A velocidade da mentira: Como as Fake News impactam a sociedade brasileira
Com o avanço das redes sociais e da inteligência artificial, notícias falsas passaram a influenciar opiniões, causar medo e desafiar o jornalismo profissional.
Por Ana Laura Rocha, Gabriel Neander, Lais Cassimiro e Laura Antunes (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Reprodução
Uma informação falsa leva poucos segundos para alcançar milhares de pessoas nas redes sociais. Seja por meio de mensagens no WhatsApp, publicações compartilhadas milhares de vezes e vídeos curtos, as fake news passaram a ocupar um espaço considerável, influenciando meios digitais e a opinião da população em geral. Em muitos casos, conteúdos manipulados circulam com formato de notícias verídicas, dificultando que usuários identifiquem a legitimidade das informações consumidas diariamente.
Com o crescimento das mídias sociais e das inteligências artificiais, intensificou-se a disseminação da desinformação. Conteúdos criados para gerar engajamento, vídeos e manchetes editadas fora de contexto capazes de provocar medo e desconfiança, tornaram-se um problema que afeta diferentes áreas da sociedade, como saúde, segurança e política.
Para entender como as fake news realmente impactam a vida das pessoas, essa reportagem traz relatos de 25 entrevistados de diferentes idades e profissões, além da análise de um jornalista sobre os desafios enfrentados pela comunicação diante da velocidade e do avanço da desinformação digital.
As Fake News, ou notícias falsas, são informações produzidas com o objetivo de enganar, influenciar ou espalhar desinformação. De acordo com a UNESCO, a notícia é verificável, e por isso o termo “notícias falsas” é um oxímoro que se presta a danificar a credibilidade da informação que de fato atende a verificabilidade e interesse público, isto é, as notícias reais. A entidade alerta que esse tipo de material afeta a confiança no jornalismo e torna mais difícil o acesso do público à informações verdadeiras.
Estudos do Massachusetts Institute of Technology (MIT) apontam que notícias falsas se disseminam com maior rapidez em relação a notícias verdadeiras, principalmente por haver o intuito de causar reações apelativas ao leitor e instigar o compartilhamento sem alguma checagem. Atualmente as Fake News são espalhadas rapidamente, com apenas um clique uma informação falsa já está circulando em diferentes redes sociais. Isso se torna um problema, pois afeta o cotidiano das pessoas. Entre os relatos dos entrevistados, mais de 80% afirma ter propagado uma notícia falsa sem perceber.
Elas podem ser prejudiciais para a saúde, como no caso da auxiliar administrativa, Ana Paula Ribeiro, de 27 anos, que afirma ter ficado receosa de tomar a vacina na época da pandemia pois havia diversas notícias falsas todos os dias que a assustavam.
Outros relatos também mostram que elas podem interferir no ambiente social, assim como relata a professora Fernanda Alves de 34 anos, que uma vez foi compartilhado uma notícia da qual uma criança havia sido sequestrada perto da escola onde ela trabalha, com isso os pais dos alunos ficaram receosos de levar seus filhos para a escola e então ela e a equipe pedagógica da escola teve que explicar aos pais que aquelas informações não eram verídicas.
No entanto, não são apenas os adultos que sofrem com a disseminação de notícias falsas. Adolescentes que estão constantemente conectados às redes sociais também se tornam alvos frequentes das fake news. Segundo os estudantes de 17 e 18 anos, João Victor da Silva e Gabriel Nunes, as redes sociais facilitam a rápida propagação dessas informações. João Victor afirma que vídeos curtos convencem as pessoas com facilidade e que “quase ninguém pesquisa depois”. Já Gabriel destaca: “Às vezes, as pessoas acreditam porque a notícia parece muito convincente e tem muitas curtidas”
Aprovando isso, o jornalista André Fazano, da Rádio Cruzeiro FM, relata que o avanço das redes sociais transformou profundamente a forma como as informações circulam na sociedade e também alterou a rotina do jornalismo profissional. Com mais de 22 anos de atuação na área e há 16 anos na emissora, ele afirma que a velocidade da internet fez com que qualquer pessoa pudesse divulgar conteúdos sem apuração, contribuindo diretamente para o crescimento das fake news.

André Fazano, jornalista da Rádio Cruzeiro FM, durante a entrevista com Gabriel Müller | Foto por Gabriel Müller.
Segundo a pesquisa realizada entre os entrevistados, os idosos costumam cair em golpes pelo WhatsApp que aparecem principalmente por meio de links. “Tenho dificuldade para saber o que é verdade porque chegam muitas mensagens no WhatsApp”, relata a aposentada de 63 anos, Rosana Fernandes, isso explica que não existe um nicho específico de notícias falsas, elas variam conforme a idade de cada pessoa, ou seja, as Fake News costumam incluir política, golpes, informações enganosas sobre as áreas da saúde, educação, segurança pública, entre outros gêneros.
Para o jornalista, antigamente as informações passavam por processos de checagem antes de serem publicadas, enquanto hoje muitas notícias são compartilhadas instantaneamente nas redes sociais, sem qualquer confirmação. Segundo ele, essa rapidez acabou criando uma pressão sobre os próprios veículos de comunicação, que passaram a competir pela divulgação imediata da notícia. “Criou-se uma obrigação de ser rápido na informação, e isso muitas vezes prejudica a apuração correta”, afirma.
André Fazano também destaca que nem toda fake news nasce necessariamente da intenção de prejudicar alguém. Em muitos casos, a desinformação surge pela irresponsabilidade de compartilhar conteúdos sem verificar a procedência. Ainda assim, ele alerta que existem situações em que notícias falsas são produzidas propositalmente para manipular opiniões, atacar pessoas ou gerar medo coletivo.
Essa irresponsabilidade em relação às fake news tem provocado consequências cada vez mais evidentes na sociedade, principalmente pela rapidez com que conteúdos enganosos são compartilhados nas redes sociais. Segundo uma pesquisa do Reuters Institute for the Study of Journalism, uma grande parcela da população mundial demonstra preocupação com a dificuldade de identificar o que é falso na internet, fator que contribui para o aumento na desconfiança sob os veículos de comunicação, impactando na vida de dezenas de pessoas que optam por não utilizar mais canais confiáveis para se informar

Crédito: Secom/IBOPE
O jornalista relembrou casos em que a cautela da equipe evitou a divulgação de informações falsas. Em uma das situações, chegou à rádio um vídeo que mostrava um suposto vazamento de água em Sorocaba. Desconfiando da veracidade das imagens, a produção analisou detalhes do vídeo e percebeu que uma placa exibida no local possuía um telefone com DDD diferente da cidade. Após a checagem, a equipe concluiu que o fato não havia acontecido em Sorocaba e decidiu não publicar a informação.
Casos como esse, evidenciam o Jornalismo porém quando não realizada essa verificação, o impacto é grande. No Brasil, o impacto das fake news se intensificou principalmente nas áreas da saúde, política e segurança digital. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados na pesquisa TIC Domicílios, mostram que o uso intenso das redes sociais e aplicativos de mensagens facilita a disseminação rápida de conteúdos enganosos.
Atualmente, as Fake News são encontradas em todas as principais plataformas, tais como: WhatsApp, Instagram, Facebook, Twiter/X. No entanto, continua sendo necessário diminuir os impactos que a disseminação das notícias falsas produz na sociedade em um todo.

André Fazano defende que a principal forma de combater as fake news é investir na checagem das informações e valorizar o jornalismo profissional. Para ele, a busca pela verdade deve ser mais importante do que a pressa em divulgar uma notícia. “A melhor forma de combater as fake news é checando, analisando todos os lados e tendo responsabilidade antes de compartilhar qualquer informação”, conclui.
Em um cenário marcado pelo excesso de informações e pela rapidez das redes sociais, combater a desinformação passou a ser uma questão social. As fake news deixaram de ser apenas conteúdos compartilhados na internet e passaram a gerar consequências reais, influenciando decisões, alimentando conflitos e provocando insegurança social.
Os relatos apresentados ao longo desta reportagem mostram que a desinformação pode atingir qualquer tipo de pessoa, independentemente da idade ou do contexto social. Além disso, a internet democratizou o acesso à informação, mas também ampliou a circulação de conteúdos manipulados que se espalham antes mesmo de serem verificados.
Nesse cenário, a Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal destaca que verificar a procedência das informações e buscar conteúdos em fontes confiáveis e comprometidas com a apuração dos fatos são medidas necessárias para reduzir os impactos da desinformação. Além disso, o fortalecimento do jornalismo profissional e da educação midiática torna-se cada vez mais importante em uma sociedade marcada pela velocidade da propagação de conteúdo. Mais do que nunca, compartilhar informações com responsabilidade é uma ação necessária para evitar a disseminação de conteúdos enganosos e duvidosos.
