Entre “views” e fatos: a queda na busca por profissionais qualificados na era da informação livre
Por Alessa Santos, Ana Paula Martins, Lara Candiani e Nicolas Teixeira

Crédito: Autoria Própria
Com o acesso cada vez mais fácil à internet, especialmente nos últimos anos, a forma como a população consome informação mudou — impactando diretamente a valorização de profissionais qualificados, como jornalistas. Em um recente levantamento realizado para a produção da reportagem com cerca de 70 participantes, percebe-se que, embora o consumo de notícias seja frequente, grande parte das pessoas se informa por meios que nem sempre seguem critérios jornalísticos.
O que o levantamento revela:
Os dados revelam um público majoritariamente jovem: 47,5% dos entrevistados têm entre 16 e 18 anos, enquanto 26,2% estão na faixa de 19 a 30 anos. Além disso, 100% dos participantes afirmaram acessar a internet várias vezes ao dia, o que reforça a influência do ambiente digital na circulação de informações.
Apesar desse acesso constante, a busca por notícias nem sempre acontece com a mesma intensidade. Enquanto 42,6% dizem se informar diariamente, a maioria (52,5%) consome notícias apenas algumas vezes por semana.
Quando se trata das fontes utilizadas para obter as informações, as redes sociais lideram com folga: 88,5% dos entrevistados afirmam utilizá-las como principal meio de informação. Em seguida aparecem os sites de notícias (65,6%) e a televisão (34,4%).
Outro dado relevante é que 85,2% dos participantes acompanham páginas que não são veículos jornalísticos. O consumo desses conteúdos também é frequente: 42,6% acessam diariamente e 44,3% algumas vezes por semana.
O conflito das gerações ao consumir informações:
A diferença na forma de consumir notícias fica mais evidente quando se comparam gerações.
Para Marcio Aurelio Araujo, de 50 anos, a credibilidade ainda está diretamente ligada aos veículos tradicionais. “Se a notícia for dada por um veículo conhecido a nível nacional, como telejornais, eu confio”, afirma. Ele também demonstra cautela com conteúdos das redes, pois, segundo ele, “muitas dessas páginas não fazem uma apuração rigorosa, então vejo mais como entretenimento”.
Mesmo utilizando redes sociais, ele mantém o hábito de checar informações em veículos oficiais quando algo chama atenção dele.
Já entre os mais jovens, o comportamento é diferente. A estudante Laysa Vitória Ramos dos Santos, de 15 anos, afirma que recorre primeiro às redes sociais para se informar. “Sempre vou no Instagram, em perfis de notícia rápida, porque é mais fácil e rápido”, diz.
Para ela, a formação de quem publica nem sempre é prioridade. “Não faz tanta diferença se é jornalista ou não”, admite. Ainda assim, reconhece os riscos: “Já compartilhei uma notícia falsa e foi uma experiência ruim”.
O que diz o especialista:
Para o jornalista Douglas Martins, a formação acadêmica continua sendo essencial na construção da credibilidade. “Ela norteia conceitos, ética e responsabilidade com a informação”, afirma.
Ele destaca que o diferencial do jornalista está na apuração e checagem dos fatos e o compromisso com a verdade, algo que, segundo ele, nem sempre ocorre nas redes sociais.
Sobre os influenciadores, Douglas reconhece a força do formato, mas faz um alerta: “São conteúdos mais rápidos e dinâmicos, porém, por vezes, rasos e sem aprofundamento”.
O jornalista ainda alerta sobre o risco de se informar por profissionais sem formação: “Sem apuração, há risco de disseminação de fake news”, afirma.
O papel da universidade nesse debate:
Segundo o professor de jornalismo Ranieri Vicente da Costa, o crescimento de conteúdos informais e alarmistas nas redes sociais está diretamente ligado à lógica de engajamento das plataformas. Em que, muitos desses conteúdos não têm como objetivo informar, mas gerar reações como medo, insegurança ou revolta.
O professor destaca que esse cenário não necessariamente diminui a credibilidade do jornalismo profissional, mas cria confusão no público. “Hoje, muitas pessoas associam credibilidade ao número de seguidores, e não ao processo de apuração”, explica.
No ambiente acadêmico, esse impacto já é perceptível. De acordo com Ranieri, muitos estudantes chegam à universidade com uma visão distorcida do que é notícia. “Eles associam relevância ao potencial de viralização, e não aos critérios jornalísticos, como interesse público e checagem”, afirma.
Apesar disso, ele reconhece que o fenômeno tem dois lados: “Há uma democratização da informação, mas também um risco maior de distorções e desinformação”, diz.
Para Ranieri, o principal desafio do jornalismo hoje é se adaptar sem perder sua essência. “É preciso incorporar novas linguagens e plataformas, mas sem abrir mão da ética, da responsabilidade e do compromisso com a verdade”.
O desafio da informação na era digital:
Em um cenário onde qualquer pessoa pode produzir e compartilhar conteúdo, a informação se torna mais acessível — mas nem sempre mais confiável. Entre a rapidez das redes sociais e o rigor do jornalismo profissional, o desafio passa a ser do próprio público: saber diferenciar, questionar e escolher em quem confiar.
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