Obrigado, Jaspion!
“Jaspion, uni no magari gori Jaspion, uni no magari tê. Olega, olega, olega de de tirá.” Essa era a pronúncia de um menino de sete anos no meio da década de 1990 que não sabia nada sobre o idioma japonês, mas tentava cantar a música de um dos seus programas de TV favoritos, “O Fantástico Jaspion”. O adjetivo fazia jus, e o menino citado é quem vos escreve hoje.
O pessoal de 35 mais, ou aqueles que assistiam desenhos japoneses na década de 1990, sofreu um grande baque nesses últimos meses: a morte do ator Hikaru Kurosaki, o eterno Jaspion.
Eu fui um deles. Queria ter o cabelo igual ao de Hikaru e sonhava em ter aquela jaqueta estilosa.
Coincidentemente, um dia antes da fatídica notícia, eu estava no Museu da Imigração Japonesa, no bairro da Liberdade, em São Paulo, “visitando” justamente a armadura do Jaspion que se encontra em exposição lá, juntamente com outros dois heróis da minha infância: Black Kamen Raider e o Ninja Jiraya.
Tornou-se um hábito ir visitá-los em minhas férias. A primeira vez foi uma emoção indescritível, fiquei umas duas horas parado só naquela parte da exposição sobre a história da imigração japonesa, visualizando meus heróis em armaduras da minha altura atual. Depois desse primeiro encontro, fiquei reverberando e tentando entender o motivo de tanta emoção. Talvez porque quando eu era criança, vendo-os na televisão, eles pareciam enormes, inalcançáveis, e hoje consigo “olhá-los nos olhos”, na mesma altura.
Na terapia, descobri uma outra possível resposta, o Jaspion e os outros não eram apenas meus heróis de ficção, eles eram heróis porque quando eu parava para assisti-los, geralmente sentado no chão, era o momento em que eu fugia, me desligava e esquecia por alguns minutos das violências físicas e psicológicas que ocorriam dentro de minha casa.
Na data da morte de Hikaru Kurosaki, passei o dia todo meio dolorido, parecia que eu tinha perdido alguém da família. Fiquei horas lembrando de nossos momentos na minha infância. Com o auxílio do YouTube, cantei a canção de abertura, a trilha sonora e reassisti a alguns episódios diversas vezes. Que nostalgia.
No passar dos dias, fatos engraçados ocorreram. Brinquei com um colega dizendo: “perdemos o Chuck Norris no começo do ano, agora o Jaspion. Um protegia o mundo e o outro a galáxia. Como vamos viver agora? Os únicos que poderiam evitar uma terceira guerra mundial seriam eles!” Rimos muito.
Uma colega de trabalho (que, no auge de seus 22 anos, não sabia quem era Chuck Norris) me viu triste e perguntou: “nossa, Rafa, que cara é essa? o que houve?”, eu respondi: “o Jaspion morreu!” “O que é Jaspion?” Esquecendo o conflito geracional que existe entre nós, eu disse: “como assim você não sabe quem é o Jaspion?” Com a paciência e a didática de quem está estudando para ser professor, sentei-me com ela e, auxiliado pelo Google, fui explicando para ela “o que era o tal do Jaspion”. Demos muitas risadas com os efeitos especiais e as caracterizações dos monstros, que para mim, quando criança, eram de última geração, mas analisados sob a perspectiva da geração Z, eram algo “bizarro”.
No dia seguinte ela veio sorridente me contar que conversou com seus pais sobre o assunto e ambos se lembravam bem do Jaspion. Diz ela que a conversa durou horas, o que devido à correria diária, não acontecia há tempos. “Eles não sabiam da exposição no museu, a gente marcou de ir um fim de semana lá”, ela me contou.
Então foi válido. A sementinha foi plantada.
Ajudei a promover uma conexão familiar e uma interação entre pais e filha usando Jaspion.
Será que algum dia ele imaginaria isso?
Obrigado Jaspion.
Obrigado, meu herói.
Obrigado e descanse em paz, Hikaru. Você se foi da carne, mas de nossas memórias, nunca.

Crédito: arquivo pessoal Rafael Filho


Crédito: arquivo pessoal Rafael Filho

Crédito: arquivo pessoal Rafael Filho


Crédito: arquivo pessoal Rafael Filho


Crédito: arquivo pessoal Rafael Filho


