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O jornalismo quase artístico na entrevista de Regina e Gabriela Duarte para o jornalista Matheus Rocha (2026)

O trabalho do jornalista, sobretudo do entrevistador, é o de instigar. Elaborar a pergunta certa nada tem a ver com complexidade, com preâmbulos rebuscados ou exibicionismo. Por vezes, a inteligência do entrevistador está na naturalidade e simplicidade de suas perguntas e, também, na sua noção de timing e no seu poder de sedução. A entrevista é uma dança retórica, independente de quem seja o entrevistado. Há sempre um quê de desafio, sempre um certo nível de confronto.

Quando as entrevistadas são dois ícones da dramaturgia brasileira, isso já fica difícil. Mas quando uma delas é uma figura tão ambígua e controversa quanto Regina Duarte, o entrevistador que tiver a tarefa de entrevistá-la precisa exercitar todos os músculos do seu saber jornalístico. Regina Duarte é indiscutivelmente uma das maiores atrizes do Brasil. Sempre houve ressalvas sobre a qualidade de seu estilo de atuação, por vezes dado a gritos, que sempre incomodaram uma parcela do público. Mas é inegável que desde os anos 1960 ela foi privilegiada com grandes papéis, sobretudo na televisão. A Simone de Selva de Pedra, única novela a atingir 100 pontos de audiência no Ibope. A Malu Mulher, do seriado homônimo que foi disruptivo para a época, com sua personagem-símbolo de uma mulher moderna e independente. A Raquel de Vale Tudo, heroína absoluta da novela que debatia se vale a pena ser honesto no Brasil. A Maria do Carmo de Rainha da Sucata, símbolo de uma classe emergente que enriqueceu com o suor do seu trabalho. E três Helenas de Manoel Carlos, protagonistas máximas das novelas sobre a classe média alta do Rio de Janeiro. Regina recebeu inestimáveis presentes dos maiores novelistas e diretores da nossa televisão, e é impossível falar da telenovela brasileira sem falar dela.

Porém, durante o governo do presidente Jair Bolsonaro, essa atriz consagrada colocou, aos olhos de uma grande parte do público, sua credibilidade na lama ao aceitar ser Secretária de Cultura. Sua passagem pelo governo Bolsonaro foi curta e infame: durou apenas 74 dias e rendeu situações constrangedoras, como um discurso de posse no mínimo bizarro e uma entrevista onde defendeu a ditadura militar.

Agora, fora da vida política, a atriz volta aos palcos ao lado de uma parceira de cena e de vida, sua filha Gabriela Duarte, famosa sobretudo por seus papéis em que contracenava com a mãe, principalmente na novela Por Amor, trama de Manoel Carlos onde uma mãe faz um sacrifício moralmente condenável para impedir o sofrimento da filha.

O cenário da entrevista é o teatro, e o passado dessas duas atrizes é, em resumo, esse descrito acima. O que se segue nos mais de vinte minutos de entrevista disponíveis no canal do YouTube do jornal Folha de S. Paulo é estarrecedor, com desdobramentos tão teatrais que não seria difícil pensar que se trata de uma cena de mãe e filha numa novela.

O entrevistador começa deixando as entrevistadas à vontade, perguntando sobre a peça que as duas estão fazendo juntas, “A Filha da…” Aos poucos, ele vai fazendo sutis e educados questionamentos sobre o delicado equilíbrio de se ser mãe e filha tanto na vida real quanto na ficção, e as rachaduras de uma fachada de plenitude vão aparecendo com uma naturalidade impressionante. O jornalista Matheus Rocha é de muita inteligência na condução das perguntas, e separa o meio da entrevista para fazer perguntas a Gabriela, sobretudo sobre como é ser filha de uma grande atriz e sobre como foi deixar de atuar com ela e buscar novos projetos. Uma estratégia muito hábil, porque isso começa a romper o equilíbrio entre as duas. Regina começa a responder as perguntas pela filha, assumindo de forma algo cômica o protagonismo. Isso vai deixando Gabriela visivelmente constrangida, pois a filha chega a não conseguir concluir seu raciocínio graças às interrupções da mãe. Isso não parece acaso. Tem-se a sensação de que o entrevistador conhece a alma humana, e sobretudo a alma do artista, e por isso sabe que ela é movida por vaidade e medo de substituição.

E é só depois de esse equilíbrio ser rompido que o jornalista dá o xeque-mate, finalmente fazendo a pergunta que, no fundo, é a que os espectadores gostariam de fazer. Matheus Rocha pergunta sobre a infame passagem de Regina Duarte pelo governo Bolsonaro. Gabriela diz educadamente que elas não querem falar sobre isso. Regina diz que quer responder. Constrangida, Gabriela parece uma filha envergonhada com medo de a mãe falar uma bobagem. A assessoria das duas tenta intervir, mas Regina é indomável. Ela quer responder. E responde com a segurança e a displicência de uma atriz veterana, mas sua linguagem corporal delata seu nervosismo: ela começa a enrolar os longos cabelos em um gesto algo estereotípico, um tique que se mantém até o fim da entrevista.

Matheus Rocha é firme: diz que seu trabalho é fazer as perguntas, e que elas têm o direito de decidir se respondem ou não. É justo e ético, e ambas respeitam seu ofício de jornalista. Mas, é claro, isso é uma ilusão. Uma pergunta feita é uma pergunta feita. Respondê-la pode ser desastroso, mas não respondê-la pode ser pior. Gabriela se agita na cadeira, reafirma que não vão responder, implora com os olhos para que a mãe fique em silêncio, mas Regina não se aguenta: fala mal do “politicamente correto”, deixa bem claro que não se considera feminista e diz que sua passagem pela Secretaria de Cultura não teve nenhuma consequência negativa na sua vida. A questão é que é impossível acreditar nisso. Mesmo sendo uma lenda da TV Globo, Regina virou persona non grata na emissora, ao ponto de o Fantástico fazer uma matéria sobre a novela Vale Tudo sem citá-la, ainda que tenha sido protagonista do folhetim. O Jornal Nacional se referiu a ela como “ex-atriz”. A classe artística, mesmo antigos colegas de cena, nunca a perdoou.

Vemos reunidas no entrevistador, Matheus Rocha, algumas características indispensáveis num bom jornalista: inteligência, repertório, perspicácia, coragem e sobretudo presença de espírito. É necessário, paradoxalmente, muito jogo de cintura para se manter firme diante de entrevistadas tão escorregadias. É importante entender a dinâmica das duas, tanto individualmente quanto em dupla. O resultado é uma entrevista monumental, que faz pensar na máxima de Oscar Wilde, de que a vida imita a arte.

Aqui, ao contrário de em Por Amor, é a filha que tenta proteger a mãe. Mas não há como. Não apenas porque o mundo não perdoa, mas porque a mãe não está arrependida. Uma simples entrevista sobre uma peça de teatro acabou se tornando um estudo sobre o comportamento humano, sobre envelhecimento, sobre relações de mãe e filha e sobre uma pergunta que ronda o espírito do nosso tempo: é possível separar o artista da obra? Um bom jornalista não pode perder oportunidades. Não pode se contentar com o trivial. Precisa saber detectar as profundidades escondidas sob fachadas tranquilas. Essa entrevista exemplifica isso muito bem.

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