A ciência por trás das canetas emagrecedoras
Pesquisadora da Uniso, Luciane Lopes, conta a história desses medicamentos e aponta os seus benefícios e riscos
Por Gustavo Guebert e Mar Carrasco (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Créditos: Bernardo Sader
Basta abrir o feed de qualquer rede social para encontrar relatos de transformações físicas impressionantes. Vídeos com milhões de visualizações exibem as chamadas “canetas emagrecedoras” como soluções simples para a perda de peso, impulsionadas por celebridades e influenciadores digitais. No entanto, por trás do deslumbre das telas e do marketing de resultados rápidos, existe uma trajetória científica complexa que começou longe das farmácias: na saliva de um réptil.
Para a professora doutora e farmacêutica Luciane Cruz Lopes, o fenômeno exige cautela e contextualização. “Esses medicamentos ficaram conhecidos como canetas emagrecedoras, porém elas possuem outras indicações além do tratamento da obesidade”, alerta a pesquisadora. A ciência por trás desses fármacos não nasceu com foco na estética, mas sim no entendimento de processos biológicos profundos de secreção hormonal.
Por volta de 2001, pesquisadores identificaram na saliva do “Monstro-de-Gila”, um lagarto nativo do deserto, uma substância com propriedades interessantes. Muito semelhante a um hormônio produzido pelas células intestinais humanas, essa substância tinha a função de aumentar a secreção de insulina e enviar ao cérebro uma mensagem de saciedade após a ingestão de alimentos calóricos. Em 2005, esse achado biológico foi transformado em medicamento, mas com um desafio logístico: a vida útil da substância no organismo era curtíssima, exigindo duas aplicações diárias, o que tornava o tratamento caro e pouco prático.
Diabetes: a descoberta
O foco da indústria não era a balança, mas o controle glicêmico. “Inicialmente, era um medicamento usado apenas para tratar diabetes”, explica Luciane. Entre 2005 e 2010, a engenharia farmacêutica avançou no desenvolvimento de análogos do GLP-1, criando versões que resistiam por mais tempo no corpo, permitindo a aplicação de apenas uma dose diária.
Durante os testes clínicos para o controle da diabetes, um padrão começou a chamar a atenção dos cientistas. Os pacientes perdiam peso de forma consistente. “Esses medicamentos tinham como efeito colateral a náusea e o aumento da sensação de saciedade. A partir daí, surgiu a ideia de usá-los para tratar obesidade”, relata a professora. Em 2017 com a chegada da semaglutida (conhecida comercialmente como Ozempic e Wegovy), um fármaco de longa duração revolucionou o mercado ao permitir apenas uma aplicação semanal.
O medicamento como solução para obesidade
A mudança da indicação terapêutica ocorreu em 2020, quando esses fármacos foram formalmente liberados para o tratamento da obesidade. Recentemente, a ciência expandiu ainda mais o uso dessas moléculas, que agora também são indicadas para o tratamento de esteatose hepática (gordura no fígado). A lógica por trás do emagrecimento é a mesma que auxilia no diabetes. O medicamento simula a saciedade e retarda o esvaziamento do estômago, fazendo com que o indivíduo se sinta “cheio” por muito mais tempo.
Efeitos colaterais: o preço da saciedade
No entanto, nem tudo são flores ao optar por esse caminho da perda de peso. A farmacologia ensina que todo efeito potente traz consigo reações adversas. No caso das canetas, o principal vilão é a náusea. Como o medicamento diminui o peristaltismo (movimentos naturais que empurram o alimento pelo trato digestivo), a atividade intestinal cai drasticamente. O resultado pode ser um quadro desconfortável de vômitos, constipação e flatulência.
Esses sintomas são os principais responsáveis pelo abandono do tratamento. Luciane aponta uma diferença estatística interessante entre as drogas: enquanto o Ozempic, com efeitos mais leves, registra uma taxa de abandono de cerca de 4%, o Mounjaro, considerado mais potente, chega a ter 8% de desistência por parte dos pacientes. Além do desconforto imediato, há riscos mais severos. “Há estudos inconclusivos sobre uma relação da administração desses medicamentos e o surgimento de pancreatite”, diz a pesquisadora, ressaltando que o fígado e a vesícula biliar também podem ficar sobrecarregados. Relatos mais graves, como casos de cegueira irreversível notificados pela Anvisa, acendem o alerta para o uso sem acompanhamento rigoroso.
Irregularidades e o perigo do mercado paralelo
O sucesso do medicamento no mercado gerou um efeito colateral social. Recentemente, a Polícia Federal apreendeu materiais em farmácias de manipulação que produziam essas fórmulas de forma irregular, sem os devidos protocolos de segurança. Há também carregamentos de canetas importadas via mercado paralelo, que circulam sem qualquer fiscalização sanitária.
A professora Luciane é enfática ao alertar que a manipulação só é segura sob regras específicas, e o perigo das versões adulteradas é imensurável. “Isso pode dificultar a determinação dos efeitos colaterais, uma vez que não se sabe o que mais teria na caneta”, explica.
É fundamental frisar que tratamos de medicamentos injetáveis. Diferente de um comprimido, substâncias aplicadas diretamente no tecido subcutâneo exigem um controle absoluto em sua produção. Problemas de higiene, falhas na cadeia de resfriamento ou presença de contaminantes em canetas falsificadas podem levar a infecções graves e reações alérgicas. O benefício clínico dessas canetas é inegável, mas, como conclui a pesquisadora, apenas o tempo e os estudos de longo prazo revelarão o impacto real dessa “revolução” na saúde pública mundial.
Entrevista gravada para o programa Uniso Saúde – LabCom-Uniso.
