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Jason? Que nada, sexta-feira 13 foi de Carnaval!!!

Eu vou ficar, no meio do povo, espiando, minha escola perdendo ou ganhando, mais um carnaval.” Esse trecho da canção “Não deixe o Samba morrer”, eternizada na voz da cantora Alcione resume um pouco da minha paixão pela maior festa cultural do mundo, o Carnaval.

Em mais um ano ele nos deu aula de história, cultura, resistência, religiosidade, política e luta contra todos os tipos de preconceito.

Em São Paulo a MUM (Mocidade Unida da Mooca) abriu os trabalhos do grupo especial na sexta-feira, dia 13 de fevereiro, trazendo o enredo “GÈLÈDÉS – Agbara Obinrin”, uma homenagem ao Instituto da Mulher Negra, fundado por Sueli Carneiro em 1988. Um dos sambas enredos mais contagiantes, na minha opinião. A “paradona” da bateria foi sensacional! Trago um trechinho do refrão: “Quero ver, Casa-Grande vai tremer, no meu Quilombo é noite de Xirê! A Mooca faz revolução, É Guèledés: a libertação!

Com o título “A Bruxa Está Solta! Senhoras do Saber Renascem Na Colorado!”, a Colorado do Brás trouxe as bruxas e a perseguição às mulheres de forma incrível: “É do meu feitio enfrentar o opressor, eu sou a flor que resiste por minhas irmãs, a chama que insiste em cada manhã, e desafia toda norma dessa convenção.

A Dragões da Real, com o enredo “Guerreiras Icamiabas – Uma lendária história de força e resistência”, trouxe a força e a luta das guerreiras indígenas. “Guardiã em todo canto, Amazonas, com espírito que é santo, levam nome de Marias, mulheres comuns, no peito amor, na pele urucum, Aruê Angá! Valentes, guerreiras, enfrentam o mal, a destruição, a voz sagrada despertando a consciência.

“Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem-terra” foi o tema da Tatuapé, que falou sobre a história da agricultura e das lutas sociais pela terra. “É perfeita a comunhão, mas veio o invasor e a terra então sangrou, negro plantou resistência, Canudos semeou a rebeldia, cada enxada levantada, liberdade florescia.

Campeã do Carnaval 2025, a Rosas de Ouro apostou na astrologia com o enredo “Escrito nas Estrelas”, mas os astros não contribuíram, a escola foi rebaixada. E parece que não contribuíram mesmo: a escola foi penalizada com o desconto de 0,5 pontos em suas notas por atrasar a entrega de um documento para os jurados, teve atraso de meia hora devido a óleo na pista e o que me deixou ainda mais triste e apreensivo foram os escorregões (na sequência) sofridos pelo Mestre-Sala e a Porta Bandeira devido ao óleo, e que tiveram que ser socorridos pelo SAMU. Mas graças à Deus e aos Orixás, estão bem.

E a Vai-Vai hein? A clássica escola alvinegra do Bexiga tem tropeçado na avenida há alguns anos. Vi diversas reclamações nas redes sociais e protestos pedindo a saída imediata da atual direção. Torço para que resolvam logo, pois a comunidade que move a escola não merece tudo isso que está acontecendo. E o enredo “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia” estava muito legal, homenageando os estúdios de cinema Vera Cruz, a cidade e as pessoas de São Bernardo do Campo. Um verdadeiro grito de guerra: “Quem trabalha tem alma e coração, não é ferro, nem máquina da exploração, faz valer o suor, não leve a mal, se desacreditar, vai parar geral!”

Reflete Oxum no sol dourado a clarear, eu sou Barroca, macumba de enfeitiçar!”. Famosa por homenagear a orixá Iansã em 2025, a Barroca Zona Sul, conhecida como a “Faculdade do Samba”, encerrou a primeira noite de desfiles, falando de Oxum, orixá das águas doces, da fertilidade, do amor e da beleza. Será que ano que vem ela falará de Oba, fechando a trinca das três orixás que disputavam o coração de Xangô? Aguardemos…

No sábado, tive a oportunidade de assistir ao vivo aquelas que seriam a campeã e a vice: Mocidade e Gaviões (a minha maior paixão).

Trazendo o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de Uma Deusa Negra”, a Mocidade apresentou a vida e a obra da multiartista e militante das causa socias Lea Garcia. “A guerreira no quilombo fez valer o seu papel, pela luz das Yabás, todo preto vai pro céu!” Além de constar na letra do samba enredo, a frase “todo preto vai pro céu” estampava um dos maravilhosos carros alegóricos. Fui pesquisar para entender o que significava: durante as gravações a novela A viagem, Lea questionou o motivo de todos os atores que estavam “no céu” (que faleceram e foram para o paraíso) serem brancos. No céu não tem preto? O céu não é para os pretos? Depois do questionamento, Lea foi convidada para compor o elenco.

Minha Gaviões da Fiel tremeu a avenida como sempre. Foi lindo demais. “Vozes Ancestrais Para Um Novo Amanhã” foi a temática. Chorei, chorei muito. O carro alegórico com os povos indígenas com lágrimas de sofrimento escorrendo de seus olhos enquanto carregam esse país nas costas foi bem impactante. “Sou Tapajó, Cariri, Caeté. Um Potiguar, Tupi, Canindé. A voz da resistência, a lança ancestral, no peito do Brasil colonial”, fiz questão de gritar na avenida. Outro trecho marcante do samba enredo é: “É hora de reflorestar o pensamento”. Ficamos em segundo lugar por apenas um décimo, mas foi como ganhar o título. Em 2024 quarto lugar; 2025 terceiro; e em 2026 segundo. 2027 já sabe né?

No sábado vi também:

A Império de Casa Verde com o enredo “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras”, falando sobre empoderamento feminino e os “balangandãs” que as mulheres escravizadas vendiam nas ruas brasileiras.

A Águia de Ouro falou da cidade holandesa de Amsterdã. Teve as famosas “garotas de programa de vitrine” e um “bonecão de maconha” soltando fumaça. Mas infelizmente a escola foi rebaixada.

A Estrela do Terceiro Milênio que homenageou o sambista e compositor Paulo César Pinheiro, com o enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”.

A Tom Maior trouxe o enredo “Chico Xavier. Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”. Penúltima escola a desfilar, na minha opinião, A Tom deixou a desejar um pouco, pois, apesar do belo desfile, falou mais da cidade de Uberaba do que de Chico propriamente, que apareceu somente no último carro.

Já amanhecendo o dia, a Camisa Verde e Branco entrou na avenida. Sua apresentação era uma das mais esperadas por mim — Ai você que me lê talvez possa perguntar: “Mas, Rafael, você é Gaviões e torce pela Verde e Branco? Nesse caso te convido a pesquisar sobre (e conhecer mais a história do carnaval), e você verá que a escola não tem nenhuma ligação com o time de futebol da Barra Funda — pois seu samba enredo “Abre Caminhos”, que falava de Exu na qualidade de entidade e não de orixá, na minha opinião é o mais contagiante de todo o carnaval de São Paulo. Dancei e pulei o desfile todo, gritando muito os trechos: “Arreda que Exu abre caminhos, arreda pra Exu movimentar”; “Ontem caiu uma pedra lá fora, que Exu só vai jogar agora”; “Eu sou da rua, macumbeiro, sim sinhô. Quem me guarda é Capa Preta, Tranca Rua e Marabô”; “E a Barra Funda, berço da malandragem, se espelha na coragem do seu Zé e da Navalha” e “O teu feitiço não me pega nem no tranco”. Mas no finalzinho do desfile o último carro da escola bateu, gerando penalidades por atrasaram um minuto no tempo máximo de encerramento. O presidente passou mal, teve que ser socorrido na avenida. Mas no final tudo deu certo e a escola não foi rebaixada.

E no Rio de Janeiro?

A Acadêmicos de Niterói com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” foi uma das sensações. Até o Rick Martin fez stories colocando o samba enredo como música de fundo. A internet bombou. Aqueles que possuem déficit de interpretação não sabem até hoje diferenciar família tradicional da conservadora. Acho que enlatados não eram assunto no Brasil desde o “Verão das Latas” no ano de 1980. A escola foi rebaixada? Foi, assim como qualquer outra poderia ter sido. Temos o exemplo da Rosas de Outro de São Paulo que foi campeã ano passado e rebaixada neste. O importante foi o impacto causado e as reflexões que isso irá gerar por toda a eternidade carnavalesca, social e política.

A Imperatriz Leopoldinense foi camaleônica trazendo Ney Matogrosso para a avenida. A galera literalmente “se jogou na festa, esquecendo o amanhã”, “ressignificando o frágil” e sendo o “poema que afronta o sistema” e a “língua no ouvido de quem censurar”.

A Portela trouxe a história deCustódio Joaquim de Almeida, mais conhecido como Príncipe Custódio, mestre espiritual do Benin (na África) que marcou a cultura afro gaúcha no século 19.

A Mangueira (que assim como a Vai-Vai tem dado uns tropeços na avenida nos últimos anos) mostrou as tradições afro-indígenas da Amazônia ao trazer a história do Mestre Sacaca, um grande curandeiro brasileiro e “Guardião da Amazônia Negra”.

A Mocidade Independente de Padre Miguel teve a cantora Rita Lee como tema, com o enredo “Rita Lee, A Padroeira da Liberdade”. Não gostei da melodia e ritmo do samba enredo, não tinha cara de carnaval.

Campeã de 2025, a Beija-Flor de Nilópolis teve, na minha opinião, um dos melhores sambasenredo desse ano (o primeiro sem Neguinho da Beija-Flor como intérprete. Mas a belíssima Jéssica Martin arrebentou na voz). Falando sobre o Bembé do Mercado, um candomblé de rua de Santo Amaro de Purificação, no Recôncavo Baiano, a escola foi bem, mas não conseguiu o bicampeonato.

Tudo bem que o Mestre Ciça tem um legado imensurável no carnaval e só por isso a Unidos do Viradouro já largaria como uma das favoritas, mas na hora que vi a bateria subindo em um carro alegórico (como feito em 2007) e depois se ajoelhando aos pés do Mestre, falei sem pestanejar: “essa será a campeã de 2026”.

A Unidos da Tijuca falou da nossa querida escritora Carolina Maria de Jesus.

A Paraíso do Tuiuti (minha paixão carioca desde o samba enredo de 2018“Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?”, que é uma aula a parte, fica a dica) falou da Santería (a “macumba cubana”, um culto de origem africana que se assemelha à nossa Umbanda) que nasceu em Cuba, mas se ramificou para o Brasil. A escola foi ousada ao colocar um refrão inteiro — “Iboru, Iboya, Ibosheshe, Canta, Tuiuti” — na língua Iorubá, já que no ano passado uma jurada tirou pontos de escolar por usarem “muitas palavras de língua estrangeira (africana)”. Vou nem falar nada…

A Unidos de Vila Isabel trouxe a história do multiartista do samba,Heitor dos Prazeres.

A Acadêmicos do Salgueiro apresentou um enredo sobre a icônica carnavalesca Rosa Magalhães, que morreu em julho de 2024.

E a Acadêmicos do Grande Rio?

Ahhhhh, Grande Rio, ahhhh…

Um dos assuntos do ano…

A escola falou sobre um dos mais importantes movimentos culturais do Brasil: o Manguebeat, que nasceu em Pernambuco, no início dos anos 90, misturando ritmos regionais como o maracatu com rock, hip-hop, e música eletrônica.

Mas isso acho que ninguém viu ou lembra, não é mesmo?

O único assunto foi a Virginia…

Entendo que a escola precisa de dinheiro para fazer toda e qualquer movimentação, mas colocar barraca para vender o perfume dela dentro do barracão e colocar a marca estampada nas costas dos empurradores de carro beira a “prostituição”.

Será que os frequentadores possuem condições financeiras para adquirir aqueles produtos? Será que na quebrada não tem um monte de jovens empreendedores que nunca puderam ocupar aquele espaço?

Colocar uma mulher branca e de classe alta (“ah, mas a Paola também é branca”, desculpa, mas nesse caso não cabe comparação, basta ver o legado que Paola lutou para deixar) que nunca pisou em uma avenida, e se autodeclara evangélica (ao ponto de não cantar trechos do samba enredo que tinham ligação com religiões de matriz africana) não desmotiva as meninas da quebrada que desde pequenas sonham e ensaiam arduamente para aprender a sambar e poder estar naquele lugar?

Uns defendem que a Virginia não teve um bom desempenho (foi vaiada pela arquibancada, inclusive) tendo que ser “resgatada” pelo responsável de harmonia, pois saiu andando e esqueceu dos colegas da bateria e não aguentou carregar a fantasia até o fim (o que conta pontos para os jurados) pois não teve tempo hábil para ensaiar e por ser sua primeira vez desfilando. Vai de cada um… Para tal, deixo um trecho da música Laguidibá, gravada por Alcione, com participação de Mart’nália: “Quem não é de Ologbojô, não usa laguidibá, tira o colar do pescoço, seu moço, que é para não se machucar. Laguidibá, não é simples ornamento, é colar de fundamento, você tem que respeitar”, ou seja, se não manja ou se não é meio, não entre. Ou como diz um famoso meme: “não entra não, sem a instrução de um profissional”.

Lembrando que não estou aqui (e nem defendo) um “escárnio” de uma mulher, seja a Virginia ou qualquer outra. O meu intuito é abrir uma reflexão sobre consciência de classe e o ônus social que a escola possa ter devido a algumas concessões a que se rende.

Um trecho do samba enredo da Grande Rio ilustra bem a situação e serve de reflexão para a diretoria da própria escola:

“Freire, ensine um país analfabeto

Que não entendeu o manifesto

Da consciência social”

Esse foi o carnaval de 2026 para mim.

E para você? Como foi? Me conta aqui embaixo nos comentários!

#ansiosopara2027

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