Bienal Repensar Sorocaba promove encontros e debates sobre memória e direito à cidade
Primeira edição do evento aproximou pesquisadores, artistas, educadores e movimentos sociais para discutir e questionar as narrativas que atravessam a cidade
Por Mar Carrasco (Agência Focas – Jornalismo Uniso)
Como fazer com que as pessoas sintam que a cidade também pertence a elas? A 1ª Bienal Repensar Sorocaba partiu dessa inquietação para reunir diferentes vozes interessadas em torno da história e do patrimônio do município. Realizado nos dias 15 e 16 de agosto no Núcleo ETC da UFSCar, no Jardim Santa Rosália, a iniciativa não só provocou uma reflexão acerca da história e de formas de ocupação da cidade, mas também sobre maneiras de se relacionar e transformar o território.
A Bienal surgiu do encontro entre os cinco organizadores: Bruno Lottelli, Carlos Rufini, Cícero Santos, Fernanda Ikedo e Pedro Carvalho, todos já envolvidos em iniciativas culturais espalhadas por Sorocaba. Segundo Pedro, a ideia inicial era realizar um evento durante o aniversário da cidade, mas a conversa ganhou proporções maiores e se tornou uma programação dedicada a pensar, ou melhor, repensar o município a partir de diferentes perspectivas.
Um momento de homenagem foi reservado ao historiador José Rubens Incao, reconhecido pelos organizadores como alguém que dedicou a vida a disseminar a história de Sorocaba. O tributo reconheceu décadas de trabalho voltado à memória da cidade, feito de forma acessível e aberta a qualquer pessoa interessada em conhecer o passado do município, um espírito que, segundo os organizadores, dialoga diretamente com a proposta da própria Bienal.
“A gente sabe que esse evento não começou agora. Ele vem de vários outros eventos que nós fazemos, de outras atividades que nós fazemos. Mas também de atividades que outras pessoas fizeram antes de nós e que nos inspiraram a fazer isso.” O professor PedroCarvalho conta que a Bienal Repensar Sorocaba é resultado de uma trajetória de experiências anteriores. Pesquisas sobre a história da cidade, trabalhos ligados à produção audiovisual e outros encontros culturais e acadêmicos que, juntos, foram moldando o que o evento se tornaria.

Mesa de abertura do sábado (15/08) com a pós-doutora em Geografia, Maria Encarnação Beltrão Sposito, mediação de Carlos Rufini | Foto: Monalisa Ferreira
Estruturada entre os organizadores em dois eixos principais: Memória e Narrativas da Cidade e Direito à cidade e Práticas Sociais, o conceito dedireito à cidade desenvolvido pelo filósofo francês Henri Lefebvre, orientou parte das discussões sobre a relação dos moradores com o território e a participação na construção do espaço urbano.
No sábado, a abertura da Bienal foi marcada pela presença de Maria Encarnação Beltrão Sposito (UNESP), referência nacional nos estudos sobre geografia urbana e produção do espaço. O debate propôs a reflexão sobre as desigualdades que atravessam os espaços da cidade, pensando os caminhos para um território mais justo, acessível e democrático.
A partir desses eixos, os organizadores abordaram temas como patrimônio, construção das narrativas tradicionais sobre Sorocaba e o apagamento histórico de grupos marginalizados. A escolha dos participantes levou em consideração pesquisadores, artistas e integrantes de movimentos que já desenvolvem trabalhos relacionados a essas questões, incluindo Daia Moura (UFSCar), Potyra Kambeba (CCI-UFSCar), Wellington Ataide (Baobá Grupo de Estudos Negros) e Marta Rovai (UNIFAL/USP).
O estudante de fisioterapia, Matheus Medeiros, de 19 anos, compareceu aos dois dias do evento principal e contou que o incentivo para a presença foi o tema das mesas de debate acerca do apagamento histórico de populações que participaram ativamente da construção da memória da cidade. “Essas pessoas que estão vivendo o cotidiano da cidade há muito tempo não tem a palavra escutada.”
Conforme a organização avançava, a programação foi ampliada. O que inicialmente seria um evento concentrado em um fim de semana, passou a incluir outras atividades. Esse crescimento é resultado da participação de pessoas que se aproximaram da proposta e contribuíram com novas ideias, de acordo com Pedro.
Além dos debates, a Bienal integrava no espaço do Núcleo ETC da UFSCar outras atrações culturais, como a experiência do curta-metragem “Revolta!” em realidade virtual cinemática 360° – dirigido por Bruno Lottelli e produzido por Sttefania Mendes, sobre o episódio histórico da Revolta Liberal de 1842, quando Sorocaba foi brevemente declarada capital da Província de São Paulo durante um levante contra o governo imperial -; e as exposições Ocupa Ondina Seabra – projeto fotográfico documental sobre luta e pertencimento assinado por Monalisa Ferreira com produção do LabCine – e Terra Rasgada: memória e resistência indígena, também exposta no Museu Histórico Sorocabano. No domingo, o encerramento do evento principal contou com a discotecagem da DJ Bibi Rodrigues e com o coletivo SLAM 015, que declamou poesias de resistência.

Exposição fotográfica Ocupa Ondina Seabra | Foto: Matheus Medeiros
A variedade de atividades buscou garantir que a Bienal não se limitasse ao formato tradicional de palestras e mesas de debate. A intenção foi estabelecer diversas formas de interação com a cidade e suas narrativas, ligando o pensamento acadêmico a vivências culturais, artísticas e sociais. Entre os organizadores, a criação de espaços de encontro é uma das principais motivações para a realização do evento. Para o educador e coordenador do Laboratório de Cinema Experimental Sorocaba, Bruno Lottelli, a Bienal também busca reunir iniciativas que muitas vezes acontecem de forma isolada.
Lottelli liga a ideia a outras experiências de mobilização social que ocorreram em Sorocaba, como o Sorocaba Lado B, de 2016. O evento juntou movimentos sociais da cidade e possibilitou que vários coletivos compartilhassem suas pautas, vivências e formas de atuação. Ele afirma que oportunidades assim possibilitam que indivíduos com interesses diversos descubram novas jornadas e criem vínculos. A partir daí, um interessado em cinema, por exemplo, pode se conectar a outros que trabalham na área, ou alguém que atua em uma causa social pode descobrir novos referenciais para sua atuação.
Cícero Santos, também professor e um dos organizadores da Bienal, afirma que os debates podem servir como ponto de partida para a participação em movimentos sociais e para a cobrança por políticas públicas. Entre os temas levantados estão a representação de diferentes grupos no Legislativo, as condições de crianças e idosos e a participação de populações historicamente sub-representadas.

Mesa de encerramento no domingo (16/08) com as pesquisadoras Marta Rovai e Viviane Melo de Mendonça, mediação de Pedro Carvalho | Foto: Monalisa Ferreira
A proposta, segundo Cícero, não é apresentar respostas definitivas para os desafios da cidade, mas estimular o questionamento. Para ele, os participantes já possuem seus próprios conhecimentos e experiências, e o papel da Bienal é criar condições para que essas diferentes perspectivas se encontrem.
Nesse sentido, o evento também é pensado como uma forma de transformar insatisfação em organização coletiva. Cícero utiliza a expressão “organizar o pessimismo” para definir essa perspectiva: reconhecer os problemas existentes, mas não permanecer apenas na constatação deles. “A gente está pessimista, vive um tempo pessimista, mas eu acho que é fundamental a gente se organizar coletivamente sempre e reivindicar esses direitos.”
A continuidade das discussões é um aspecto previsto pela organização. O nome Bienal indica a intenção de realizar novas edições a cada dois anos. Cícero defende que o intervalo é necessário para que as reflexões produzidas durante o evento possam amadurecer. “A reflexão das Ciências Humanas precisa de tempo.”

Apresentação do grupo Maracatu Terra Rasgada na segunda-feira (17/08) | Foto: Mar Carrasco
Durante esse período, a organização pretende manter as atividades por meio da Bienal em Movimento, iniciativa que leva parte da proposta para outros espaços e regiões da cidade. Nesta segunda-feira (17/08), em conjunto com o coletivo Sozinho Não Dá, a Bienal realizou a festa “Sem Festa Não Dá” com a intervenção do grupo Maracatu Terra Rasgada, após os dois dias de debate. Ainda na quinta-feira (20/08) ocorrerá uma sessão de cinema pelo Cine Farol, além de uma caminhada histórica prevista para a manhã de sábado do dia 30 de agosto. Tudo em planejamento para sustentar o diálogo ativo até a segunda edição, em 2028.
Assim, a primeira Bienal Repensar Sorocaba estende sua programação sem a intenção de oferecer uma única resposta sobre os caminhos do município, mas deixando em aberto as questões relacionadas à memória, ao pertencimento e à participação, permitindo que elas continuem a ser discutidas na cidade. Afinal, para os organizadores, repensar Sorocaba também significa descobrir novas formas de fazer com que os habitantes da cidade reconheçam o território como um espaço que também lhes pertence.


Excelente matéria/texto, Mar! Parabéns…