O jornalismo em crise existencial de Guerra Civil (2024)
No filme Guerra Civil, de 2024, vemos os Estados Unidos divididos. Não fica claro o que aconteceu, nem quais são as divisões. Só sabemos que o país está em guerra civil, com pelo menos três estados rebeldes e um presidente acuado e lutando para conter os separatistas. Esse contexto político é apenas inferido a partir dos diálogos dos personagens, sobretudo do quarteto principal, que são jornalistas atravessando o país rumo a Washington para tentar uma entrevista com o presidente antes que este seja derrotado – ao que tudo indica, não irá demorar. Trata-se, portanto, de um “road movie”, gênero cinematográfico onde um grupo de personagens realiza uma viagem, e onde, mais importantes do que um enredo intrincado, são as interações e descobertas que se fazem no caminho.
O grupo é composto de um jornalista ancião, que tenta trazer sabedoria, duas fotojornalistas de guerra e um repórter interessado em entrevistar um presidente. Com esse foco, reflexões interessantes sobre o ofício do jornalista surgem. O jornalista, sobretudo aquele que cobre os eventos ainda quentes, é ao mesmo tempo testemunha e narrador da história. Ele é o primeiro numa linha de narrativas e contra narrativas que surgirão no futuro sobre aquele evento. Ele é a primeira versão, por assim dizer. A relação entre a fotógrafa veterana Lee e a jovem Jessie é de um aprendizado melancólico. Jessie tem Lee como sua heroína, e Lee busca proteger Jessie, ao mesmo tempo em que lida com uma crise de fé na sua profissão. Ela é uma fotógrafa de guerra experiente, cobriu conflitos no mundo todo. Mas, de alguma forma, registrar a devastação do próprio país derruba os muros morais que a personagem criou para seguir seu ofício. Em um diálogo com Jessie, ela diz “Quando começamos a questionar as coisas, é só ladeira abaixo. Então só registramos e deixamos os outros questionarem. Quer ser jornalista? É assim”. Em várias das fotos de Lee, ela se exclui da narrativa, atuando como uma observadora distante, uma estrangeira na cena. E, nos outros trabalhos, ela realmente era uma estrangeira. Mas não agora. No filme, ela tem dificuldade em desligar o botão da humanidade. Nessa luta fratricida entre seu povo, Lee desenvolve uma proteção por Jessie, o que compromete seu trabalho. Isso acontece porque ela não consegue dizer para si mesma que está “só fazendo seu trabalho”. Esse argumento, aliás, é muito invocado por aqueles que não querem se comprometer ética e moralmente. Foi o argumento de Eichmann eu seu julgamento por ter projetado a logística de extermínio nazistas.
Talvez seja a proximidade emocional deixe a visão turva. Há cenas do filme que expressam isso visualmente: cenas onde os personagens observam cenas bizarras de longe, tentando entender o que elas significam. É o olhar do jornalista atuando como uma câmera, procurando o foco. Mas esse foco é muito difícil de se conseguir quando seu lar está ruindo.
Bem diferente é a postura de Joel, o repórter que pretende entrevistar o presidente. É ponto seguro para os personagens que o presidente será derrotado e morto. De certa forma, isso faz com que a entrevista que Joel quer fazer seja inútil, porque ela não teria o poder de alterar nada na guerra. Sua serventia seria a de um registro histórico, um lamento de um homem caído. O sentimento que esse paradoxo traz é melancólico, porque é, em certa medida, um velho conhecido do jornalista. Por vezes, sentidos que nosso trabalho não serve para nada, que nossos esforços são pura vaidade, talvez até uma força do hábito, um hábito de tentar ver narrativa no caos, de procurar aspas para o indizível e pontos finais para angústias existenciais.
O filme em si é melancólico, e isso se reflete em enquadramentos potentes, como a cidadezinha tranquila com atiradores discretamente posicionados no telhado, ou o cadáver ensanguentado no meio de uma vila do Papai Noel. Essas contradições são a força motriz do jornalista, mas também podem ser a sua ruína. Isso é exemplificado nos arcos da jovem Jessie e do velho Sammy. Jessie começa o filme animada para ser uma fotojornalista de guerra, e se enfia na viagem como quem embarca numa aventura. Os acontecimentos, as desolações que presencia e os medos que sente a fazem amadurecer, e renovam sua fé no seu ofício. Seu “prêmio” é dado na última cena do filme, pois é pelas lentes dela que um grande acontecimento histórico é registrado. O arco de Sammy é o oposto. O ancião sábio, generoso e admirado por todos, sabe reconhecer que as contradições que levaram Lee a uma crise existencial na verdade sempre estiveram lá; bastava ter a dose exata de presença de espírito e cinismo para perceber. Porém, sua sabedoria e generosidade não são recompensadas. Depois de um ato heroico, Sammy tem um fim trágico, mas que acaba por impulsionar os outros protagonistas rumo aos seus objetivos.
Um paralelo interessante é desenvolvido em duas cenas do filme, que resumem sua mensagem. Enquanto a veterana Lee apaga seu registro da morte de Sammy, é dada à ascendente Jessie a chance de registrar a morte do presidente. Em resumo, a vida se renova, e talvez seja necessário ao jornalista um pouco de inconsequência juvenil.

