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Pesquisa aponta que 52% dos participantes compartilhariam uma notícia alterada por inteligência artificial

Teste foi realizado com a comunidade e estudantes de jornalismo, e reforçou preocupações com a desinformação neste ano eleitoral.

Por Gabriel Franco, Helena Valentim, João Canno, Mariane Camargo e Pedro Egidio (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Reprodução | iStock

Uma pesquisa independente realizada em maio, sobre a confiabilidade da inteligência artificial nas notícias, revelou que 52% dos participantes consideraram verdadeira, e afirmaram que compartilhariam, uma notícia modificada por IA, durante um teste aplicado a 25 pessoas, de diferentes faixas etárias.

A notícia escolhida pela maioria dos participantes da pesquisa, apresentava características como apelo emocional e uso de adjetivos de valor ao sujeito, elementos que fogem do padrão de neutralidade esperado em uma notícia credibilizada. Com o uso da inteligência artificial, esse tipo de manipulação pode ser produzido de forma mais rápida e convincente, alterando títulos,linguagem e contexto para influenciar emocionalmente o público.

A pesquisa também apresentou vídeos e fotos para que os participantes identificassem quais eram verdadeiros e quais eram gerados por inteligência artificial.

Percepção da população geral com as IAs | Fonte: formulário aplicado em maio de 2026.

A pesquisa também foi aplicada isoladamente aos alunos de jornalismo da Universidade de Sorocaba (UNISO).

Percepção dos alunos de jornalismo com as IAs | Fonte: formulário aplicado em maio de 2026.

Conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Código Eleitoral brasileiro (art. 242) veda propagandas que criem artificialmente estados emocionais ou passionais na opinião pública. Ainda assim, a jurisprudência reconhece que a emoção faz parte do discurso político, o que amplia odebate sobre os limites do uso da IA na circulação de informações eleitorais.

O TSE informa sobre o uso de Inteligência Artificial nas eleições de 2026: todo conteúdo gerado ou alterado por IA deverá ser explicitamente indicado, sejam esses conteúdos áudios, textos, vídeos ou imagens. Além disso, está proibida a publicação ou republicação de propaganda eleitoral com uso de IA nas 72 horas anteriores à votação e nas 24 horas após a votação.

A preocupação com os avanços tecnológicos se manifestou não só para o governo, mas também para os eleitores. O estudante de engenharia mecânica, Maurício Oliveira, de 20 anos, afirma que ficou aflito ao acreditar facilmente em um material falso, “A convicção de quem me mostrou, somada à confirmação da IA, pareceu prova suficiente, até que decidi fazer uma checagem independente e descobri a inconsistência”. O estagiário e estudante de odontologia, Caio Felipe, de 21 anos, também apresentou apreensão sobre as consequências do uso exacerbado da ferramenta, “as fake news feitas por IA podem fazer as pessoas ficarem desconfiadas das eleições e até das notícias em geral”. Acredita que a responsabilidade de combater esse fenômeno é do governo, plataformas digitais e usuários que as compartilham.

A influência da IA através das redes sociais tem crescido cada vez mais. Um dos casos mais emblemáticos desse cenário é o perfil “Dona Maria”, criado com inteligência artificial pelo carioca Daniel Cristiano dos Santos. A personagem virtual viralizou nas redes sociais ao publicar vídeos com ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a figuras da esquerda e a membros do Supremo Tribunal Federal (STF), sempre com um discurso alinhado a pautas bolsonaristas e conservadoras. O alcance do perfil chama atenção: foram mais de 100 milhões de visualizações e cerca de 750 mil seguidores acumulados em diferentes plataformas. Diante da repercussão, os partidos PT, PV e PCdoB, que compõem a Federação Brasil da Esperança, protocolaram no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no dia 22 de abril, uma representação solicitando a suspensão e a indisponibilização das contas “Dona Maria” no Instagram, TikTok, Facebook, YouTube e X. O
episódio reforça os desafios enfrentados pela Justiça Eleitoral e pelas plataformas digitais diante do uso de inteligência artificial para potencializar campanhas de manipulação política e desinformação durante períodos eleitorais.

Para o professor e sociólogo, Vidal Mota, a solução para a diminuição da disseminação de deepfakes e conteúdos gerados por IA, seria a educação midiática, “o nosso país tem sérios problemas estruturais, de educação, de interpretação de textos, então as pessoas são muito mais suscetíveis”. O professor considera que a curto prazo não é possível resolver totalmente a questão, e cabe aos atuais universitários e futuras gerações contribuírem com projetos de letramento digital.

A situação tem relação com a pós-verdade, que atua para moldar a opinião pública, onde as pessoas aceitam as informações recebidas com base naquilo que já têm como verdade. O professor explica que as empresas de big datas e metadados, oferecem aos telespectadores aquilo que eles consomem, ajudando e embasando suas opiniões, de forma que a população seja manipulada sem ao menos perceber. “Elas estão sendo manipuladas, mas para elas não. Elas veem como algo factual, que constitui a verdade”.

No contexto eleitoral, Vidal enxerga que a regulação depende de uma atuação mais severa dos sistemas de justiça. E julga a desconfiança generalizada com as instituições, causada pela onda de utilização de inteligência artificial, alarmante. “As instituições deveriam ser potencializadas. Elas deveriam ser cada vez mais depositárias de confiança e credibilidade”. Acrescenta que a sociedade tem de enfrentar esse desafio, inclusive por meios legais.

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