A luta constante das travestis e mulheres trans pelo direito à existência
[Série Mês das Mulheres] Mulheres trans e travestis seguem mostrando que a sobrevivência é o primeiro passo para a resistência à invisibilização e à marginalização.
Por Antony Moscatelli (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Em 27 de fevereiro de 1987, uma operação policial percorreu ruas de São Paulo sob o pretexto de combater a AIDS e “limpar” a cidade do que era considerado indesejado. A ação, batizada de Operação Tarântula, teve como alvo principal travestis e mulheres trans que trabalhavam nas ruas da cidade. Outras operações de mesmo viés aconteceram antes e depois, por todo o país, mesmo após o final da ditadura militar.
Quase quatro décadas depois, mesmo que essa perseguição não receba o nome de uma operação policial, essa violência segue viva, obrigando essas mulheres a sobreviver. O Brasil segue liderando o ranking de países com mais assassinatos de pessoas trans e travestis no mundo desde 2009. Embora dados coletados pelo projeto Trans Murder Monitoring, criado pelo grupo TGEU (Trans Europe and Central Asia), mostrem uma redução de aproximadamente 34% nos casos, sendo o menor número de ocorrências registrado em 2025, o Brasil segue invicto em sua posição.
Por mais que essa violência, em parte das vezes, não apareça de forma física e visceral, ela surge velada e intrínseca na marginalização dessas mulheres. Informações do instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) mostraram que, em 2020, apenas 6% dessas mulheres estavam inseridas no mercado formal de trabalho, e que 90% tinham a prostituição como fonte principal de renda.
Para a artista Urutau Pinto, 32 anos, essa marginalização funciona como parte de um problema sistêmico, que limita o acesso dessas mulheres aos direitos básicos, as colocando em condição de maior vulnerabilidade, onde a maior resistência se torna a própria sobrevivência.


DJ na Rádio Pantera e professora de Kung-Fu na Escola Núcleo 7 Esferas do Tao, Urutau Pinto | Arquivo Pessoal
Urutau entende essa violência, essa agressão aos corpos movida pelo ódio ao que se comporta diferente das normas impostas ao gênero designado, que teria surgido na época da colonização, como o que ocorreu no caso Tibira – considerado o primeiro assassinato por homofobia em território nacional –, como mais uma das formas de controle impostas pelos europeus.
“A gente entra num looping de perseguição mesmo. Essa parte mais documental da história das travestis está muito nesse lugar da violência do Estado. A gente começa a ter essas referências, das memórias dessas pessoas, a partir do que era parâmetro na época da ditadura. Mas antes mesmo da colonização, a gente já estava aqui. Essas travestis que foram perseguidas na época da ditadura, elas estavam aqui antes também. A gente não tem esses registros formais, porque quem é que estava fazendo os registros?”
Esse ciclo no qual a falta de oportunidades formais empurra mulheres trans e travestis para a informalidade e, posteriormente, legitima o estigma associado a esses espaços, construindo uma narrativa que responsabiliza os indivíduos pelas condições que lhes foram impostas é apenas uma das engrenagens desse sistema de marginalização.
Ela conta que sua primeira memória de uma travesti surgiu ainda na infância, quando ela passava de carro com os pais a alguns quarteirões da avenida General Carneiro, em Sorocaba, e via as moças trabalhando na rua, “eu não entendia porque elas estavam com pouquíssima roupa, eu só as achava maravilhosas, muito potentes. E era um grande evento no carro. O assunto existia enquanto tabu e existia enquanto transfóbico. [Eu perguntava] e não fazia sentido o que eles [os adultos] respondiam. Não vou generalizar, mas existe uma cultura de você não responder às questões das crianças.”
Esse distanciamento imposto pela sociedade acaba se virando contra ela própria em certos momentos. Essa demonização, como a musicista Lucy Balera, de 27 anos, chama, acaba reforçando esses padrões.

Guitarrista da banda de metal sorocabana Mettonimia, Lucy Balera | Arquivo Pessoal
“A gente só é valorizada no escuro, escondida. E também, quando elas [as pessoas] fazem esse tipo de comentário, de passar na rua e ver as meninas trabalhando e começar a zoar ou falar mal, elas não enxergam que elas mesmas acabam colocando a gente nesse padrão. Porque, na visão delas, a gente só serve para entretenimento ou para a indústria sexual. É muito difícil entrar em qualquer estabelecimento e ver pessoas trans convivendo, só vivendo na sociedade, sem olhares.”
O direito ao trabalho é apenas um dos que são limitados de forma velada. Urutau conta que viu de perto pessoas que procuraram trabalho por meses e só conseguiram quando excluíram o nome social do currículo, sendo obrigadas a se esconder atrás de uma identidade que não as pertence.
Essa limitação dos direitos básicos aparece no cotidiano. Lucy relata que a simples presença de pessoas trans em ambientes comuns ainda é marcada por estranhamento, o que causa a sensação de não pertencimento. “Eu me sinto bem com meu corpo, mas eu sinto que, às vezes, essa cisgeneridade faz a gente ficar nesse medo, nessa ansiedade. Se as pessoas não me lerem [no espectro feminino], eu não vou ser validada. Tem lugares que você entra e as pessoas ficam te olhando com cara feia. A pessoa faz você se sentir como se você não pertencesse àquele lugar.”
Essa visão é corroborada por Urutau, que descreve Sorocaba como uma das cidades onde ela se sentiu menos segura. “O meu direito de ir e vir é totalmente cerceado. Ele não é impedido, obviamente, mas ele é cerceado. Todo lugar que eu estou, eu estou enquanto uma travesti, eu sei que se eu estou em uma cidade que é transfóbica, eu sei que meu corpo não está seguro.”
Esse sentimento de rejeição não se limita apenas ao país número um no ranking do TGEU, mas se expande inclusive para países de boa fama. A artista drag Ada Cristina Bezerra, de 26 anos, mora desde 2017 na Finlândia e conta que o título de “País Mais Feliz do Mundo”, recebido pela oitava vez consecutiva no World Happiness Report, em 2025, causa risos nela e em suas irmãs da cena trans e ballroom.

Ada Cristina Costa Bezerra, Dragqueen “Nix Conspiracy” | Arquivo Pessoal
Os fatores considerados para receber esse título são os níveis de confiança nas instituições, o baixo índice de desigualdade, a qualidade de serviços públicos, a segurança e o apoio social. Para Cristina, a introspecção cultural europeia é a grande responsável por esse deslize. “Aqui as pessoas são mais quietas, mas tem [o preconceito]. Olhares, falam asneira quando bebem. Eu tive umas questões bem esquisitas, indo ao médico, por exemplo, e a enfermeira falando ‘essa cama aqui é só para mulheres deitarem’.”
Apesar de terem acontecido algumas mudanças nas leis que asseguram pessoas trans na Finlândia em 2023, Cristina conta que tudo acaba sendo colocado em brechas. Por exemplo, a necessidade de um diagnóstico psiquiátrico que foi removido dos pré-requisitos para ter acesso aos tratamentos e à transição, mas foi trocado pelo chamado “Período de Reflexão”, uma janela de 30 dias entre o pedido inicial para a transição e o início dos trâmites.
“Eles mandam um formulário, como se a gente estivesse fazendo a prova do Enem, mas para ser trans. Eu acho que se a pessoa já vai ao psicólogo, que era o meu caso, a pessoa já tem vivido com um nome diferente, usando banheiro diferente, fazendo tudo diferente… Eles tratam como se o dia que você ligou fosse o primeiro dia que você decidiu ser trans, na visão deles, que você não tinha uma vida antes, que você já não estava passando por várias coisas antes. Você já transicionou socialmente antes de começar esse processo todo.”
No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, a representatividade e o acolhimento vieram de dentro da comunidade. Lucy conta que, com a data sendo tomada pelo capitalismo, o mais importante se torna o auto entendimento e as pequenas conquistas. “Receber um Feliz Dia das Mulheres da minha mãe foi uma coisa mágica. A gente ainda tem que entender que se a gente não se enxergar, quem mais vai?”
Cristina, que é mãe da Conspiracy House, uma casa de Ballroom em Helsinque, conta que organizou um show drag para o dia das mulheres, criando uma representatividade interna. “Uma das minhas irmãs de cena, ela estava sendo uma das juradas do ball, a gente se abraçou e falou “olha só para nós”. Antes da Eurovision tem uma competição na Finlândia para saber quem vai competir pelo país, e ela foi parte da performance de uma das ganhadoras anteriores. Essa menina trans, negra, imigrante.”
Urutau aponta a luta pelos direitos não como coisas desconectadas, “a gente entende que não somos iguais às pessoas cisgêneras, mas a gente também precisa de atenção aos nossos corpos. Hoje, a gente não precisa de algo paralelo, a gente precisa que essas políticas públicas sejam mais abrangentes.”
Ela concorda que existam iniciativas pontuais que tentam auxiliar a luta pelos direitos, mas que para elas funcionarem é necessário o coletivo, independente da data. “Esses são os momentos em que a comunidade precisa se organizar, se encontrar, se ver, entender os problemas e exigir políticas públicas. As marchas trans têm existido para isso e não para entretenimento. A gente tá morrendo. É claro, a gente precisa comemorar, é importante se sentir viva, mas é importante a gente se sentir viva o ano inteiro, e para isso a gente precisa estar ativa o ano inteiro.”
As três mulheres concordaram ao dizer que a luta contra o machismo, a misoginia e a transfobia caminham juntas em uma mesma direção.
Lucy conta que, quando criança, era cultural ensinar os meninos a fazer essa associação homofóbica a tudo que fugisse do estereótipo masculino, entrando em um paradoxo em que, para ser considerado “um homem de valor”, era necessário desprezar o universo feminino ou qualquer coisa que se aproximasse minimamente dele.
“Eles [os homens] mesmos caem nesse paradoxo. Se eles não enxergam a gente como mulher, por que eles nos tratam como mulher de forma pejorativa? Porque, por exemplo, quando um homem chora, ele é chamado de mulherzinha?”, Lucy questiona.
Cristina diz que sempre foi uma criança afeminada, “do tipo que era chamada de viado antes de saber o que isso significava”, e que qualquer associação feita com o feminino era vista como sinal de fraqueza.
Apesar de serem os grandes alvos da transfobia, representando 47,4% das vítimas reportadas ao Trans Murder Monitoring, essas mulheres entendem que a transfobia é um problema interno de quem é transfóbico. Independente dos preconceitos enraizados na sociedade, essas mulheres vão continuar existindo e vão continuar resistindo.
“As pessoas trans estão construindo o mundo delas, as pessoas cis deveriam estar fazendo o mesmo.”, diz Urutau.
Lucy enxerga as pessoas transfóbicas como presas num padrão de valores que acaba as privando de viver completamente, já que deliberam uma parte de seus dias para disseminar um ódio infundado. “Isso já mostra o tanto de limitação que essas pessoas têm nas vidas delas. Mas é bizarro a gente falar para nossa mãe, olha, quando a gente for no mercado, no shopping, tente não se importar com os olhares. É meio triste isso, você ter que olhar pra sua mãe e falar, olha, se prepare. Porque vão ter muitos olhares, você vai passar por coisas comigo só por eu ter aceitado quem sou.”
Em um mês da mulher onde a primeira deputada trans, Erika Hilton (PSOL) foi eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres da Câmara dos Deputados, e foi recebida por inúmeros ataques pautados em seu gênero, cabe à população pensar quais são as prioridades que estão sendo levadas em consideração.
A rapper Ebony se pronunciou nas redes sociais após os ataques conta Erika Hilton, dizendo se sentir mais representada por ela do que por “muitas mulheres cis brancas que nasceram ricas”, demonstrando a consciência de luta coletiva por direitos, uma tecla que a deputada bate bastante ao declarar durante o discurso de posse, no dia 11 de março, que sua “gestão tratará de todas as mulheres”, principalmente por ser algo tão abrangente.
Cristina conta que cresceu com tantas mulheres diferentes ao seu redor que acha besteira tentar definir o que é ser mulher. “Mulheres têm sido mulheres diferentes durante toda a existência do planeta.” Para Urutau, muito além do que uma definição, é a presença. No final das contas, é algo muito individual, uma descoberta única e interna, como conta Lucy.
A transfobia é crime equiparado ao racismo no Brasil, desde 2019, sendo inafiançável e imprescritível. Lucy conta que não confia tanto na defesa do Estado por conta da falta de segurança e do apagamento sofrido pelas mulheres trans que foram atacadas. Ainda sim, ela mantém viva uma esperança de dias melhores, trazida principalmente pela cena underground, “Eu sinto que estou presa aqui [em Sorocaba] ainda para ver isso acontecer e fazer parte disso.”
Acesse o Trans Murder Monitoring: https://transmurdermonitoring.tgeu.org/en/.
Veja também:
O mundo do glamour e excentricidade das drag queens performado por mulheres (https://focas.uniso.br/index.php/2025/05/29/o-mundo-do-glamour-e-excentricidade-das-drag-queens-performado-por-mulheres/)
Movimento Ballroom sorocabano é contemplado por fomento da Secretaria de Cultura (https://focas.uniso.br/index.php/2025/08/14/movimento-ballroom-sorocabano-e-contemplado-por-fomento-da-secretaria-de-cultura/)
