INTERESSE PÚBLICO x INTERESSE DO PÚBLICO: ENTRE INFORMAÇÃO E AUDIÊNCIA
Em meio à disputa por atenção, o que informa nem sempre é o que engaja.
Por André Machado, Kauan Portela, Luiza Valle, Nathalia Araújo e Patrick Vieira (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

O jornalismo e a comunicação pública enfrentam um desafio ético e estratégico: equilibrar o dever de informar sobre temas de interesse público com a crescente demanda por conteúdos de interesse do público.
E tem diferença?
Cíntia Papile, jornalista e assessora de imprensa da Câmara Municipal de Porto Feliz, define, no contexto da comunicação pública, que o interesse público é um dos pilares e princípios norteadores. Envolve transparência, políticas públicas, decisões institucionais, uso de recursos, direitos e deveres. É, essencialmente, o que o cidadão precisa saber para exercer sua cidadania de forma plena. Já o interesse do público está relacionado ao que desperta atenção, curiosidade e engajamento, “é aquilo que o público deseja consumir”, explica.

Cíntia palestrando sobre comunicação pública | Divulgação C.M. Araras – SP
Em um cenário midiático onde o excesso de informações ocasiona disputa por atenção, conteúdos importantes para a sociedade nem sempre estão entre os mais lidos. Temas relacionados a políticas públicas e direitos institucionais acabam passando despercebidos, enquanto curiosidades sobre famosos ganham grande destaque. Para compreender o cenário, é preciso recorrer à base teórica. Como aponta o autor Nilson Lage, o interesse público refere-se a assuntos que afetam a vida coletiva, os direitos civis e o funcionamento das instituições democráticas, é o “precisar saber”. Em contraponto, o interesse do público é pautado pelo entretenimento e pela curiosidade, frequentemente alimentado por polêmicas de subcelebridades e fofocas, é o “querer saber”.
Atenção e intenção
De acordo com um artigo publicado pelo Jornal da USP (2023), a grande quantidade de informação disponível atualmente não garante que o público consiga compreender o que está sendo transmitido. Sem uma linguagem acessível e sem conexão com a realidade das pessoas, temas importantes podem acabar sendo ignorados. Segundo a International Journalists’ Network (2023), uma parcela significativa da população evita consumir notícias “mais densas”, seja pelo excesso de conteúdos, seja pela dificuldade de compreensão ou até mesmo pela falta de identificação com os temas abordados. Além disso, o consumo informativo tem migrado para plataformas digitais, onde conteúdos rápidos e acessíveis tendem a ter melhor desempenho e maior engajamento.
Enquanto isso, notícias mais leves e curiosidades sobre a vida de alguma celebridade costumam ganhar maior destaque, gerando certo favoritismo em pautas de interesse do Público, principalmente em uma sociedade que consome muito das redes sociais.
Como exemplo, essas duas notícias de perfis do Instagram:

Publicação sobre confusão entre influenciadoras e comunicado oficial da Anvisa | ambas capturas de tela do dia 08/05/2026
Na prática, o desafio do jornalismo está justamente em equilibrar esses dois aspectos, aproximando a população do que é necessário ser do entendimento de todos.
Por que isso acontece?
Temas de alto interesse público muitas vezes exigem mais esforço ou não atingem todas as camadas da população. São mais técnicos, mais densos, menos imediatos. Já conteúdos nichados ou mais leves costumam ativar emoções, identificação ou curiosidade, o que naturalmente gera mais engajamento, e atingem mais fácil diversos públicos. Para Papile, isso tem relação com a própria lógica do consumo de informação, principalmente em ambientes digitais. Com a disputa por atenção, uma população que chega cansada do trabalho e tem muitas preocupações em mente, ainda existe outro ponto de vista: “Mas também tem uma dimensão importante da teoria da comunicação: a forma como a informação é apresentada influencia diretamente sua recepção. E é neste ponto que nós, jornalistas, devemos estar atentos, como construir uma narrativa que alcance, desperte e atraia para que a missão do interesse público prevaleça”, completa.

Pessoa olhando para notícia sobre influenciadora | Crédito: Maria C. Emy e Kauan Portela
A fim de entender mais sobre a opinião do público consumidor, foram colhidas respostas, por meio de um formulário online, onde revelam certa contradição. Embora a maioria declare valorizar o conteúdo “sério”, o comportamento de engajamento sugere que a facilidade de consumo dita o ritmo do clique:

Respostas de 41 pessoas, de dentro e fora do campus
O fator decisivo para essa discrepância reside na forma da escrita: 81,8% dos entrevistados afirmam que a linguagem e o título da notícia influenciam diretamente no seu desejo de leitura. Sobre os títulos das notícias, um entrevistado comenta o que o faz clicar: “Interesse pessoal, acredito que seja pela curiosidade intrínseca em nós, independente se for algo que vá nos agregar ou não”.
Além disso, 26,8% afirmam nunca ter ouvido falar do termo “cortina de fumaça”, que como define a revista Abril educação: “é a estratégia de atrair atenção para assuntos irrelevantes ou falsos de forma a tirar o foco de pautas centrais e de maior impacto”, fator importante na distração dos público.
Diante de todos esses fatores, o que fazer?
Inovar e prosseguir
Para Cintia, Ignorar completamente o interesse do público também é um erro, pois o público responde, mas leva tempo. Trata-se de um trabalho de construção: “O que podemos fazer é utilizar como porta de entrada. Quando você traduz, contextualiza e aproxima da realidade do cidadão, o engajamento muda”, acrescenta. Ou seja, não se trata de uma batalha perdida, apenas de uma realidade nova, a qual temos que nos adaptar.
“É neste ponto que nós, jornalistas, devemos estar atentos, como construir uma narrativa que alcance, desperte e atraia para que a missão do interesse público prevaleça”, completa.
