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Como Jogos Vorazes conquista fãs e inspira reflexões sobre política e sociedade; entrevista com SAC Tributos

“Esperança é a única coisa mais forte que o medo. Um pouco de esperança é eficaz, muita esperança é perigoso. Faíscas são boas enquanto são contidas.” – Presidente Snow (filme III)

Graça Helena (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Arte por Graça Helena

Quando Jogos Vorazes chegou às livrarias em 2008, parecia apenas mais um título da literatura jovem-adulta com um triângulo amoroso. Mas bastaram algumas páginas para Suzanne Collins provar o contrário: sua história não era só entretenimento, era também um soco no estômago de quem acreditava ser impossível falar de política, poder e sociedade com adolescentes. Com uma narrativa tensa e cativante, a autora nos arrasta para dentro do Distrito 12 e nos faz caminhar lado a lado com Katniss Everdeen, uma protagonista que não é apenas heroína, mas também reflexo das tensões de um mundo distópico assustadoramente familiar.

Para quem ainda não conhece a trama, vou dar um breve resumo: em Panem, um país dividido em 12 distritos, a Capital organiza anualmente os Jogos Vorazes, competição brutal em que 24 jovens, os “tributos”, são sorteados para lutar até a morte diante de todo o país.

Na época do lançamento, eu tinha apenas três anos. Lia apenas gibis da Turma da Mônica e nem passava pela minha cabeça que um dia seria obcecada por uma saga tão intensa quanto Jogos Vorazes. Foi só em 2014, na quarta série do ensino fundamental, que a história cruzou meu caminho: minha melhor amiga (Oi Nath!) levou para a escola o DVD da adaptação do primeiro livro.

Naquele momento, o mundo já estava dominado pelo fenômeno da saga. Os dois primeiros filmes tinham conquistado o público e A Esperança – Parte 1 acabara de estrear nos cinemas. E então, lá estávamos nós, um bando de crianças de nove anos, assistindo a uma trama repleta de mortes e cenas de ação nada sutis.

É de se imaginar a reação de crianças de nove anos assistindo um filme extremamente gráfico em cenas de morte e ação, não é? Pois bem, 70% da minha turma ficou horrorizado, 20% estava vidrado, e os outros 10% estavam apenas observando o caos se formar entre os colegas, que começavam a briga entre si para decidir se continuavam ou não passando o filme. Eu era parte desses 10%. Nem estava ligando muito para o que acontecia na tela, e sim na reação das outras pessoas. No final, acabou que assistimos até a metade, e ambas as partes saíram no lucro.

Imagens de reprodução

Foi só na nona série que minha paixão pela série realmente floresceu. Eu já guardava um carinho discreto pelo primeiro filme, fruto da lembrança da quarta série, mas nunca tinha mergulhado de fato na obra. Tudo mudou depois que terminei de ler Maze Runner – Correr ou Morrer, outra saga distópica que tenho uma queda por. Parei um instante, olhei para a estante e pensei: “Preciso ler Jogos Vorazes”.

E foi assim que começou minha primeira obsessão. Comprei o primeiro livro e tive a sorte de descobrir que o segundo e o terceiro estavam intocados na casa da minha avó. Um dos meus tios havia reorganizado a estante e deixado os volumes ali, quase como um presente.

À medida que acompanhava a série, percebia que o mundo de Jogos Vorazes não estava tão distante do nosso. Um presidente que diz agir em prol do bem comum enquanto elimina milhares de pessoas em nome de uma sociedade “melhor” não soa tão diferente da realidade que vivemos. Tenho a certeza absoluta que esse universo deu nos jovens adultos aquele estalo necessário: uma pausa para pensar e questionar: “Será que isso é certo?” Uma reflexão sobre política, poder e a sociedade.

“É preciso dez vezes mais tempo para se colocar novamente em ordem do que é preciso para desmoronar.”

Finnick Odair – A Esperança (livro III)

O tempo foi passando, eu fui lendo outras obras, ficando obcecada por outras coisas, mas nunca deixando de lado o apreço e senso crítico que Jogos Vorazes desenvolveu em mim. Mal sabia eu que em 2020 a danada da Suzanne Collins faria uma reviravolta e anunciaria sem mais nem menos que estava para lançar um outro livro da série, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, desta vez centrado no grande antagonista, o Presidente Snow.

Claro que a obsessão minha e a de todos os outros fãs voltou mil vezes mais forte, mas não apenas pela obra literária, e sim também pelo filme que foi anunciado simultaneamente. Ambos foram sucesso imediato. Mesmo explorando o clássico dilema “o indivíduo nasce mau ou é moldado pela sociedade?”, Collins conseguiu aprofundar o tema, trazendo nuances de política e sociologia que conquistaram uma nova geração de leitores e transformaram jovens e novos públicos em verdadeiras legiões de fãs.

Mal podia imaginar que o melhor ainda estava por vir. Em 2024, foi anunciado mais um livro, acompanhado de filme, ambientado no universo de Jogos Vorazes. Desta vez centrado em um personagem querido pelo público e, principalmente, por mim. O Amanhecer na Colheita conta a história de Haymitch: instrutor, alcoólatra e figura paterna de Katniss, vencedor do 50º Jogos Vorazes. Meu Deus do Céu… quando eu vi isso fiquei e sigo em completo delírio.

Lançado em março de 2025, com previsão para estrear nas telonas em novembro deste ano, tive a oportunidade de ler a obra duas vezes e acompanhar a produção da adaptação. Mais uma vez, vejo como novos jovens e públicos diversos estão sendo apresentados a esse universo crítico, complexo e, ao mesmo tempo, essencial para refletirmos sobre o nosso mundo.

Entrevista com o SAC Tributos

E pensando em trazer o universo de Jogos Vorazes ainda mais próximo de nós, tive o privilégio de conversar com o SAC Tributos, portal de notícias e memes, que abrange um espaço para fãs do universo, já alcançando mais de 40 mil pessoas no X (antigo Twitter). Reconhecido pelo trabalho de divulgação do universo de Suzanne Collins, o SAC Tributos, também conhecido como SAC Jogos Vorazes, abriu suas portas digitais e respondeu algumas das minhas perguntas, oferecendo uma visão de bastidores e da paixão que move seus administradores e seguidores.

O SAC nasceu em abril de 2014, quando os memes de contas de “SAC” surgiam de todos os tipos. Foi Joab Falcão quem criou o SAC Tributos, e logo depois Rayssa entrou para somar a equipe. Até hoje o grupo administra a página, contando com o apoio moral das participantes Demy e Alice.

O crescimento da comunidade, segundo os administradores, veio rapidamente. “Percebemos que estávamos alcançando muitas pessoas quando nossas hashtags começaram a entrar nos trends. Em 2014 e 2015, cada nova tag criada repercutia de forma enorme no fandom”, explicam. O ponto alto, porém, veio com as filmagens de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, quando o SAC alcançou seguidores internacionais e teve acesso a informações praticamente secretas do set. Campanhas como a de Fernanda Torres para entrar no novo filme Amanhecer na Colheita ampliaram ainda mais a visibilidade, com tweets do SAC estampando matérias em diversos sites nacionais e internacionais.

SAC Jogos Vorazes em Jornais como “Exame” e “O Tempo”

O portal também já teve contato direto com alguns nomes do universo da saga: interações via DM com Mackenzie Lansing (atriz da Coral), Sky Frances (Maritte) e a equipe de Mariana Lewis, futura Glimmer no teatro de Jogos Vorazes. “É incrível perceber que nosso trabalho se tornou uma referência não só de informação, mas também de diversão e interação para o público”, afirmam.

Sobre o crescimento do SAC ao longo dos anos, eles comentam: “É uma faísca que se prolonga com os anos. A galera nos vê como fonte de informação, mas também como um lugar descontraído. A gente faz piadas, brinca, às vezes até discute. Mas tudo faz parte da experiência de fandom”.

Quando questionados sobre o motivo da saga cativar jovens, adolescentes e até públicos mais velhos, a resposta é clara: “Suzanne Collins trouxe um teor político de forma cativante, com a revolução de Katniss contra a Capital e o projeto de Jogos Vorazes, e isso conecta com várias gerações”.

E o trabalho do SAC vai além da divulgação: eventos, leituras coletivas e sorteios fazem parte da rotina da comunidade. No lançamento de Amanhecer na Colheita, por exemplo, foi organizada uma maratona literária de janeiro a fevereiro, com quatro livros lidos em períodos específicos e a criação de um grupo no WhatsApp para troca de impressões. Sorteios de livros e prêmios, muitas vezes em parceria com seguidores e lojas, transformam a experiência em algo coletivo e colaborativo, fazendo com que o público do universo aumente cada vez mais.

No fim das contas, o universo de Jogos Vorazes vai muito além dos best-sellers e grandes bilheterias, é uma história que consegue de forma crítica e envolvente, fazer jovens adultos pararem para pensar sobre poder, sociedade e política. Entre a comoção que os personagens despertam no público, a saga realiza questionamentos sobre justiça, autoridade e comportamento humano, mostrando que até em um mundo distópico é possível refletir sobre o nosso próprio.

E é justamente essa mistura de entretenimento e reflexão que mantém a saga viva, unindo fãs em comunidades como o SAC Tributos, criando debates, leituras coletivas e uma verdadeira experiência compartilhada. Jogos Vorazes é um convite para que cada leitor se envolva, questione o mundo à sua volta e descubra que, às vezes, a ficção é o melhor ponto de partida para entender a realidade.

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