O jornalismo-espetáculo no videoclipe de Paparazzi, de Lady Gaga
Lançado em 2009 e dirigido por Jonas Akerlund, o videoclipe da música Paparazzi, de Lady Gaga, tem a duração de pouco mais de 7 minutos e conta a história de uma versão fictícia da própria Lady Gaga em uma trama de vingança e reconquista da fama. A forma como esses dois objetivos se entrelaçam tem a ver com o papel da imprensa no universo criado no clipe, que é uma extrapolação do que é visto no mundo real.
O jornalismo de celebridades, baseado em fofocas e manchetes apelativas, é forte hoje, e era ainda mais forte em 2009, numa era onde as redes sociais ainda começavam seu processo de possibilitar que qualquer usuário de internet se torne um formador de opinião. Quem influenciava a opinião pública era a imprensa, e o jornalismo de fofocas, com seus paparazzi e boatos, criava espetáculos em cima da vida privada dos famosos.
O videoclipe começa com uma Lady Gaga no auge da fama sendo levada pelo namorado para a varanda do quarto de sua mansão. A intenção do namorado é a de fazer os dois serem fotografados em momentos de intimidade por paparazzi escondidos. Ao perceber a armação, a cantora tenta se defender e é jogada da sacada pelo namorado. Lady Gaga fica severamente machucada, e os tabloides são rápidos em decretar o seu fim no mundo da fama. Ela volta para casa e, numa cena que sintetiza a relação entre dor e espetáculo, caminha de muletas com um look do lendário estilista Thierry Mugler, famoso por trabalhar com o exagero e com a artificialidade.
Por fim, enquanto revistas de famosos aplaudem uma nova “it girl” que viria substituir Lady Gaga, a cantora se vinga do namorado o envenenando. Ela própria liga para a polícia e confessa o crime. Ao ser levada presa, o circo está armado e Gaga é a estrela. Para ela, para a imprensa e para seu público, não é apenas uma prisão, é uma apoteose que conduz Gaga de volta ao topo. Os tabloides a aclamam novamente, louvando seu “retorno”, dizendo que a amam novamente e até proclamando sua inocência.
Na lente distorcida das câmeras, o olhar fica alterado e um homicídio vira catarse, uma prisão vira performance e uma assassina vira heroína. No mundo real, também vemos isso. Assassinos condenados como o goleiro Bruno, Suzane von Richtofen e Elize Matsunaga têm fãs que os defendem ferrenhamente. Isso acontece porque um mau jornalismo perde a medida e confunde organizar os fatos numa narrativa coerente com transformar a realidade em folhetim. O resultado é uma confusão entre o real e o fictício, entre o público e o privado. Como jornalistas, é imprescindível lembrar sempre que nosso objeto de trabalho são pessoas reais, com histórias reais, e que tratá-las como personagens num enredo leva a uma desumanização generalizada, onde o objeto vira ator, o público vira plateia e nós jornalistas viramos o coro de tragédias.

