alívio e “limpeza” da tensão. Essa teoria se materializa na experiência de Davi. “Depois de ver um filme pesado como Hereditário (2018), sinto como se tivesse descarregado algo junto com os personagens. Pra mim funciona quase como terapia”, conta.

A experiência se torna ainda mais potente quando compartilhada. “Assistir com outras pessoas no cinema aumenta a coesão social”, afirma Franciele, explicando que gritos e risadas em grupo liberam hormônios que transformam o medo em uma experiência coletiva e prazerosa. Davi concorda. “Adoro ver com amigos, porque o medo coletivo vira risada, e a experiência fica muito mais divertida.”

Mas em uma sociedade já marcada pela ansiedade, essa busca pelo medo não seria contraditória? A neuropsicóloga aponta que a relação é complexa, mas faz sentido. Para pessoas que vivem em estado de hipervigilância, os filmes de terror podem funcionar como um “treinamento” para essas emoções em um ambiente seguro. Historicamente, picos de ansiedade coletiva coincidem com a popularidade do terror. Para a especialista, o gênero funciona como um espelho simbólico das angústias sociais e, para muitos, como uma válvula de escape essencial.

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